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Edição 1 724 - 31 de outubro de 2001
Entrevista: Tasso Jereissati

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"Estou no jogo"

O governador do Ceará anuncia
que é candidato à Presidência,
fala das diferenças entre ele e
Serra e explica o que mudaria
na política de Fernando Henrique

Eduardo Oinegue

Antonio Milena
"Serra é um grande teórico, um grande economista, um grande técnico. Eu sou um homem mais prático, um executivo"

Na semana passada, o governador Tasso Jereissati viajou para São Paulo, onde teve seu nome lançado à Presidência da República por familiares de Mário Covas, falecido recentemente. O evento contou com a presença do governador Geraldo Alckmin e do ministro Paulo Renato Souza, da Educação. Aos 52 anos, casado, quatro filhos e dono de modestíssimos 3% das intenções de voto, Jereissati é o primeiro nomão da base do governo a se lançar à sucessão de Fernando Henrique. Faltando alguns meses para a convenção do PSDB, é difícil saber se a candidatura do governador cearense irá sobrepor-se à do ministro José Serra, da Saúde, cuja entrada no jogo é aguardada para o início do ano que vem. No dia seguinte à solenidade, Jereissati recebeu VEJA para a seguinte entrevista.

Veja – Por que o senhor decidiu ser candidato a presidente da República?
Jereissati – Ninguém pode ser candidato de si mesmo. Pode querer, pode sonhar com a oportunidade. O que me fez lançar a candidatura foi a convocação feita a mim pela família de Mário Covas e por outras figuras do partido ligadas àquele que foi a liderança mais simbólica do PSDB. Essa homenagem no começo da semana foi um marco. É um momento que muda minha trajetória. Antes, eu até estudava a possibilidade de entrar no jogo. Agora, estou no jogo. A partir daí, farei uma avaliação muito concreta com todos os setores do partido em outros Estados e com os demais partidos da base aliada. Mas posso afirmar que já me sinto candidato.

Veja – Qual é a lógica de um candidato com apenas 3% das intenções de voto se dispor a enfrentar José Serra, que tem mais que o dobro desse porcentual?
Jereissati – Olhando friamente, apenas do ponto de vista matemático, talvez minha candidatura não fizesse mesmo muito sentido. Mas estamos ainda a um ano da eleição e eu não tive a oportunidade de apresentar minhas idéias à opinião pública. Portanto, ter baixo índice de intenção de votos, no caso do meu nome, não significa rejeição, mas desconhecimento. Estamos começando a trabalhar agora. Só é preciso que fique claro que entro nessa disputa sem a determinação de ser candidato a qualquer custo. Não levarei o projeto a ferro e fogo. Se eu perceber que há um nome melhor, e os setores que me apóiam também acharem a mesma coisa, o que até agora não aconteceu, passo a apoiá-lo.

Veja – Qual é a diferença entre Tasso e Serra?
Jereissati –
Somos semelhantes basicamente nas idéias sobre economia brasileira, já que os dois defendem uma política promotora do desenvolvimento. No mais, temos origens diferentes, histórias diferentes, temperamentos diferentes, posturas diferentes. Serra é um grande teórico, um grande economista, um grande técnico. Eu sou um homem mais prático, um executivo. Ao contrário dele, jamais estive no Poder Legislativo. Como tenho origem empresarial, conheço a capacidade quase ilimitada dos governos de atravancar o desenvolvimento. Como político, sei o quanto Brasília pode ser fundamental numa arrancada econômica. Tirando essas diferenças, mais ligadas ao comportamento, existe um dado que merece registro. Ele diz respeito à ênfase que cada um dos dois dá ao tema da desigualdade social e da desigualdade de renda, assunto mais presente em meu trabalho que no do ministro. Talvez isso ocorra porque sou há muitos anos governador de um Estado pobre, vivendo longe dos meios mais sofisticados, mais intelectualizados, mais elitizados do país.

Veja – O governo Fernando Henrique é acusado de ser insensível socialmente. Que sensibilidade social tem o dono da maior fortuna do Ceará, proprietário de rádio e televisão, acostumado a se deslocar pelo Brasil de jatinho?
Jereissati – Não é verdade que eu seja a maior fortuna do Ceará, mas não vou negar que, do ponto de vista de renda, sou um privilegiado. No entanto, não me parece razoável que eu seja julgado pelo dinheiro que possuo. Devo ser avaliado pelas causas que defendo. Poucos políticos podem apresentar uma lista de realizações como a que tenho. São quase quinze anos de atuação em benefício dos setores mais pobres do país. Minhas energias sempre se voltaram principalmente para o interior do Ceará, que representa o que há de mais pobre entre as áreas mais pobres do país. Eis algo de que me orgulho. Talvez seja essa a minha grande diferença em relação aos demais candidatos. Vale a pena comparar alguns dados sociais do Ceará de hoje com os do Ceará de quando me elegi pela primeira vez, em 1986. Tínhamos índices de mortalidade infantil semelhantes aos dos países mais pobres da África, hoje reduzidos a um terço do que eram. O índice de analfabetismo era três ou quatro vezes maior que a média nacional e agora é equivalente a essa média. A taxa de crianças fora da escola chegava a ser cinco ou seis vezes maior que nas demais regiões do país e agora entrou nos eixos.

