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"Estou no jogo"
O governador
do Ceará anuncia
que é candidato à Presidência,
fala das diferenças entre ele e
Serra e explica o que mudaria
na política de Fernando Henrique

Eduardo Oinegue
Antonio Milena
 |
"Serra
é um grande teórico, um grande economista, um grande
técnico. Eu sou um homem mais prático, um executivo"
|
Na semana
passada, o governador Tasso Jereissati viajou para São Paulo, onde
teve seu nome lançado à Presidência da República
por familiares de Mário Covas, falecido recentemente. O evento
contou com a presença do governador Geraldo Alckmin e do ministro
Paulo Renato Souza, da Educação. Aos 52 anos, casado, quatro
filhos e dono de modestíssimos 3% das intenções de
voto, Jereissati é o primeiro nomão da base do governo a
se lançar à sucessão de Fernando Henrique. Faltando
alguns meses para a convenção do PSDB, é difícil
saber se a candidatura do governador cearense irá sobrepor-se à
do ministro José Serra, da Saúde, cuja entrada no jogo é
aguardada para o início do ano que vem. No dia seguinte à
solenidade, Jereissati recebeu VEJA para a seguinte entrevista.
Veja
Por que o senhor decidiu ser candidato a presidente da República?
Jereissati Ninguém pode ser candidato de si
mesmo. Pode querer, pode sonhar com a oportunidade. O que me fez lançar
a candidatura foi a convocação feita a mim pela família
de Mário Covas e por outras figuras do partido ligadas àquele
que foi a liderança mais simbólica do PSDB. Essa homenagem
no começo da semana foi um marco. É um momento que muda
minha trajetória. Antes, eu até estudava a possibilidade
de entrar no jogo. Agora, estou no jogo. A partir daí, farei uma
avaliação muito concreta com todos os setores do partido
em outros Estados e com os demais partidos da base aliada. Mas posso afirmar
que já me sinto candidato.
Veja
Qual é a lógica de um candidato com apenas 3% das intenções
de voto se dispor a enfrentar José Serra, que tem mais que o dobro
desse porcentual?
Jereissati Olhando friamente, apenas do ponto de vista matemático,
talvez minha candidatura não fizesse mesmo muito sentido. Mas estamos
ainda a um ano da eleição e eu não tive a oportunidade
de apresentar minhas idéias à opinião pública.
Portanto, ter baixo índice de intenção de votos,
no caso do meu nome, não significa rejeição, mas
desconhecimento. Estamos começando a trabalhar agora. Só
é preciso que fique claro que entro nessa disputa sem a determinação
de ser candidato a qualquer custo. Não levarei o projeto a ferro
e fogo. Se eu perceber que há um nome melhor, e os setores que
me apóiam também acharem a mesma coisa, o que até
agora não aconteceu, passo a apoiá-lo.
Veja
Qual é a diferença entre Tasso e Serra?
Jereissati Somos semelhantes basicamente nas idéias
sobre economia brasileira, já que os dois defendem uma política
promotora do desenvolvimento. No mais, temos origens diferentes, histórias
diferentes, temperamentos diferentes, posturas diferentes. Serra é
um grande teórico, um grande economista, um grande técnico.
Eu sou um homem mais prático, um executivo. Ao contrário
dele, jamais estive no Poder Legislativo. Como tenho origem empresarial,
conheço a capacidade quase ilimitada dos governos de atravancar
o desenvolvimento. Como político, sei o quanto Brasília
pode ser fundamental numa arrancada econômica. Tirando essas diferenças,
mais ligadas ao comportamento, existe um dado que merece registro. Ele
diz respeito à ênfase que cada um dos dois dá ao tema
da desigualdade social e da desigualdade de renda, assunto mais presente
em meu trabalho que no do ministro. Talvez isso ocorra porque sou há
muitos anos governador de um Estado pobre, vivendo longe dos meios mais
sofisticados, mais intelectualizados, mais elitizados do país.
Veja
O governo Fernando Henrique é acusado de ser insensível
socialmente. Que sensibilidade social tem o dono da maior fortuna do Ceará,
proprietário de rádio e televisão, acostumado a se
deslocar pelo Brasil de jatinho?
Jereissati Não é verdade que eu seja a maior
fortuna do Ceará, mas não vou negar que, do ponto de vista
de renda, sou um privilegiado. No entanto, não me parece razoável
que eu seja julgado pelo dinheiro que possuo. Devo ser avaliado pelas
causas que defendo. Poucos políticos podem apresentar uma lista
de realizações como a que tenho. São quase quinze
anos de atuação em benefício dos setores mais pobres
do país. Minhas energias sempre se voltaram principalmente para
o interior do Ceará, que representa o que há de mais pobre
entre as áreas mais pobres do país. Eis algo de que me orgulho.
