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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Educação
baseada em palpites "Ou seja, nossos alunos
estão aprendendo a ler com alguns professores que não são
capazes, eles próprios, de decifrar com rigor um texto"
Imaginemos que tenho uma teoria sobre nutrição
e que esta desemboca na minha dieta para emagrecer. Se, pisando na balança,
descubro que meu peso aumentou, posso até continuar insistindo na excelência
da minha teoria e afirmando que a balança não interessa. Mas, na
lógica da ciência, minha teoria está errada salvo enguiço
da balança. Em um ensaio anterior, defendi
a idéia de que as decisões em educação deveriam ser
respaldadas pela evidência científica que possa existir na área.
As palavras encantadas dos gurus e as impressões pessoais devem ser confrontadas
com o mundo real. É como no exemplo acima, em que as minhas teorias nutricionais
são checadas pela balança. Precisamos de teorias e interpretações,
mas, se não têm correspondência com a observação
da realidade, elas não sobrevivem.
Ilustração
Ale Setti
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Recebi
muitos e-mails louvando a idéia de que era saudável olhar a evidência.
Contudo, um número alarmante de professores, como sugerem seus e-mails,
pensa de modo diferente. Para eles: 1) Não é olhando a evidência
que se decide entre o certo e o errado. Esta pode ser olimpicamente ignorada,
sendo um desaforo questionar as verdades reveladas. 2) O que está escrito
no texto não é considerado. Portanto, tiram conclusões, assestam
ataques e dirigem vitupérios ao que acham haver sido dito mas que, na realidade,
não está escrito. O alvo principal das indignações
é o que consideram ser as minhas "opiniões" contra os professores.
Várias mensagens rejeitam, mais ou menos
assim, uma afirmativa que eu teria feito: "O Claudio acha que os professores sem
diploma de professor são melhores do que os com diploma". Argumentam que
a sua opinião é certa e a minha, errada.
Vejamos um e-mail representativo: "...fiquei indignada ao saber que alguém
pode pensar que professores formados em pedagogia possam atuar menos em sala de
aula em relação a outros formados em outras disciplinas. Quem conhece
o processo ensino-aprendizagem das séries iniciais (...) jamais poderia
fazer tal afirmação. A avaliação citada (do Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Básica, Saeb)
não pode servir de parâmetro para qualquer julgamento sobre a
qualidade da Educação". Contudo,
rejeita-se o que eu não disse! Escrevi o seguinte: nas tabulações
do Saeb, "os alunos de professores que cursaram magistério ou pedagogia
têm notas piores do que os de professores que têm diploma superior
em outra carreira". O trecho é a mera leitura de uma tabela. Portanto,
não é minha "opinião". Digo em seguida: "Aprende mais quem
aprende com quem não é professor? Não sabemos ao certo".
Veja-se que a interpretação é apresentada na forma de uma
pergunta, convidando a um esforço de entender o porquê de um resultado
tão antiintuitivo. (O presente ensaio não é propriamente
sobre educação, mas sobre como entender o mundo. Portanto, não
entro aqui nas explicações cabíveis.)
Nega-se a idéia de que encontramos tais respostas mediante a observação
do mundo real. Implicitamente, afirma-se o inverso, isto é, desvendamos
o mundo real filosofando, "achando" ou nos referindo a uma observação
pessoal. É como se o Saeb fosse uma teoria alternativa que pudéssemos
escolher quando, na verdade, é o teste da teoria. É como
a balança que verifica o resultado das minhas teorias nutricionais
mas não as substitui. Será que essas mesmas pessoas gostariam de
consultar-se com um médico que receita por palpite?
As mensagens conduzem a outra interpretação paralela, mas que tampouco
é otimista: os missivistas não leram com atenção o
ensaio. Responderam emocionalmente ao que pensam que o autor quis dizer. Só
que o autor quis dizer exatamente o que escreveu, e não o que imaginam
haver dito. Ou seja, nossos alunos estão aprendendo a ler com alguns professores
que não são capazes, eles próprios, de decifrar com rigor
um texto. Isso nos remete tristemente a outro resultado
do Saeb não mencionado no ensaio anterior: os níveis de compreensão
de leitura dos nossos alunos são baixíssimos. De fato, são
calamitosos. Haverá alguma conexão? Claudio
de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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