Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Música
Troca de guarda na MPB

Eles chegaram para substituir os medalhões
da música brasileira. Só não lhes peça inovação


Sérgio Martins

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Selo de qualidade

Todo gênero musical tem seu ciclo de vida. Em geral eles nascem, crescem e, em vez de desaparecer, se fossilizam. A MPB atingiu esse estágio há algum tempo. Seus últimos lampejos de transformação se deram nos anos 70, quando houve um esforço para incrementar a qualidade literária das letras e para promover algumas misturas musicais heréticas – uma guitarra de rock daqui, um batuque regional dali. Aquela década foi a última em que duas gerações legitimamente inovadoras trabalharam juntas: Tom Jobim, João Gilberto e companhia, um pouco mais velhos, de um lado; Chico Buarque, Caetano Veloso e quejandos, um pouco mais jovens, de outro. Depois desse ponto, houve apenas reciclagem de idéias – com maior ou menor talento. O cenário, ninguém nega, ficou chato. Os ouvintes mais inquietos abandonaram a MPB. Os mais ingênuos ficaram esperando o próximo revolucionário, que num gênero tão maduro simplesmente não virá (assim como não veio na música erudita, passados cinqüenta anos da última grande explosão, ou no jazz, passados 36 anos). Em vez disso, o que pode acontecer é a discreta ascensão de um novo grupo de compositores. Na verdade, isso já está acontecendo. São nomes como Lenine, Chico César, Pedro Luís e Zeca Baleiro, a quem os artistas que hoje em dia querem parecer antenados vão pedir canções.

Esses quatro compositores estão na faixa dos 40 anos. Além da habilidade para compor, mostraram perseverança e senso de oportunidade para criar vínculos com medalhões da MPB. O pernambucano Lenine migrou do Recife para o Rio em 1981 e passou anos em busca de oportunidades. Trabalhou como redator do programa humorístico Os Trapalhões e integrou uma banda de new wave chamada Xarada, cuja existência se limitou a um compacto. "Passei um tempão visitando estúdios, com uma fita na mão, para ver se cativava algum artista famoso", lembra. Sua sorte mudou em meados dos anos 80, quando ele caiu nas graças de Elba Ramalho, que sentiu afinidade com suas canções de sotaque nordestino. Para uma cantora como Elba, associar-se a um jovem compositor tem seus benefícios: ela ganha o status de madrinha ou descobridora. Em meados da década passada, ninguém foi mais cercado por estrelas do que o paraibano Chico César. Elba (mais uma vez), além de Maria Bethânia e Zizi Possi, passou a cortejá-lo depois que ele lançou o CD Aos Vivos (1995). Gravar Chico César era sinônimo de sintonia com o presente – ainda que o presente fosse apenas uma versão requentada da tropicália. O caso mais curioso se deu com o maranhense Zeca Baleiro. Em 1997, Gal Costa planejava o seu Acústico MTV. Ao contrário da amiga Bethânia, ela nunca foi muito boa em ficar a par dos lançamentos. Sua lista de convidados só tinha artistas veteranos, e por isso insistiram para que ela incluísse um nome da nova geração. A escolha recaiu sobre Zeca. O fator decisivo foi ele ter no repertório uma música chamada À Flor da Pele, que fazia remissão a Vapor Barato, sucesso da baiana nos anos 70. Depois dessa carona, Zeca Baleiro já teve mais de noventa músicas gravadas por outros artistas.

Lenine, Zeca Baleiro, Pedro Luís e Chico César já deixaram para trás suas fases de aprendizagem. Hoje, existe até briga para saber quem vai gravar primeiro suas canções. Os compositores gozam de prestígio no exterior. Zeca Baleiro é famoso em Portugal e Chico César se apresenta em festivais de world music na Europa. Lenine virou ídolo na França. Em junho passado, ele cantou ao lado da Orquestra Nacional da Ilha de França e de um coral de 1 500 jovens. No repertório, clássicos do cancioneiro popular e canções próprias. A lista de intérpretes de suas composições vai de Maria Bethânia e Zélia Duncan à diva americana Dionne Warwick. Ele é o produtor do segundo disco de Maria Rita, filha e imitadora de Elis Regina, e já pode até escolher afilhados. Um deles é o compositor pernambucano Junio Barreto, que abriu alguns de seus shows. Barreto emplacou uma canção no novo disco de Gal Costa e sabe-se que Maria Rita e Maria Bethânia pediram músicas dele. Outro que tem procurado Lenine com insistência é Junior Lima (ele mesmo, da dupla com Sandy). Junior quer levantar sua carreira-solo e acha que, para isso, Lenine é fundamental. Talvez seja assim mesmo. Parece estar se aproximando o momento em que o aval do pernambucano terá peso semelhante ao "acho lindo" de Caetano Veloso. Coisa muito diferente é acreditar que ele e seus contemporâneos estão prestes a lançar a MPB num ciclo de renovação. Como revolucionários, eles são grandes tradicionalistas.

 

 
 
 
 
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