Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Educação baseada
em palpites

"Ou seja, nossos alunos estão aprendendo
a ler com alguns professores que não
são capazes, eles próprios, de decifrar
com rigor um texto"

Imaginemos que tenho uma teoria sobre nutrição e que esta desemboca na minha dieta para emagrecer. Se, pisando na balança, descubro que meu peso aumentou, posso até continuar insistindo na excelência da minha teoria e afirmando que a balança não interessa. Mas, na lógica da ciência, minha teoria está errada – salvo enguiço da balança.

Em um ensaio anterior, defendi a idéia de que as decisões em educação deveriam ser respaldadas pela evidência científica que possa existir na área. As palavras encantadas dos gurus e as impressões pessoais devem ser confrontadas com o mundo real. É como no exemplo acima, em que as minhas teorias nutricionais são checadas pela balança. Precisamos de teorias e interpretações, mas, se não têm correspondência com a observação da realidade, elas não sobrevivem.

Ilustração Ale Setti


Recebi muitos e-mails louvando a idéia de que era saudável olhar a evidência. Contudo, um número alarmante de professores, como sugerem seus e-mails, pensa de modo diferente. Para eles: 1) Não é olhando a evidência que se decide entre o certo e o errado. Esta pode ser olimpicamente ignorada, sendo um desaforo questionar as verdades reveladas. 2) O que está escrito no texto não é considerado. Portanto, tiram conclusões, assestam ataques e dirigem vitupérios ao que acham haver sido dito mas que, na realidade, não está escrito. O alvo principal das indignações é o que consideram ser as minhas "opiniões" contra os professores.

Várias mensagens rejeitam, mais ou menos assim, uma afirmativa que eu teria feito: "O Claudio acha que os professores sem diploma de professor são melhores do que os com diploma". Argumentam que a sua opinião é certa e a minha, errada.

Vejamos um e-mail representativo: "...fiquei indignada ao saber que alguém pode pensar que professores formados em pedagogia possam atuar menos em sala de aula em relação a outros formados em outras disciplinas. Quem conhece o processo ensino-aprendizagem das séries iniciais (...) jamais poderia fazer tal afirmação. A avaliação citada (do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, Saeb) não pode servir de parâmetro para qualquer julgamento sobre a qualidade da Educação".

Contudo, rejeita-se o que eu não disse! Escrevi o seguinte: nas tabulações do Saeb, "os alunos de professores que cursaram magistério ou pedagogia têm notas piores do que os de professores que têm diploma superior em outra carreira". O trecho é a mera leitura de uma tabela. Portanto, não é minha "opinião". Digo em seguida: "Aprende mais quem aprende com quem não é professor? Não sabemos ao certo". Veja-se que a interpretação é apresentada na forma de uma pergunta, convidando a um esforço de entender o porquê de um resultado tão antiintuitivo. (O presente ensaio não é propriamente sobre educação, mas sobre como entender o mundo. Portanto, não entro aqui nas explicações cabíveis.)

Nega-se a idéia de que encontramos tais respostas mediante a observação do mundo real. Implicitamente, afirma-se o inverso, isto é, desvendamos o mundo real filosofando, "achando" ou nos referindo a uma observação pessoal. É como se o Saeb fosse uma teoria alternativa que pudéssemos escolher – quando, na verdade, é o teste da teoria. É como a balança que verifica o resultado das minhas teorias nutricionais – mas não as substitui. Será que essas mesmas pessoas gostariam de consultar-se com um médico que receita por palpite?

As mensagens conduzem a outra interpretação paralela, mas que tampouco é otimista: os missivistas não leram com atenção o ensaio. Responderam emocionalmente ao que pensam que o autor quis dizer. Só que o autor quis dizer exatamente o que escreveu, e não o que imaginam haver dito. Ou seja, nossos alunos estão aprendendo a ler com alguns professores que não são capazes, eles próprios, de decifrar com rigor um texto.

Isso nos remete tristemente a outro resultado do Saeb – não mencionado no ensaio anterior: os níveis de compreensão de leitura dos nossos alunos são baixíssimos. De fato, são calamitosos. Haverá alguma conexão?

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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