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O IRA
depõe as armas
Reuters

REGIÃO
DIVIDIDA PELO
RANCOR
Apologia do terror em painel em Belfast: uma oportunidade de paz entre
católicos e protestantes |
É
um desses momentos que ficam marcados nos livros de história: o
Exército Republicano Irlandês (IRA), a maior e mais violenta
organização terrorista da Europa, vai depor as armas. A
decisão de sepultar de vez a luta armada foi anunciada na última
terça-feira, em Belfast, e renovou a esperança de uma solução
pacífica para a encrenca sangrenta no coração do
Primeiro Mundo. A Irlanda é uma ilha de população
católica conquistada e colonizada por ingleses protestantes desde
o século XVII. Depois de décadas de luta separatista, os
católicos fundaram a República da Irlanda, em 1921. Um pequeno
enclave ao norte permaneceu ligado à Inglaterra. Ali, os protestantes
são maioria e vivem às turras com os católicos. As
duas comunidades são separadas por muros e cercas de arame farpado.
Enquanto os protestantes querem continuar cidadãos ingleses, os
católicos lutam pela fusão com a República da Irlanda.
Desde o início dos anos 70, 3.600 pessoas
foram mortas por lá.
O que há
de pior no rancor nacionalista que divide católicos e protestantes
pode ser resumido nestas três letras: IRA. Surgida em 1969, a organização
terrorista dedicou-se a matar civis na Irlanda do Norte e na Inglaterra.
Em 1984, num de seus atos mais ousados, explodiu um hotel na tentativa
de assassinar a primeira-ministra Margaret Thatcher e seu gabinete. Em
1991, o primeiro-ministro John Major escapou de um morteiro atirado contra
Downing Street, residência oficial do chefe de governo inglês.
A violência do IRA fez surgir vários outros grupos paramilitares,
na maioria protestantes, dispostos a vingar cada vítima com a morte
de um cidadão escolhido ao acaso na comunidade rival. Apesar de
ter declarado várias tréguas no passado, o IRA jamais tinha
aceitado depor as armas. A decisão vinha sendo adiada desde 1998,
quando a organização anunciou pela última vez uma
trégua em troca de um acordo de paz.
AP
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Reuters
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O
TERROR QUE NÃO
CEDE
Carro-bomba que matou 29 pessoas em 1998: terroristas do IRA Autêntico
rejeitam acordo
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FIM
DO ARSENAL
Gerry Adams, presidente do Sinn Fein: pelo acordo de paz
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Pelo tratado
apelidado de Acordo da Sexta-Feira Santa a Irlanda do Norte
continuaria parte da Inglaterra, como querem os protestantes, mas seria
montado um governo autônomo no qual teriam voz todas as correntes
católicas, inclusive o Sinn Fein, partido político que serve
de porta-voz do próprio grupo terrorista e se confunde com ele.
É irônico que o IRA tenha finalmente sido colocado contra
a parede por um atentado terrorista que nada tem a ver com as pendengas
irlandesas. Desde os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono,
o terrorismo virou palavrão até mesmo para os irlandeses-americanos,
a sólida comunidade de 40 milhões de descendentes de imigrantes
que patrocinava a luta separatista. Esse apoio financeiro e político
esvaneceu-se no último mês. Era com o dinheiro dos simpatizantes
estimado em 1 milhão de dólares por ano que
a organização comprava armas e tramava assassinatos. Ficou
impossível manter o esquema, agora que os Estados Unidos travam
uma guerra global contra o terror.
As relações
com os Estados Unidos começaram a azedar em agosto, quando a polícia
prendeu três membros do IRA na Colômbia. As investigações
mostraram que eles estavam no país para ensinar técnicas
de terrorismo urbano às Farc, um movimento guerrilheiro comunista
envolvido com o narcotráfico. Como o governo americano está
gastando bilhões de dólares para combater o tráfico
de drogas e seus aliados guerrilheiros na Colômbia, Washington colocou
o IRA na lista de inimigos. O acordo feito para pacificar a Irlanda do
Norte exigia que o terrorismo fosse desarmado. A decisão só
foi tomada quando faltavam dois dias para se cumprir um ultimato do governo
inglês. Se não entregassem as armas, todas as instituições
criadas pelo Acordo da Sexta-Feira Santa, incluindo o governo provincial
e o Parlamento, seriam dissolvidas. Ficaria a cargo da Inglaterra optar
por novas eleições ou que Londres voltasse a governar diretamente
a Irlanda do Norte. Como todas as pesquisas mostravam que uma eleição
seria favorável aos extremistas, de ambos os lados, era tido como
certo que os ingleses escolhessem assumir diretamente o governo do território.
Diante de
cenário tão adverso, o presidente do braço político
do IRA, Gerry Adams, cedeu na questão do arsenal. A sensação
de alívio na província foi imediata. O governo inglês
mandou demolir dois postos militares na Irlanda do Norte e anunciou a
redução de tropas na região. O gesto histórico
ainda está longe de significar o fim integral da violência
na Irlanda do Norte. Os paramilitares protestantes hesitam em entregar
suas armas. Do lado católico, restam grupelhos exaltados, como
o IRA Autêntico, que se separou da organização principal
nos anos 90 e continua mais ativo do que nunca. Responsável pelo
maior atentado na Irlanda do Norte, que matou 29 pessoas e feriu mais
de 200 na cidadezinha de Omagh, em 1998, o grupo explodiu só neste
ano duas bombas no centro de Londres. A questão é até
quando eles sobreviverão, agora que acabou a tolerância mundial
ao terrorismo.
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