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Edição 1 724 - 31 de outubro de 2001
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O Afeganistão é aqui

"Nenhum brasileiro sabe usar o
telefone.
Telefone é uma invenção
moderna
e somos tão retrógrados
quanto
o Talibã. Espero que os
americanos nos
bombardeiem logo"

Falam sempre do Afeganistão. Falam sempre de Cabul. Em matéria de cerceamento da liberdade, porém, São Paulo não fica muito atrás. Aqui tudo é proibido. Na casa em que estou hospedado, há um aparelho de TV, mas não me deixam usá-lo para não superar o limite imposto pelo racionamento de energia. Minha mulher tem medo de sair desacompanhada e é obrigada a usar trajes apropriados, sem ornamentos, para evitar o risco de assalto e um tiro na cabeça. Não posso me movimentar livremente: outro dia, fiquei preso no trânsito por duas horas e quarenta minutos, naquilo que os jornais definiram como o terceiro maior engarrafamento da história, com 260 quilômetros de filas. A população é mantida num estado de completo analfabetismo. E aqui como lá os problemas parecem não ter saída. Estamos vivendo sob o Talibã. Esperemos que os americanos não percam mais tempo e decidam nos bombardear logo, liberando-nos das forças totalitárias que nos oprimem.

Os paulistanos são cordiais. Visito São Paulo uma vez por ano e sempre me espanto com a cordialidade de seus habitantes. Sobretudo os pobres. Desconfio que os paulistanos pobres sejam cordiais comigo porque imaginam que eu seja rico. Mais do que cordialidade, portanto, talvez seja subserviência. Já os ricos não são cordiais com os pobres. São mal-educados e grosseiros. Assim como são mal-educados e grosseiros quando usam o telefone. Nesse caso, não se trata de uma peculiaridade dos paulistanos, e sim de uma característica nacional: nenhum brasileiro sabe usar o telefone. Telefone é uma invenção moderna e, como eu já disse, somos tão retrógrados quanto o Talibã. Volta e meia ligam para minha casa e perguntam: "Quem é?". Eu não respondo. Quem liga para mim, enquanto estou cortando as unhas do pé, é que precisa se apresentar: "Bom dia, aqui é Yvonne, a socialite evangélica, e gostaria de falar com o estimado escritor e jornalista Diogo Mainardi".

Outra coisa que descobri sobre São Paulo é que não há cidade pior para crianças. Não sei o que fazer com meu filho de 13 meses. No último fim de semana, visitei o Parque da Mônica. Os parques de diversões, em geral, anunciam a extensão de suas montanhas-russas. No caso do Parque da Mônica, o máximo de que podem se gabar é de uma piscina de bolinhas de 2 por 2. O momento mais divertido do passeio foi quando meu filho derrubou um copo de iogurte excessivamente açucarado em minhas calças. O resto foi puro Afeganistão em dia de bombardeio, tanto no barulho quanto na qualidade das atrações. Muitos anos atrás, acompanhei meu pai ao programa Esta É a Sua Vida, que reconstruía os momentos memoráveis da existência de Maurício de Sousa, criador de Mônica e Cebolinha. Na época, com a prepotência da juventude, lembro-me de ter pensado que eu jamais aceitaria ter uma vida tão desinteressante quanto a de Maurício de Sousa. Agora me vejo em meio às suas criações, no Parque da Mônica, e sou tomado pela desagradável sensação de que minha vida foi infinitamente mais inútil que a dele. Só resta torcer para que eu seja um efeito colateral da guerra contra nosso Talibã e que uma bomba dos americanos caia sobre mim.

 
 
   
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