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Terror à antiga
Em Os
Outros, com Nicole Kidman,
os fantasmas estão na tela e na
cabeça da platéia

Isabela Boscov

As crianças James Bentley e Alakina Mann
trancadas em casa e sempre às escuras
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Em todos
os 101 minutos de Os Outros (The Others, Estados
Unidos/Espanha/França, 2001), que estréia nesta quinta-feira
no país, não há uma única tomada de computação
gráfica. Como se trata de um filme de terror, é um feito
a celebrar. Significa que o diretor Alejandro Amenábar encontrou
um meio bem mais eficaz de apavorar o público do que conjurar seres
ou aparições de mentirinha. Amenábar simplesmente
usa a cabeça a sua, para bolar um roteiro de primeira, e
a da platéia, que exercita a imaginação do começo
ao fim (surpreendente, por sinal). Esse não é o único
aspecto "retrô" de Os Outros. Toda a trama se passa numa
velha casa assombrada, e ninguém diria que ainda há tanta
novidade a tirar de um tema que conta com décadas de bons (e maus)
serviços prestados ao cinema.
Os Outros
se passa em 1945, ao fim da II Guerra, na Ilha de Jersey, único
território inglês que foi ocupado pelos alemães. Lá,
uma jovem e empertigada senhora, Grace (Nicole Kidman), habita uma mansão
vitoriana isolada num pântano. A casa vive trancada, e não
só por causa da proximidade dos nazistas. Uma rara doença
impede que seu casal de filhos seja exposto a qualquer luz mais forte
que a de um lampião. Todas as cortinas devem permanecer cerradas
e nenhuma porta deve ser aberta sem que a anterior seja trancada. É
uma prisão, e às escuras. Talvez por isso os empregados
de Grace tenham sumido durante a noite. Essas regras, porém, não
parecem assustar os três novos criados, que batem à porta
sob pretexto de ter trabalhado lá em outros tempos a governanta
Bertha Mills (Fionnula Flanagan), um jardineiro e uma jovem muda. Logo,
a senhora Mills terá se transformado num amparo para Grace, que
vive na expectativa improvável de que seu marido volte da guerra.
A governanta acalma a patroa com pílulas e abafa as brigas entre
mãe e filha. A criança jura que há "intrusos" na
casa. Diz que conversa com um menino e que vê amiúde uma
senhora que parece ser cega, mas enxerga. Grace, uma católica rigorosa,
não quer nem ouvir falar dessas aparições sobrenaturais.
A essa altura,
a platéia já está de cabelos em pé, e por
causa de recursos bem manjados neblina, assoalhos que rangem, criados
taciturnos, móveis cobertos por lençóis. É
um verdadeiro compêndio do terror literário e cinematográfico
baseado exclusivamente na sugestão. Amenábar, um chileno
de 29 anos criado na Espanha, domina bem esse arsenal. Combina a economia
de Alfred Hitchcock (não por acaso sua protagonista tem o prenome
da atriz Grace Kelly e se penteia como ela em Janela Indiscreta)
com o tom sinistro de clássicos como o romance A Volta do Parafuso,
de Henry James. Mas nem tudo o que há de macabro em Os Outros
saiu da ficção. As fotos de defuntos que Grace encontra
num álbum são autênticas, e foram cedidas por um museu
americano. Na era vitoriana, era comum que os familiares fotografassem
os mortos como se estivessem vivos, em poses cotidianas, para preservar
sua memória.
Outro ponto
alto de Os Outros é a atuação de Nicole Kidman,
que acerta no timbre, entre a histeria e o controle. É um favor
que ela fica devendo ao seu ex-marido, Tom Cruise. O astro viu o filme
anterior de Amenábar (este é apenas o seu terceiro), Preso
na Escuridão, e ficou impressionado não só com
a atriz principal Penélope Cruz, com quem está namorando
, como com a habilidade do diretor em manipular a percepção
da platéia. Reservou para si uma refilmagem de Preso na Escuridão,
intitulada Vanilla Sky (na qual Penélope repete seu papel),
e dispôs-se a bancar a produção de Os Outros.
A pré-estréia americana do filme, aliás, rendeu uma
saia justíssima. Na véspera de assinarem seu divórcio,
Cruise e Nicole tiveram de comparecer à festa, como bons profissionais.
Cronometraram sua chegada para não trombarem, mas Nicole aproveitou
para dar uma alfinetada no ex-marido: disse que já pode usar saltos
altos à vontade. Quem se saiu realmente bem em toda essa história,
contudo, foi Amenábar. Aceitou os 20 milhões de dólares
financiados por Cruise, mas fez questão de filmar na Espanha, com
uma equipe espanhola. Garantiu para si o melhor de dois mundos
dinheiro em quantidade americana, mas com a liberdade criativa de que
se pode usufruir na Europa. A julgar por seus filmes e por sua sensatez,
ele vai longe.

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