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Música
Troca de guarda na MPB
Eles chegaram para substituir os medalhões
da música brasileira. Só não lhes peça
inovação

Sérgio Martins
Todo gênero musical tem
seu ciclo de vida. Em geral eles nascem, crescem e, em vez de desaparecer,
se fossilizam. A MPB atingiu esse estágio há algum
tempo. Seus últimos lampejos de transformação
se deram nos anos 70, quando houve um esforço para incrementar
a qualidade literária das letras e para promover algumas
misturas musicais heréticas uma guitarra de rock daqui,
um batuque regional dali. Aquela década foi a última
em que duas gerações legitimamente inovadoras trabalharam
juntas: Tom Jobim, João Gilberto e companhia, um pouco mais
velhos, de um lado; Chico Buarque, Caetano Veloso e quejandos, um
pouco mais jovens, de outro. Depois desse ponto, houve apenas reciclagem
de idéias com maior ou menor talento. O cenário,
ninguém nega, ficou chato. Os ouvintes mais inquietos abandonaram
a MPB. Os mais ingênuos ficaram esperando o próximo
revolucionário, que num gênero tão maduro simplesmente
não virá (assim como não veio na música
erudita, passados cinqüenta anos da última grande explosão,
ou no jazz, passados 36 anos). Em vez disso, o que pode acontecer
é a discreta ascensão de um novo grupo de compositores.
Na verdade, isso já está acontecendo. São nomes
como Lenine, Chico César, Pedro Luís e Zeca Baleiro,
a quem os artistas que hoje em dia querem parecer antenados vão
pedir canções.
Esses quatro compositores estão
na faixa dos 40 anos. Além da habilidade para compor, mostraram
perseverança e senso de oportunidade para criar vínculos
com medalhões da MPB. O pernambucano Lenine migrou do Recife
para o Rio em 1981 e passou anos em busca de oportunidades. Trabalhou
como redator do programa humorístico Os Trapalhões
e integrou uma banda de new wave chamada Xarada, cuja existência
se limitou a um compacto. "Passei um tempão visitando estúdios,
com uma fita na mão, para ver se cativava algum artista famoso",
lembra. Sua sorte mudou em meados dos anos 80, quando ele caiu nas
graças de Elba Ramalho, que sentiu afinidade com suas canções
de sotaque nordestino. Para uma cantora como Elba, associar-se a
um jovem compositor tem seus benefícios: ela ganha o status
de madrinha ou descobridora. Em meados da década passada,
ninguém foi mais cercado por estrelas do que o paraibano
Chico César. Elba (mais uma vez), além de Maria Bethânia
e Zizi Possi, passou a cortejá-lo depois que ele lançou
o CD Aos Vivos (1995). Gravar Chico César era sinônimo
de sintonia com o presente ainda que o presente fosse apenas
uma versão requentada da tropicália. O caso mais curioso
se deu com o maranhense Zeca Baleiro. Em 1997, Gal Costa planejava
o seu Acústico MTV. Ao contrário da amiga Bethânia,
ela nunca foi muito boa em ficar a par dos lançamentos. Sua
lista de convidados só tinha artistas veteranos, e por isso
insistiram para que ela incluísse um nome da nova geração.
A escolha recaiu sobre Zeca. O fator decisivo foi ele ter no repertório
uma música chamada À Flor da Pele, que fazia
remissão a Vapor Barato, sucesso da baiana nos anos
70. Depois dessa carona, Zeca Baleiro já teve mais de noventa
músicas gravadas por outros artistas.
Lenine, Zeca Baleiro, Pedro Luís
e Chico César já deixaram para trás suas fases
de aprendizagem. Hoje, existe até briga para saber quem vai
gravar primeiro suas canções. Os compositores gozam
de prestígio no exterior. Zeca Baleiro é famoso em
Portugal e Chico César se apresenta em festivais de world
music na Europa. Lenine virou ídolo na França. Em
junho passado, ele cantou ao lado da Orquestra Nacional da Ilha
de França e de um coral de 1 500 jovens. No repertório,
clássicos do cancioneiro popular e canções
próprias. A lista de intérpretes de suas composições
vai de Maria Bethânia e Zélia Duncan à diva
americana Dionne Warwick. Ele é o produtor do segundo disco
de Maria Rita, filha e imitadora de Elis Regina, e já pode
até escolher afilhados. Um deles é o compositor pernambucano
Junio Barreto, que abriu alguns de seus shows. Barreto emplacou
uma canção no novo disco de Gal Costa e sabe-se que
Maria Rita e Maria Bethânia pediram músicas dele. Outro
que tem procurado Lenine com insistência é Junior Lima
(ele mesmo, da dupla com Sandy). Junior quer levantar sua carreira-solo
e acha que, para isso, Lenine é fundamental. Talvez seja
assim mesmo. Parece estar se aproximando o momento em que o aval
do pernambucano terá peso semelhante ao "acho lindo" de Caetano
Veloso. Coisa muito diferente é acreditar que ele e seus
contemporâneos estão prestes a lançar a MPB
num ciclo de renovação. Como revolucionários,
eles são grandes tradicionalistas.
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