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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Huummm... Uau!
Chi... Eureca!
Do Brasil
de Lula aos EUA
de Bush,
são muitos e variados
os motivos
para exclamações
Huummm... O "huummm" é
uma imprescindível ferramenta, no estoque dos murmúrios
e exclamações. Expressa uma mistura de dúvida
com reticência, incredulidade com desconfiança. Na
semana passada, uma missão do governo brasileiro, chefiada
pelo embaixador Manoel Gomes Pereira, e composta ainda de um representante
do Ministério da Justiça e um do Ministério
Público, andava para cá e para lá, em Londres,
batendo à porta de órgãos policiais, defensores
dos direitos humanos e da comissão incumbida de investigar
a morte de Jean Charles de Menezes, o mineiro assassinado pela polícia
britânica. O objetivo? Bem... Informar-se, exigir apuração
de responsabilidades, coisas assim. Huummm...
O governo brasileiro precisava
mandar uma missão especial para esse fim? Não que
seja reprovável seu interesse pelo assunto. Pelo contrário,
tem o dever de preocupar-se com a sorte dos brasileiros no exterior.
Mas o Brasil mantém em Londres uma embaixada e um consulado.
Eles poderiam, até com mais vantagem, conhecedores que são,
por dever de ofício, ou que devem ser, dos meandros da vida
britânica, desincumbir-se da tarefa. Mas... Claro, uma missão
especial é mais vistosa. Garante uma cobertura de imprensa
que as representações permanentes, por operar numa
base mais rotineira, nem sempre atraem. Huummm... Fica a desconfiança
de que até à tragédia de Jean Charles não
se poupa o padrão Duda Mendonça de governança
marqueteira. Ainda mais que quem cuida do assunto é o Itamaraty,
recanto do governo tão chegado à marquetagem quanto
a uma coleção de fracassos que vai de derrotadas candidaturas
a órgãos multilaterais a "alianças estratégicas"
com países que lhe passam a perna.
Huummm... Se o leitor viu o anúncio
do governo convocando para a campanha de vacinação
contra a paralisia infantil, vai concordar que também merece
um "huummm". Como pano de fundo apareciam alegres bebês brincando
com uma bola, um bonito filme que, vai dito de passagem, deve ter
custado um bom dinheiro mas marcante, mesmo, foi a atuação
do ministro da Saúde. Enquanto os bebês evoluíam,
ele, em primeiro plano, fazia um discurso cheio de ternura, com
graciosas entonações de voz. Huummm... O ministro...
Como se chama ele mesmo? É um tal de entra-e-sai no governo...
Ah, sim, Saraiva Felipe (será que está certo? ou ele
tem se apresentado com nome e sobrenome invertidos?)... O ministro
foi chamado de "fofo" na coluna de Ancelmo Gois, no Globo.
O governo Lula nos apronta cada surpresa!
Uau!!! Estamos agora diante de
uma exclamação bem diferente. Se o "huummm" se dá
num diapasão discreto e sutilmente irônico, o "uau"
é uma aberta expressão de admiração,
de surpresa, de júbilo. Vem do "wow" do inglês. O ex-ministro
José Dirceu tem dito e repetido que os adversários
não estão atrás dele, e sim do que ele significa.
Uau! Que significa José Dirceu? Sabe-se o que Lula significa,
o que Brizola, Ulysses ou Tancredo significaram. Sabe-se, para lembrar
a mais preciosa flor do orquidário do ex-ministro, o que
Fidel Castro significa. Já Dirceu... Os jovens inventaram
um novo jeito de se referir às pessoas com alto conceito
de si mesmas. São pessoas que "se acham", forma abreviada
de "se acham o máximo". Uau! Como se acha, esse Dirceu! Até
merece congratulações, pela auto-estima lá
no céu, em meio à tormenta.
Chiiii... O "chi" exprime perigo.
Emprega-se quando as coisas ficam feias, e, para dar uma folga ao
governo Lula, vai dedicado a George W. Bush. Escândalo não
foi o pastor Pat Robertson ter recomendado o assassinato de Hugo
Chávez. Robertson é um notório maluquinho da
direita religiosa, que já disse disparates semelhantes. Escândalo
foi o Departamento de Estado ter classificado a recomendação
do pastor de "inapropriada". Inapropriada? A reação
cairia bem nos lábios de um mordomo inglês a exibir
seu domínio do understatement, a arte, tão característica
de sua nacionalidade, de conferir um cômico abatimento ao
real peso do que se quer dizer. Já num governo que se diz
em guerra de vida ou morte contra o terrorismo chiiii ,
é assustador. Dá margem à conclusão
de que o governo americano faz uma exceção ao terrorismo
a favor.
Eureca! Será que alguém
ainda se lembra do "eureca"? Quer dizer "achei", "descobri", "encontrei
a solução". A explicação é dedicada
aos jovens, a quem a palavra deve soar tão enigmática
quanto "caluda" ou "homessa". Eureca! Há solução
para a missão especial do embaixador Manoel Gomes Pereira.
Não é de esperar que, em Londres, ela tenha êxito
em apressar as investigações em torno do assassinato
de Jean Charles, nem que tenha o condão de agitar o assunto
mais do que já está agitado na opinião pública
inglesa. Mas, no Brasil, se voltada para os casos nacionais de mortes
praticadas pela polícia, aí, sim, encontraria um campo
de atuação muito mais fértil, e muito mais
carente de seus bons ofícios. Temos inclusive casos de estrangeiros,
como o do chinês que morreu sob tortura depois de preso no
aeroporto, não faz muito. Aqui, sim, a missão teria
tarefa útil a desempenhar.
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