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Edição 1 724 - 31 de outubro de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

Vitória da varíola?

"A volta da vacinação contra a doença
será uma funesta derrota para médicos,
cientistas e todos os que acreditam no
progresso da ciência em benefício
da humanidade"



Ilustração Ale Setti


A notícia que estava no ar virou fato concreto: diante do bioterrorismo, os Estados Unidos e os países europeus retomaram a fabricação da vacina antivariólica. O retorno à vacinação obrigatória em escala mundial, abandonada em 1984, é apenas questão de tempo. O fato representa uma funesta derrota para médicos, cientistas e todos os que acreditam no progresso da ciência em benefício da humanidade. Dezenas de séculos de combate contra a varíola – a maior matadora de homens de toda a História – conhecem agora um trágico desfecho.

Efetivamente, os especialistas pensam que a varíola surgiu há 10.000 anos, quando se desenvolveu a agricultura, gerando concentrações populacionais propícias à expansão do vírus. Durante a Idade Média, o mal espalhou-se na África e na Europa, preparando o bote para a entrada devastadora na América. Primeiras vítimas maciças, os astecas dobraram-se diante dos espanhóis, não tanto por causa dos cavalos de Cortés, mas em conseqüência da varíola. Na conquista do México terá ocorrido a maior tragédia da História: centenas de milhares, talvez milhões, de astecas foram vitimados pela praga entre 1520 e 1522. Dali, a doença alastrou-se no império inca, precedendo a ofensiva dos soldados de Pizarro, os quais, como a maioria dos europeus, estavam relativamente imunizados. A introdução forçada de africanos na América ampliou as bases de ataque do vírus. Daí em diante, os índios – cujo sistema imunitário era bastante reduzido – sofreriam o impacto alternado dos surtos variólicos oriundos da Europa e da África.

Os povos indígenas do Brasil pagaram um duro tributo. Referindo-se às aldeias próximas dos portugueses na Amazônia, um missionário jesuíta registrou que a epidemia de varíola dos anos 1660 dizimou a região "com tanto estrago dos índios que acabou a maior parte deles". Nem sempre os surtos eram involuntários: no início do século XVII, os goitacazes da região de Campos foram contaminados por roupas "doadas" pelos moradores, assim como os botocudos do baixo Vale do Rio Doce, infectados no início do século XIX. Relatos mais tardios confirmam a persistência dessa longa guerra virótica contra os índios.

No meio tempo, a medicina tradicional asiática e a africana fizeram uma descoberta decisiva. A imunização podia ser adquirida pela inalação de pele moída dos variolosos. Junto com outras observações realizadas na Inglaterra, esse método – a variolação –, usado por africanos na América, abriu a via para que o médico inglês Jenner inventasse a vacina contra a varíola, em 1798.

Nos anos 1960, um programa mundial de erradicação da varíola foi lançado, obtendo, em 26 de outubro de 1977, o que parecia ser o mais rotundo sucesso da ciência contemporânea. Nessa data, na Somália, foi registrado o último caso de contaminação natural por varíola. E, em 1980, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou solenemente a varíola erradicada da face da Terra. A OMS augurava uma nova era, elaborando programas similares para a erradicação do tétano, da febre amarela, da coqueluche e da poliomielite.

O fatídico outubro de 2001 apaga a vitória gloriosa de outubro de 1977. Pior, os cientistas preparam-se para combater formas mais virulentas, geneticamente modificadas, da varíola e de outras doenças eventualmente manipuladas pelos bioterroristas.

Há motivos para o catastrofismo, mas existem também razões para a reflexão moderada. Na luta do Bem contra o Mal, a varíola pôde ser vencida em 1980, quiçá definitivamente, graças à ação conjunta de cientistas e especialistas do mundo inteiro congregados na OMS. Diante do embate contra o terrorismo e do assanhamento belicista, esta é a lição que deve ser tirada da luta milenar contra a varíola: por intermédio da OMS, sua instituição filiada, a ONU pôde mobilizar todos os países numa batalha que nenhum deles podia vencer sozinho. Só a ONU e a prevalência do direito internacional poderão preservar essa e outras vitórias.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (lfa@workmail.com)


 
 
   
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