
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Luiz
Felipe de Alencastro
Vitória da
varíola?
"A
volta da vacinação contra a doença
será
uma funesta derrota para médicos,
cientistas
e todos os que acreditam no
progresso da ciência em benefício
da humanidade"
Ilustração Ale Setti
 |
A notícia que estava no ar virou fato concreto: diante do bioterrorismo,
os Estados Unidos e os países europeus retomaram a fabricação
da vacina antivariólica. O retorno à vacinação
obrigatória em escala mundial, abandonada em 1984, é apenas
questão de tempo. O fato representa uma funesta derrota para médicos,
cientistas e todos os que acreditam no progresso da ciência em benefício
da humanidade. Dezenas de séculos de combate contra a varíola
a maior matadora de homens de toda a História conhecem
agora um trágico desfecho.
Efetivamente,
os especialistas pensam que a varíola surgiu há 10.000
anos, quando se desenvolveu a agricultura, gerando concentrações
populacionais propícias à expansão do vírus.
Durante a Idade Média, o mal espalhou-se na África e na
Europa, preparando o bote para a entrada devastadora na América.
Primeiras vítimas maciças, os astecas dobraram-se diante
dos espanhóis, não tanto por causa dos cavalos de Cortés,
mas em conseqüência da varíola. Na conquista do México
terá ocorrido a maior tragédia da História: centenas
de milhares, talvez milhões, de astecas foram vitimados pela praga
entre 1520 e 1522. Dali, a doença alastrou-se no império
inca, precedendo a ofensiva dos soldados de Pizarro, os quais, como a
maioria dos europeus, estavam relativamente imunizados. A introdução
forçada de africanos na América ampliou as bases de ataque
do vírus. Daí em diante, os índios cujo sistema
imunitário era bastante reduzido sofreriam o impacto alternado
dos surtos variólicos oriundos da Europa e da África.
Os povos
indígenas do Brasil pagaram um duro tributo. Referindo-se às
aldeias próximas dos portugueses na Amazônia, um missionário
jesuíta registrou que a epidemia de varíola dos anos 1660
dizimou a região "com tanto estrago dos índios que acabou
a maior parte deles". Nem sempre os surtos eram involuntários:
no início do século XVII, os goitacazes da região
de Campos foram contaminados por roupas "doadas" pelos moradores, assim
como os botocudos do baixo Vale do Rio Doce, infectados no início
do século XIX. Relatos mais tardios confirmam a persistência
dessa longa guerra virótica contra os índios.
No meio
tempo, a medicina tradicional asiática e a africana fizeram uma
descoberta decisiva. A imunização podia ser adquirida pela
inalação de pele moída dos variolosos. Junto com
outras observações realizadas na Inglaterra, esse método
a variolação , usado por africanos na América,
abriu a via para que o médico inglês Jenner inventasse a
vacina contra a varíola, em 1798.
Nos anos
1960, um programa mundial de erradicação da varíola
foi lançado, obtendo, em 26 de outubro de 1977, o que parecia ser
o mais rotundo sucesso da ciência contemporânea. Nessa data,
na Somália, foi registrado o último caso de contaminação
natural por varíola. E, em 1980, a Organização Mundial
de Saúde (OMS) declarou solenemente a varíola erradicada
da face da Terra. A OMS augurava uma nova era, elaborando programas similares
para a erradicação do tétano, da febre amarela, da
coqueluche e da poliomielite.
O fatídico
outubro de 2001 apaga a vitória gloriosa de outubro de 1977. Pior,
os cientistas preparam-se para combater formas mais virulentas, geneticamente
modificadas, da varíola e de outras doenças eventualmente
manipuladas pelos bioterroristas.
Há
motivos para o catastrofismo, mas existem também razões
para a reflexão moderada. Na luta do Bem contra o Mal, a varíola
pôde ser vencida em 1980, quiçá definitivamente, graças
à ação conjunta de cientistas e especialistas do
mundo inteiro congregados na OMS. Diante do embate contra o terrorismo
e do assanhamento belicista, esta é a lição que deve
ser tirada da luta milenar contra a varíola: por intermédio
da OMS, sua instituição filiada, a ONU pôde mobilizar
todos os países numa batalha que nenhum deles podia vencer sozinho.
Só a ONU e a prevalência do direito internacional poderão
preservar essa e outras vitórias.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
|
|
 |