Talvez seja essa a minha grande diferença em relação
aos demais candidatos. Vale a pena comparar alguns dados sociais do Ceará
de hoje com os do Ceará de quando me elegi pela primeira vez, em
1986. Tínhamos índices de mortalidade infantil semelhantes
aos dos países mais pobres da África, hoje reduzidos a um
terço do que eram. O índice de analfabetismo era três
ou quatro vezes maior que a média nacional e agora é equivalente
a essa média. A taxa de crianças fora da escola chegava
a ser cinco ou seis vezes maior que nas demais regiões do país
e agora entrou nos eixos.
Veja
Os números impressionam, mas o Ceará continua paupérrimo.
Jereissati Sou governador, não santo milagreiro.
O Ceará continua muito pobre, com uma renda per capita equivalente
à metade da média nacional. Com 7 milhões de pessoas,
o Estado tem perto da metade da população formada por pobres,
isso segundo critério do Banco Mundial. Ainda não conseguimos
fazer decrescer a desigualdade de renda nem no Ceará nem nos outros
Estados brasileiros. Reduzimos o número de pobres, mas não
a diferença de renda entre as camadas mais ricas e as menos favorecidas.
Os segmentos mais carentes passaram a ter água tratada, energia
elétrica e seus filhos na escola em índices semelhantes
às médias nacionais, mas estamos longe de uma solução.
Portanto, não posso me sentir realizado. Os dados que estou apresentando
são comparações entre a realidade que encontrei e
a que temos hoje, não uma comparação com o ideal.
Veja
Um candidato deve ter programa. Em que um eventual governo Tasso poderia
ser diferente do governo FHC?
Jereissati Os programas sociais do governo Fernando Henrique
são excepcionais e, sem dúvida, eu os manteria. Seu programa
de ajuste fiscal é fundamental para o país. Sua dedicação
à estabilidade e à preservação do real como
moeda estável é invejável. E o que dizer da privatização?
Foi um ganho fantástico. Ele representou uma mudança estrutural
no Estado brasileiro. Sem as grandes estatais, o governo é mais
limpo, mais correto, muito menos vulnerável à corrupção
do que era no passado. Gostando-se ou não do programa, ele fez
nascer um Estado muito mais transparente do que era antes. Num certo sentido,
manteríamos as linhas básicas do atual governo.
Veja
Mas...
Jereissati Mas o mundo e o Brasil mudaram de 1994 para cá
e certas idéias tidas como dogmas deixaram de sê-lo. O mundo
todo está querendo rediscutir alguns valores. No caso da questão
econômica, discute-se a eficiência do Estado mínimo
e a facilidade com que os capitais trafegam pelo mundo. No Brasil, a estabilidade
é um valor tão difundido que já não é
mais uma obsessão. Quando o tema surgiu na campanha de 1994, era
preciso que todos se unissem para que ela não se perdesse. Agora,
a conquista está consumada e deve ser preservada. Mas surgiram
novos objetivos. Um deles é o crescimento, que precisa ser perseguido
com determinação. Dentro dessa visão, pode-se dizer
que nosso governo seria um governo Fernando Henrique com ajustes. Claro
que precisaríamos corrigir algumas distorções.
Veja
Que distorções são essas?
Jereissati A principal delas é focar o combate à
desigualdade de renda com a mesma energia dedicada ao fortalecimento do
real. Não basta lutar para sermos um país mais rico. Precisamos
nos tornar um lugar mais justo. No Brasil, há gente rica demais
e gente pobre demais. O país sempre foi um campeão de desigualdade.
Com o aumento da prosperidade mundial todas as questões ligadas
à desigualdade se agravaram. O Brasil ficou mais rico nos últimos
dez anos, mas tivemos um crescimento medíocre de renda nesse período.
Isso agrava a desigualdade. Basta ver o que acontece nas grandes cidades,
onde o sujeito mata para roubar um tênis. Em São Paulo ou
no Rio de Janeiro convivem a extrema pobreza e a extrema riqueza. A população
mais pobre das cidades ricas deveria viver razoavelmente. Deveria ter
casa razoável, serviços públicos razoáveis,
possuir o mínimo para satisfazer seu consumo mais elementar. Mas
não tem e convive com o que há de melhor e mais moderno
no mundo. Talvez, pelo fato de ter sido político da zona mais pobre
do país, eu tenha mais sensibilidade para esse tema.
Veja
O senhor está tentando explicar a criminalidade apenas como
subproduto da desigualdade de renda?
Jereissati Não. A questão é muito
mais complexa. As grandes cidades estão em crise, que abrange desde
a questão de renda até o impacto da migração,
a ineficiência da polícia e vários outros fatores.
Como sou governador e vivo esses problemas todos, entendo a gravidade
da situação.
Veja
Como governador, o senhor depende de Brasília. Os prefeitos
dependem do governador. E o presidente depende dos governadores, prefeitos
e parlamentares. As boas intenções não acabam morrendo
numa estrutura tão engessada?
Jereissati Daí por que acredito que qualquer pessoa
que pretenda administrar o Brasil precisa ter entre suas principais virtudes
a capacidade de aglutinar. Sem contar com um suporte muito forte dos partidos
políticos, do Congresso, dos governos estaduais e dos segmentos
representativos da população, será muito difícil
fazer o Brasil andar. A hora é de formular menos e aglutinar mais.
