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Edição 1 724 - 31 de outubro de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

Em torno do
O xador (III)

O contrato de namoro no Irã,
os apuros
da rainha da Jordânia,
a poligamia:
casos de mulher
e
sexo no Islã

No Brasil há o namoro, o noivado, a transa, o chamego, a ficada, a pulada de cerca. Há ainda o ajuntamento dos trapos, também conhecido, se se preferir fórmulas tão mais castiças quanto mais bregas, por "amancebamento" ou "concubinagem". São todas variedades de relacionamento amoroso que se distinguem do ato formal e religiosamente sancionado do casamento. No Irã, existe o "sinjeh". É o que se aprende no livro da jornalista australiana Geraldine Brooks já citado nesta coluna, dois números de VEJA atrás (Nove Partes do Desejo, edição brasileira da editora Gryphus).

Que é o sinjeh? Esse nome compreende diversas formas de relacionamento – namoro, ficada, transa, amancebamento. Pode durar um dia ou anos. Ao contrário dos jeitos brasileiros de não-casar, no entanto, o sinjeh tem a curiosa característica de ser religiosamente aprovado. Faz-se um contrato de sinjeh perante o mulá, ou o aiatolá, os clérigos credenciados para chancelá-lo. De posse desse documento, o casal terá direito a se hospedar num hotel ou viajar junto sem o risco de ser detido numa blitz na estrada. O contrato serve também para conferir reconhecimento aos filhos nascidos dessa união, além de representar a versão iraniana da barriga de aluguel: o marido de mulher infértil pode celebrar o sinjeh com outra mulher, ter um filho com ela e trazê-lo para ser criado com a mulher permanente. Antiga instituição do ramo xiita do Islã, o sinjeh caíra em desuso, mas foi ressuscitado depois da guerra Irã-Iraque. Rafsanjani, o presidente da época, julgou que as muitas viúvas deixadas pela guerra tinham direito à retomada de uma vida afetiva. Além disso, precisava-se investir no repovoamento do país. Foi um avanço, em relação à repressão anterior às relações fora do casamento.

O livro de Geraldine Brooks, fruto dos seis anos que ela passou como correspondente no Oriente Médio, é uma investigação sobre a condição da mulher no mundo islâmico, recheada de episódios vividos pela autora. Uma vez, na Jordânia, ao cobrir uma manifestação contra o aumento dos preços, teve a surpresa de descobrir que, a esse protesto, somava-se outro: pedia-se que o rei Hussein se divorciasse da mulher, a americana Noor. Um beduíno que estava por perto, kaffiyeh à Arafat na cabeça, explicou: "As pessoas daqui fazem muitas perguntas sobre a rainha. Ela era virgem quando se casou com o rei? É mesmo muçulmana, como diz? Se é, por que não cobre os cabelos?" Noutra ocasião, Geraldine Brooks acompanhou a rainha Noor numa solenidade. A rainha vestia uma saia que lhe cobria os joelhos. Já a saia de Geraldine era mais curta. No dia seguinte, teve a surpresa de notar, numa foto de jornal em que aparecia atrás da rainha, que suas pernas haviam sumido. Um retoque lhes providenciara um par de pudicas calças.

Na Arábia Saudita de hábitos muito mais estritos, onde nada além de cobrir o corpo todo é permitido, uma vez a autora foi a uma festa em que, como é de regra, as mulheres entravam por uma porta, os homens por outra e, uma vez lá dentro, eles ficavam num ambiente e elas noutro. Como Geraldine precisava entrevistar um dos homens da festa, sobre tema político, teve permissão para ir ao ambiente dos homens. Quando voltou, a mulher do entrevistado piscou e lhe disse: "Você me fez um grande favor. Meu marido adora falar de política. E falar de política com uma mulher certamente o deixou excitado. Hoje vou ter uma grande noite de sexo". Em território palestino, Geraldine fez amizade com uma família de marido, duas mulheres e catorze filhos. O ambiente poligâmico lembrou-a de uma canção berbere, cujos pungentes versos celebram a chegada de uma nova esposa a casa: "A estranha chegou; ela tem seu lugar na nossa casa. / Ela é nova, é linda, bem como meu marido queria. / As noites não são suficientemente longas para os jogos deles. / Desde que ela chegou a casa não é mais a mesma. (...) Mas aceito meu novo destino / Porque meu marido está feliz com sua nova mulher. / Eu também já fui linda, mas meu tempo passou".

Imagine-se a situação do passageiro de avião que não leu as instruções de segurança ao embarcar, nem prestou atenção nas palavras do comissário. No meio do vôo há uma pane, e ele agora procura desesperadamente se atualizar sobre o tema. E toca a procurar o papel com as instruções, a consultar o passageiro ao lado, a chamar a aeromoça... Após os atentados de 11 de setembro, o resto do mundo procura, com a mesma sofreguidão, e na mesma situação de emergência, atualizar-se sobre o Islã. O livro de Geraldine Brooks aborda um assunto, a mulher, que é talvez, como já se insistiu aqui, nos dois textos anteriores, a causa de maior estranhamento entre a cultura muçulmana e a de origem européia. Algumas pessoas fazem diários para recordar-se das viagens, outras juntam fotos. Geraldine diz que tem o guarda-roupa nesse papel. Ali estão os lenços e véus sem os quais não circularia na região. E, num lugar de honra, o xador negro de rigor no Irã, com o qual se embrulha e se esconde essa nitroglicerina pura que é a mulher.

   
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