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O
Afeganistão é aqui
"Nenhum
brasileiro sabe
usar o
telefone. Telefone é uma invenção
moderna e somos tão retrógrados
quanto o Talibã. Espero que os
americanos nos bombardeiem logo"
Falam sempre
do Afeganistão. Falam sempre de Cabul. Em matéria de cerceamento
da liberdade, porém, São Paulo não fica muito atrás.
Aqui tudo é proibido. Na casa em que estou hospedado, há
um aparelho de TV, mas não me deixam usá-lo para não
superar o limite imposto pelo racionamento de energia. Minha mulher tem
medo de sair desacompanhada e é obrigada a usar trajes apropriados,
sem ornamentos, para evitar o risco de assalto e um tiro na cabeça.
Não posso me movimentar livremente: outro dia, fiquei preso no
trânsito por duas horas e quarenta minutos, naquilo que os jornais
definiram como o terceiro maior engarrafamento da história, com
260 quilômetros de filas. A população é mantida
num estado de completo analfabetismo. E aqui como lá os problemas
parecem não ter saída. Estamos vivendo sob o Talibã.
Esperemos que os americanos não percam mais tempo e decidam nos
bombardear logo, liberando-nos das forças totalitárias que
nos oprimem.
Os paulistanos
são cordiais. Visito São Paulo uma vez por ano e sempre
me espanto com a cordialidade de seus habitantes. Sobretudo os pobres.
Desconfio que os paulistanos pobres sejam cordiais comigo porque imaginam
que eu seja rico. Mais do que cordialidade, portanto, talvez seja subserviência.
Já os ricos não são cordiais com os pobres. São
mal-educados e grosseiros. Assim como são mal-educados e grosseiros
quando usam o telefone. Nesse caso, não se trata de uma peculiaridade
dos paulistanos, e sim de uma característica nacional: nenhum brasileiro
sabe usar o telefone. Telefone é uma invenção moderna
e, como eu já disse, somos tão retrógrados quanto
o Talibã. Volta e meia ligam para minha casa e perguntam: "Quem
é?". Eu não respondo. Quem liga para mim, enquanto estou
cortando as unhas do pé, é que precisa se apresentar: "Bom
dia, aqui é Yvonne, a socialite evangélica, e gostaria de
falar com o estimado escritor e jornalista Diogo Mainardi".
Outra coisa
que descobri sobre São Paulo é que não há
cidade pior para crianças. Não sei o que fazer com meu filho
de 13 meses. No último fim de semana, visitei o Parque da Mônica.
Os parques de diversões, em geral, anunciam a extensão de
suas montanhas-russas. No caso do Parque da Mônica, o máximo
de que podem se gabar é de uma piscina de bolinhas de 2 por 2.
O momento mais divertido do passeio foi quando meu filho derrubou um copo
de iogurte excessivamente açucarado em minhas calças. O
resto foi puro Afeganistão em dia de bombardeio, tanto no barulho
quanto na qualidade das atrações. Muitos anos atrás,
acompanhei meu pai ao programa Esta É a Sua Vida, que reconstruía
os momentos memoráveis da existência de Maurício de
Sousa, criador de Mônica e Cebolinha. Na época, com a prepotência
da juventude, lembro-me de ter pensado que eu jamais aceitaria ter uma
vida tão desinteressante quanto a de Maurício de Sousa.
Agora me vejo em meio às suas criações, no Parque
da Mônica, e sou tomado pela desagradável sensação
de que minha vida foi infinitamente mais inútil que a dele. Só
resta torcer para que eu seja um efeito colateral da guerra contra nosso
Talibã e que uma bomba dos americanos caia sobre mim.
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