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O não-ser
e o nada
Volta
às prateleiras o clássico Oblomov.
Nome do protagonista é sinônimo
de "inércia" na Rússia
Antonio Gonçalves
Filho

Gontcharov:
deprê à moda russa |
Do livro
Oblomov, de Ivan Gontcharov (1812-1891), já se disse
quase tudo, inclusive que o decadente aristocrata que dá nome ao
romance seria uma espécie de Hamlet russo. Há um certo exagero
na comparação, até porque o dilema desse personagem
é bem diferente daquele que levou o príncipe shakespeariano
ao beco do "ser ou não ser". Oblomov não planeja nenhuma
vingança. Ao contrário. Sua ausência de vontade, sua
indolência e seu tédio aristocrático não são
sintomas de um conflito interior movido pela cobrança de fantasmas,
mas de uma doença hoje conhecida como depressão. Ainda que
não seja um Hamlet, contudo, Oblomov tem a substância das
grandes criações literárias. Tanto assim que seu
nome deu origem a um termo russo, "oblomovchtina", equivalente, em português,
a "inércia". É uma boa notícia tê-lo de volta
às livrarias brasileiras, numa edição honesta, ainda
que um pouco descuidada na revisão (tradução de Juliana
Borges; Germinal; 551 páginas; 49 reais).
Aos 32 anos,
o anti-herói de Gontcharov é um traste envelhecido que mofa
num quarto eternamente fechado de um apartamento em São Petersburgo.
Trata-se, enfim, de um zumbi, quase um morto social, não fossem
as raras visitas de amigos fiéis como Stolz, única pessoa
capaz de tirar Oblomov da cama. Em seu quarto, misto de escritório,
sala de visitas e ante-sala do inferno, o protagonista passa a maior parte
do tempo em discussões com o velho criado Zahar, "herdado" com
a propriedade dos pais na província. Pressionado pelos prejuízos
acumulados em sua propriedade rural, Oblomov planeja uma reforma que jamais
irá concretizar. Mordaz, Gontcharov opta pelo tom farsesco quando
descreve o ambiente e as roupas de seu aristocrata, mas acaba sucumbindo
à compaixão, como nas melhores novelas de Tolstoi. Arrastado
a reuniões mundanas pelo amigo Stolz, o sonhador Oblomov conhece
Olga, mas nem mesmo a voz schubertiana da mulher amada o consegue livrar
da solidão e do isolamento. Oblomov é o antípoda
de Aduyev, o alpinista social de Uma História Trivial (1847),
a primeira novela de Gontcharov. Aduyev deixa a aldeia natal para fazer
fortuna em São Petersburgo. Para Oblomov, tanto esforço
não leva a lugar nenhum. Melhor ficar na cama. E agradecer a Deus
por o dia ter passado depressa neste mundo infernal de senhores e lacaios.
Logo nas
primeiras páginas do romance é possível identificar
traços biográficos do autor, criado por um avô aristocrata
e liberal. Mas, embora satirize a indolência de Oblomov e dos nobres
decadentes, Gontcharov, que foi funcionário público por
32 anos, revela-se um conservador. Ele foi, sim, um dos autores da Idade
de Ouro da literatura russa. Avançou na trilha aberta por Turgueniev,
tocou nos mesmos temas de Tchecov e foi visto por Dostoievski quase como
um rival. No entanto, escreveu somente três livros. Tornou-se um
escritor amargo, que encerraria sua carreira 22 anos antes de morrer.
A despeito de criticar o provincianismo, não se interessou quase
nada por aquilo que estava fora do alcance de seu nariz. Tinha muito do
deprimido Oblomov, que só não se mata porque tem preguiça
de chegar ao precipício.
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SEM
DAR UM PASSO
"Oblomov,
nobre de nascimento, tem o posto de Secretário de Colégio
e mora em São Petersburgo há doze anos, sem dali haver
saído um só dia. Em vida dos pais estava alojado mais
modestamente. Com a morte daqueles, tornou-se senhor de trezentos
e cinqüenta servos, numa província distante, nos confins
da Ásia. Era, então, jovem, e, se não se pode
dizer que fosse ativo, tinha, pelo menos, mais vivacidade. Mas transcorreram
os dias, uns após outros. Entrou na casa dos trinta e não
dera ainda um único passo em qualquer direção."
Trecho de Oblomov
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