Veja – Os números impressionam, mas o Ceará continua paupérrimo.
Jereissati – Sou governador, não santo milagreiro. O Ceará continua muito pobre, com uma renda per capita equivalente à metade da média nacional. Com 7 milhões de pessoas, o Estado tem perto da metade da população formada por pobres, isso segundo critério do Banco Mundial. Ainda não conseguimos fazer decrescer a desigualdade de renda nem no Ceará nem nos outros Estados brasileiros. Reduzimos o número de pobres, mas não a diferença de renda entre as camadas mais ricas e as menos favorecidas. Os segmentos mais carentes passaram a ter água tratada, energia elétrica e seus filhos na escola em índices semelhantes às médias nacionais, mas estamos longe de uma solução. Portanto, não posso me sentir realizado. Os dados que estou apresentando são comparações entre a realidade que encontrei e a que temos hoje, não uma comparação com o ideal.

Veja – Um candidato deve ter programa. Em que um eventual governo Tasso poderia ser diferente do governo FHC?
Jereissati – Os programas sociais do governo Fernando Henrique são excepcionais e, sem dúvida, eu os manteria. Seu programa de ajuste fiscal é fundamental para o país. Sua dedicação à estabilidade e à preservação do real como moeda estável é invejável. E o que dizer da privatização? Foi um ganho fantástico. Ele representou uma mudança estrutural no Estado brasileiro. Sem as grandes estatais, o governo é mais limpo, mais correto, muito menos vulnerável à corrupção do que era no passado. Gostando-se ou não do programa, ele fez nascer um Estado muito mais transparente do que era antes. Num certo sentido, manteríamos as linhas básicas do atual governo.

Veja – Mas...
Jereissati –
Mas o mundo e o Brasil mudaram de 1994 para cá e certas idéias tidas como dogmas deixaram de sê-lo. O mundo todo está querendo rediscutir alguns valores. No caso da questão econômica, discute-se a eficiência do Estado mínimo e a facilidade com que os capitais trafegam pelo mundo. No Brasil, a estabilidade é um valor tão difundido que já não é mais uma obsessão. Quando o tema surgiu na campanha de 1994, era preciso que todos se unissem para que ela não se perdesse. Agora, a conquista está consumada e deve ser preservada. Mas surgiram novos objetivos. Um deles é o crescimento, que precisa ser perseguido com determinação. Dentro dessa visão, pode-se dizer que nosso governo seria um governo Fernando Henrique com ajustes. Claro que precisaríamos corrigir algumas distorções.

Veja – Que distorções são essas?
Jereissati – A principal delas é focar o combate à desigualdade de renda com a mesma energia dedicada ao fortalecimento do real. Não basta lutar para sermos um país mais rico. Precisamos nos tornar um lugar mais justo. No Brasil, há gente rica demais e gente pobre demais. O país sempre foi um campeão de desigualdade. Com o aumento da prosperidade mundial todas as questões ligadas à desigualdade se agravaram. O Brasil ficou mais rico nos últimos dez anos, mas tivemos um crescimento medíocre de renda nesse período. Isso agrava a desigualdade. Basta ver o que acontece nas grandes cidades, onde o sujeito mata para roubar um tênis. Em São Paulo ou no Rio de Janeiro convivem a extrema pobreza e a extrema riqueza. A população mais pobre das cidades ricas deveria viver razoavelmente. Deveria ter casa razoável, serviços públicos razoáveis, possuir o mínimo para satisfazer seu consumo mais elementar. Mas não tem e convive com o que há de melhor e mais moderno no mundo. Talvez, pelo fato de ter sido político da zona mais pobre do país, eu tenha mais sensibilidade para esse tema.

Veja – O senhor está tentando explicar a criminalidade apenas como subproduto da desigualdade de renda?
Jereissati –
Não. A questão é muito mais complexa. As grandes cidades estão em crise, que abrange desde a questão de renda até o impacto da migração, a ineficiência da polícia e vários outros fatores. Como sou governador e vivo esses problemas todos, entendo a gravidade da situação.

Veja – Como governador, o senhor depende de Brasília. Os prefeitos dependem do governador. E o presidente depende dos governadores, prefeitos e parlamentares. As boas intenções não acabam morrendo numa estrutura tão engessada?
Jereissati – Daí por que acredito que qualquer pessoa que pretenda administrar o Brasil precisa ter entre suas principais virtudes a capacidade de aglutinar. Sem contar com um suporte muito forte dos partidos políticos, do Congresso, dos governos estaduais e dos segmentos representativos da população, será muito difícil fazer o Brasil andar. A hora é de formular menos e aglutinar mais.

