BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2032

31 de outubro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Stephen Kanitz
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

André Petry
Fábrica de marginais

"A miséria marginaliza e a legalização
do aborto é uma medida igualitária.
Sem miséria e com aborto, dá Suécia"

No dia em que os mecanismos de proteção social no Brasil funcionarem com a rapidez e a eficiência da patrulha ideológica, o Brasil será como a Suécia. O governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, em entrevista ao site G1, disse que as "favelas são fábricas de marginais", e o mundo desabou sobre sua cabeça. Para ilustrar sua tese, Cabral disse duas besteiras. A primeira é uma imprecisão grosseira: afirmou que a taxa de fertilidade nas favelas cariocas é igual às de Gabão e Zâmbia. Não é: nas favelas cariocas, ela é de 2,6 filhos por mulher, contra 5,4 e 6,1 nos países citados. A segunda é uma conclusão descabida: disse que o aborto é capaz de reduzir a taxa de criminalidade na medida em que impede o nascimento de crianças indesejadas e criadas em famílias desestruturadas. Não há nada assim: a tese, aventada no livro Freakonomics, aparece no condicional, precisa ser investigada a fundo, e há renomados especialistas que a contestam com veemência e solidez. É uma hipótese, não é um fato.

Mas a patrulha fez o mundo desabar na cabeça de Cabral porque o essencial de sua tese é cristalinamente verdadeiro: as favelas são fábricas de marginais, sim. Cabral, acuado diante da repercussão negativa, saiu desdizendo-se no dia seguinte. Não precisava: as favelas são fábricas de marginais, sim. Isso não quer dizer que os pobres são culpados, naturalmente maus e geneticamente mais inclinados ao crime. E, portanto, precisam ser eliminados. Essa é uma manobra patrulheira para falsificar o núcleo do argumento. Os pobres não são maus. Nem geneticamente mais propensos ao crime. Nem têm de ser eliminados fisicamente. A miséria é que é má. Quanto mais aguda, pior. A miséria precisa ser extirpada. A miséria destrói, brutaliza, animaliza, desumaniza. No seu rastro de desespero e desamparo, ela cria marginais. Cria alguns marginais, não todos – pois é óbvio, e diante da patrulha canarinho é preciso dizer o óbvio, que nem todo pobre é marginal, e nem todo marginal é pobre. Simplesmente porque só a razão econômica não explica a criminalidade.

O governador abriu o flanco aos que o acusam de defender a eliminação dos pobres quando falou do aborto como política de segurança pública. Mas, resgatado de seu vôo cego, o argumento essencial é, de novo, verdadeiro: as mulheres faveladas não têm acesso a políticas de planejamento familiar, a métodos de anticoncepção ou ao aborto (esse, apesar de clandestino, bastante acessível às mulheres mais abastadas). A evidência do tratamento desigual está na própria taxa de fecundidade dos morros cariocas (2,6) contra a taxa verificada na Zona Sul (1,7). Até em cidades do interior, o acesso ao mais elementar meio de contracepção – a camisinha – é restrito, pois há padres católicos que usam sua autoridade para demonizar o prefeito que estimula a distribuição de graça de camisinha (e depois o mesmo padre demoniza a mulher que faz aborto...!).

Cabral contribui com sua ousadia, apesar dos equívocos. Em vez da patrulha, seria melhor o debate franco, sem a manipulação de preconceitos, sem o recurso estacionário do politicamente correto, para que se possa dizer – como está dito aqui – que a miséria marginaliza e a legalização do aborto é uma medida igualitária. Sem miséria e com aborto, dá Suécia.




  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |