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Sérgio
Abranches
A
desigualdade
por opção
"Apenas
18% dos que
hoje ocupam o topo
da pirâmide social brasileira nasceram em
famílias que já pertenciam a esse estrato
social. Significa dizer que 82% dos que
estão no topo vieram de baixo"
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O
Brasil é como um trem em movimento, os vagões os
estratos sociais não mudam, mas as pessoas passam intensamente
de um para outro. Com essa imagem, o sociólogo José Pastore
sintetizou sua pesquisa, com Nelson do Valle Silva, sobre mobilidade social
e desigualdade no Brasil. Foi durante um seminário promovido pelo
Banco Mundial, sobre instituições, crescimento e igualdade.
O Brasil é um país de alta mobilidade social, "as pessoas
entram e saem dos diferentes estratos o tempo todo", mas a desigualdade
continua muito alta e pode até aumentar. Com sua visão sociológica,
Pastore complementou a exposição da desigualdade brasileira
feita pelos economistas Francisco Ferreira, Carlos Eduardo Velez e Ricardo
Paes de Barros. A versão econômica do paradoxo aparece na
indagação de Paes de Barros: "Por que o Brasil, um país
relativamente rico, tem uma desigualdade tão alta, cuja persistência
impede a redução mais significativa da pobreza?"
Alguns argumentos só atrapalham a compreensão da dinâmica
da desigualdade nacional. Dizer que o Brasil é o país mais
desigual do mundo de nada serve. O índice de Gini, medida mais
usada para comparar desigualdades, aplicado sem qualificações
é muito enganoso. Comparar a desigualdade no Uruguai e no Brasil,
por exemplo, em nada ajuda e pouco esclarece. A classe média negra
brasileira é o dobro da população uruguaia. Marta
Suplicy governa uma sociedade cuja população é três
vezes maior e certamente mais diferenciada sociologicamente que a do Uruguai.
A persistência da desigualdade é, em parte, possível
porque apesar dela o país pode ser relativamente rico. Não
estou dizendo que é preciso ser desigual para ser rico, a tese
da exploração. Apenas que o tamanho da economia e a relativa
riqueza por ela produzida permitem a mobilidade, tornando a desigualdade
mais tolerável. Todos podem melhorar, embora as distâncias
entre os diferentes estratos permaneçam as mesmas. Se o Brasil
tem um dos maiores índices de desigualdade do mundo, também
tem uma das maiores taxas de mobilidade social do mundo.
A melhora se dá porque o "trem" está em movimento
o país não está estagnado, ainda que às vezes
ande lentamente e porque muitos mudam para uma classe superior
durante a viagem. A taxa de mobilidade é impressionante: apenas
18% dos que hoje ocupam o topo da pirâmide social brasileira nasceram
em famílias que já pertenciam a esse estrato social. Significa
dizer que 82% dos que estão no topo vieram de baixo. Pastore mostrou
em sua apresentação que nos estratos rurais pobres 39% permanecem
nessa condição ao longo da vida, mas 61% ascendem de posição.
Nos estratos urbanos pobres, 32% ficam nesse "vagão" e 63% mudam
para um superior. É essa mobilidade que evita que a desigualdade
e a pobreza elevem as tensões sociais ao ponto de ruptura.
E o que mais faz as pessoas se moverem? A educação. Todos
mostraram, de vários ângulos, que a educação
é o remédio mais eficaz contra a desigualdade e a pobreza.
As condições sociais não melhoram rápido o
suficiente para diminuir significativa e rapidamente a destituição.
Como há barreiras não-econômicas à mobilidade,
os brasileiros não melhoram na mesma proporção: os
negros encontram mais dificuldade para se mover que os brancos. Paes de
Barros mostrou que, se negros e brancos tivessem a mesma educação,
a desigualdade entre eles praticamente desapareceria. Mas o que seria
necessário para que isso ocorresse? Aumentar a oferta de educação?
Não. Eliminar as barreiras que impedem o acesso de negros à
escola. E neutralizar o preconceito no recrutamento e no local de trabalho,
para que a igualdade educacional vire igualdade ocupacional e salarial.
As mulheres têm mais educação que os homens, mas seus
rendimentos ainda são, em média, 65% dos rendimentos dos
homens.
E por que os partidos não se mobilizam para mudar esse quadro que
mantém a maioria em situação de privação
relativa? Porque todos eles representam setores que são beneficiários
da desigualdade. E as mais poderosas organizações de interesses
defendem políticas que aumentem a desigualdade. É simples:
os grandes partidos, o PT inclusive, CUT e Fiesp são irmãos
siameses da mesma elite e representam interesses dos que estão
nos melhores vagões da sociedade.
Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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