Veja – Que tipo de debate essa eleição vai produzir?
Jereissati – Temos a oportunidade de fazer a melhor campanha presidencial que este país já teve, discutindo a qualidade e a viabilidade das propostas. Percebo em quase todos os candidatos um nível de respeito muito grande de um pelo outro. A população não quer ver baixarias. Minha vida pública é aberta. O que fiz, o que deixei de fazer todos conhecem. Coloco todos esses dados à disposição da imprensa para que sejam analisados e discutidos. É muito importante, ao comparar os candidatos, olhar para o passado deles. Nós já cometemos muitos erros ao não fazer isso. Fernando Collor está aí como prova. Ele venceu no gogó. Uma vez me perguntaram por que as pessoas olham o histórico de um cavalo antes de fazer a aposta numa corrida, mas não agem assim quando se trata de um presidenciável. É preciso ver o que é real, o que é mentira, quais foram os erros, quais foram os acertos. É preciso conferir se o político, em seus anos de vida pública, tem algum escândalo a ser apontado, alguma desonestidade ou exemplo de falta de ética. Minha ficha está na praça.

Veja – O que muda em sua agenda daqui para a frente?
Jereissati – Eu continuo a governar o Ceará, mas minha agenda muda, sim. O país enfrenta uma série de problemas e não existem soluções prontas nem fáceis. Minha agenda passa a ser abrir uma série de conversas com todos os setores da sociedade para debater desde economia e segurança pública até o futuro das universidades. Queremos absorver uma série de idéias para que possamos ter uma visão mais concreta de um plano de governo. Claro que temos nossos princípios, mas plano de governo não é uma coisa que se faça no isolamento de um gabinete. Isso é artificial e não funciona. Projeto de governo tem de contar com o apoio da sociedade. Por melhor que sejam as idéias de um determinado candidato, se elas vierem sozinhas, sem o apoio dos setores da sociedade, não terão chance no mundo real.

Veja – O senhor comentou sobre sua decisão com José Serra?
Jereissati –
Conversamos sobre o assunto há quinze dias e ficou claro que o partido poderia ganhar muito caso nos tornássemos competidores. Acho que será possível chegar a um consenso sobre qual é o melhor nome antes da convenção do PSDB marcada para o ano que vem. As lideranças do partido, junto com o presidente, poderão fazer essa avaliação.

Veja – E com Ciro Gomes, o senhor falou?
Jereissati – Nosso último contato ocorreu há um mês. Falei para ele que, se eu virasse candidato, seria possível manter uma convivência extremamente respeitosa como forma de preservar os laços de amizade que nos unem.

Veja – Quanto vai custar a campanha?
Jereissati – Não tenho a menor idéia.

Veja – Quem vai ser o tesoureiro?
Jereissati – E se eu lhe disser que não tenho um único assessor para assuntos de campanha? Eu viajo só, exceção feita a essa manifestação com a família Covas.

Veja – Lula não tem histórico negativo de saúde, Ciro Gomes é jovem e Serra tem fama de hipocondríaco. No seu caso é diferente. Sua saúde não pode ser um problema na campanha?
Jereissati – Eu tive um infarto aos 36 anos. Estava andando na rua em Nova York quando me senti mal. Como era muito novo, ficaram em dúvida sobre se deveria ser operado ou não, mas acabei fazendo duas mamárias e uma safena em Cleveland. Depois dessa operação, praticamente tenho uma vida normal. No ano passado sofri um pequeno infarto novamente, muito pequeno e muito localizado, que não afetou o músculo do coração. Desde então eu tomo uma quantidade de medicamentos um pouco maior que a de antes.

Veja – O que o senhor toma?
Jereissati –
Eu tomava apenas aspirina. Agora tomo remédio para colesterol e pressão. Você está igual ao Serra. Quer saber qual é o remédio, já já vai querer tomar um.

Veja – Não é mera curiosidade. As pessoas têm na memória o que aconteceu com Tancredo Neves e podem ficar inseguras. O senhor está tranqüilo nesse campo?
Jereissati – No fim do mês de novembro vou fazer um check-up completo em Cleveland, um daqueles para rechecar as condições que tenho. Saiba que eu jamais entraria numa aventura. Os médicos garantem que estou em plena saúde.

Veja – O que as bases que realmente interessam, a mulher e os filhos, acham de sua decisão?
Jereissati –
Minha família vive bastante afastada da política. Mas evidentemente há alguma preocupação e reprovação em razão da perspectiva de perder o contato mais freqüente. Então ainda vivo um momento de certa reprovação. Meu filho mais novo, de 12 anos, disse: "Papai, ou volta para os negócios ou sai para senador".

Veja – A propósito, num eventual governo seu, o ministro Pedro Malan ficaria no cargo?
Jereissati – Não refleti sobre esse assunto porque, no momento, nem minha candidatura está materializada. Só acho que ele não aceitaria ficar um minuto a mais no ministério depois de janeiro de 2003.

 
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