Veja
Que tipo de debate essa eleição vai produzir?
Jereissati Temos a oportunidade de fazer a melhor campanha
presidencial que este país já teve, discutindo a qualidade
e a viabilidade das propostas. Percebo em quase todos os candidatos um
nível de respeito muito grande de um pelo outro. A população
não quer ver baixarias. Minha vida pública é aberta.
O que fiz, o que deixei de fazer todos conhecem. Coloco todos esses dados
à disposição da imprensa para que sejam analisados
e discutidos. É muito importante, ao comparar os candidatos, olhar
para o passado deles. Nós já cometemos muitos erros ao não
fazer isso. Fernando Collor está aí como prova. Ele venceu
no gogó. Uma vez me perguntaram por que as pessoas olham o histórico
de um cavalo antes de fazer a aposta numa corrida, mas não agem
assim quando se trata de um presidenciável. É preciso ver
o que é real, o que é mentira, quais foram os erros, quais
foram os acertos. É preciso conferir se o político, em seus
anos de vida pública, tem algum escândalo a ser apontado,
alguma desonestidade ou exemplo de falta de ética. Minha ficha
está na praça.
Veja
O que muda em sua agenda daqui para a frente?
Jereissati Eu continuo a governar o Ceará, mas minha
agenda muda, sim. O país enfrenta uma série de problemas
e não existem soluções prontas nem fáceis.
Minha agenda passa a ser abrir uma série de conversas com todos
os setores da sociedade para debater desde economia e segurança
pública até o futuro das universidades. Queremos absorver
uma série de idéias para que possamos ter uma visão
mais concreta de um plano de governo. Claro que temos nossos princípios,
mas plano de governo não é uma coisa que se faça
no isolamento de um gabinete. Isso é artificial e não funciona.
Projeto de governo tem de contar com o apoio da sociedade. Por melhor
que sejam as idéias de um determinado candidato, se elas vierem
sozinhas, sem o apoio dos setores da sociedade, não terão
chance no mundo real.
Veja
O senhor comentou sobre sua decisão com José Serra?
Jereissati Conversamos sobre o assunto há quinze dias
e ficou claro que o partido poderia ganhar muito caso nos tornássemos
competidores. Acho que será possível chegar a um consenso
sobre qual é o melhor nome antes da convenção do
PSDB marcada para o ano que vem. As lideranças do partido, junto
com o presidente, poderão fazer essa avaliação.
Veja
E com Ciro Gomes, o senhor falou?
Jereissati Nosso último contato ocorreu há
um mês. Falei para ele que, se eu virasse candidato, seria possível
manter uma convivência extremamente respeitosa como forma de preservar
os laços de amizade que nos unem.
Veja
Quanto vai custar a campanha?
Jereissati Não tenho a menor idéia.
Veja
Quem vai ser o tesoureiro?
Jereissati E se eu lhe disser que não tenho um único
assessor para assuntos de campanha? Eu viajo só, exceção
feita a essa manifestação com a família Covas.
Veja
Lula não tem histórico negativo de saúde,
Ciro Gomes é jovem e Serra tem fama de hipocondríaco. No
seu caso é diferente. Sua saúde não pode ser um problema
na campanha?
Jereissati Eu tive um infarto aos 36 anos. Estava andando
na rua em Nova York quando me senti mal. Como era muito novo, ficaram
em dúvida sobre se deveria ser operado ou não, mas acabei
fazendo duas mamárias e uma safena em Cleveland. Depois dessa operação,
praticamente tenho uma vida normal. No ano passado sofri um pequeno infarto
novamente, muito pequeno e muito localizado, que não afetou o músculo
do coração. Desde então eu tomo uma quantidade de
medicamentos um pouco maior que a de antes.
Veja
O que o senhor toma?
Jereissati Eu tomava apenas aspirina. Agora tomo remédio
para colesterol e pressão. Você está igual ao Serra.
Quer saber qual é o remédio, já já vai querer
tomar um.
Veja
Não é mera curiosidade. As pessoas têm na memória
o que aconteceu com Tancredo Neves e podem ficar inseguras. O senhor está
tranqüilo nesse campo?
Jereissati No fim do mês de novembro vou fazer um
check-up completo em Cleveland, um daqueles para rechecar as condições
que tenho. Saiba que eu jamais entraria numa aventura. Os médicos
garantem que estou em plena saúde.
Veja
O que as bases que realmente interessam, a mulher e os filhos,
acham de sua decisão?
Jereissati Minha família vive bastante afastada da política.
Mas evidentemente há alguma preocupação e reprovação
em razão da perspectiva de perder o contato mais freqüente.
Então ainda vivo um momento de certa reprovação.
Meu filho mais novo, de 12 anos, disse: "Papai, ou volta para os negócios
ou sai para senador".
Veja
A propósito, num eventual governo seu, o ministro Pedro Malan
ficaria no cargo?
Jereissati Não refleti sobre esse assunto porque,
no momento, nem minha candidatura está materializada. Só
acho que ele não aceitaria ficar um minuto a mais no ministério
depois de janeiro de 2003.

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