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Roberto
Pompeu de Toledo
Em torno do
O xador (III)
O
contrato de
namoro no Irã,
os apuros da rainha da Jordânia,
a poligamia: casos de mulher
e sexo no Islã
No Brasil
há o namoro, o noivado, a transa, o chamego, a ficada, a pulada
de cerca. Há ainda o ajuntamento dos trapos, também conhecido,
se se preferir fórmulas tão mais castiças quanto
mais bregas, por "amancebamento" ou "concubinagem". São todas variedades
de relacionamento amoroso que se distinguem do ato formal e religiosamente
sancionado do casamento. No Irã, existe o "sinjeh". É o
que se aprende no livro da jornalista australiana Geraldine Brooks já
citado nesta coluna, dois números de VEJA atrás (Nove
Partes do Desejo, edição brasileira da editora Gryphus).
Que é
o sinjeh? Esse nome compreende diversas formas de relacionamento
namoro, ficada, transa, amancebamento. Pode durar um dia ou anos. Ao contrário
dos jeitos brasileiros de não-casar, no entanto, o sinjeh tem a
curiosa característica de ser religiosamente aprovado. Faz-se um
contrato de sinjeh perante o mulá, ou o aiatolá, os clérigos
credenciados para chancelá-lo. De posse desse documento, o casal
terá direito a se hospedar num hotel ou viajar junto sem o risco
de ser detido numa blitz na estrada. O contrato serve também para
conferir reconhecimento aos filhos nascidos dessa união, além
de representar a versão iraniana da barriga de aluguel: o marido
de mulher infértil pode celebrar o sinjeh com outra mulher, ter
um filho com ela e trazê-lo para ser criado com a mulher permanente.
Antiga instituição do ramo xiita do Islã, o sinjeh
caíra em desuso, mas foi ressuscitado depois da guerra Irã-Iraque.
Rafsanjani, o presidente da época, julgou que as muitas viúvas
deixadas pela guerra tinham direito à retomada de uma vida afetiva.
Além disso, precisava-se investir no repovoamento do país.
Foi um avanço, em relação à repressão
anterior às relações fora do casamento.
O livro
de Geraldine Brooks, fruto dos seis anos que ela passou como correspondente
no Oriente Médio, é uma investigação sobre
a condição da mulher no mundo islâmico, recheada de
episódios vividos pela autora. Uma vez, na Jordânia, ao cobrir
uma manifestação contra o aumento dos preços, teve
a surpresa de descobrir que, a esse protesto, somava-se outro: pedia-se
que o rei Hussein se divorciasse da mulher, a americana Noor. Um beduíno
que estava por perto, kaffiyeh à Arafat na cabeça, explicou:
"As pessoas daqui fazem muitas perguntas sobre a rainha. Ela era virgem
quando se casou com o rei? É mesmo muçulmana, como diz?
Se é, por que não cobre os cabelos?" Noutra ocasião,
Geraldine Brooks acompanhou a rainha Noor numa solenidade. A rainha vestia
uma saia que lhe cobria os joelhos. Já a saia de Geraldine era
mais curta. No dia seguinte, teve a surpresa de notar, numa foto de jornal
em que aparecia atrás da rainha, que suas pernas haviam sumido.
Um retoque lhes providenciara um par de pudicas calças.
Na Arábia
Saudita de hábitos muito mais estritos, onde nada além de
cobrir o corpo todo é permitido, uma vez a autora foi a uma festa
em que, como é de regra, as mulheres entravam por uma porta, os
homens por outra e, uma vez lá dentro, eles ficavam num ambiente
e elas noutro. Como Geraldine precisava entrevistar um dos homens da festa,
sobre tema político, teve permissão para ir ao ambiente
dos homens. Quando voltou, a mulher do entrevistado piscou e lhe disse:
"Você me fez um grande favor. Meu marido adora falar de política.
E falar de política com uma mulher certamente o deixou excitado.
Hoje vou ter uma grande noite de sexo". Em território palestino,
Geraldine fez amizade com uma família de marido, duas mulheres
e catorze filhos. O ambiente poligâmico lembrou-a de uma canção
berbere, cujos pungentes versos celebram a chegada de uma nova esposa
a casa: "A estranha chegou; ela tem seu lugar na nossa casa. / Ela é
nova, é linda, bem como meu marido queria. / As noites não
são suficientemente longas para os jogos deles. / Desde que ela
chegou a casa não é mais a mesma. (...) Mas aceito meu novo
destino / Porque meu marido está feliz com sua nova mulher. / Eu
também já fui linda, mas meu tempo passou".
Imagine-se
a situação do passageiro de avião que não
leu as instruções de segurança ao embarcar, nem prestou
atenção nas palavras do comissário. No meio do vôo
há uma pane, e ele agora procura desesperadamente se atualizar
sobre o tema. E toca a procurar o papel com as instruções,
a consultar o passageiro ao lado, a chamar a aeromoça... Após
os atentados de 11 de setembro, o resto do mundo procura, com a mesma
sofreguidão, e na mesma situação de emergência,
atualizar-se sobre o Islã. O livro de Geraldine Brooks aborda um
assunto, a mulher, que é talvez, como já se insistiu aqui,
nos dois textos anteriores, a causa de maior estranhamento entre a cultura
muçulmana e a de origem européia. Algumas pessoas fazem
diários para recordar-se das viagens, outras juntam fotos. Geraldine
diz que tem o guarda-roupa nesse papel. Ali estão os lenços
e véus sem os quais não circularia na região. E,
num lugar de honra, o xador negro de rigor no Irã, com o qual se
embrulha e se esconde essa nitroglicerina pura que é a mulher.
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