Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Literatura
Retrato falado

CD traz registro inédito da
voz de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira: leitura sem teatralidade  

As pausas, a cadência, o modo de articular uma frase, a respiração – tudo isso pode ser muito significativo na poesia. É por isso que registros sonoros de poetas recitando a própria obra são preciosos. Um documento histórico do gênero acaba de ser editado: o CD Manuel Bandeira – O Poeta em Botafogo apresenta o autor de Libertinagem lendo 27 de seus poemas. É uma iniciativa do diplomata Lauro Moreira, que foi amigo de Manuel Bandeira (1886-1968) na década de 60. Ao lado da escritora Clarice Lispector, Bandeira foi padrinho do casamento do diplomata com a poeta Marly de Oliveira, em 1964 (mais tarde, Marly seria mulher do também poeta João Cabral de Melo Neto). Certa noite, em 1967, depois de um jantar na casa do amigo, o poeta pediu para usar o gravador de rolo. Desejava registrar a leitura de alguns poemas. Esquecida nos anos em que o diplomata serviu no exterior, a fita foi recuperada e reproduzida em CD. A seleção é um tanto aleatória, mas inclui alguns dos poemas mais conhecidos do autor, como Consoada, Última Canção do Beco – e, claro, Vou-me Embora pra Pasárgada, peça obrigatória de qualquer antologia de poesia brasileira. A gravação caseira foi feita sem cuidados de isolamento de som – é possível ouvir o trânsito de carros ao fundo. Mas esses defeitos acrescentam um certo charme casual à leitura de Bandeira. Sua voz anasalada é calma, sem teatralidade. Nenhuma ênfase desnecessária é colocada nos versos. Como uma espécie de bônus no CD, Lauro Moreira leu ele mesmo mais trinta poemas de Bandeira. A qualidade da gravação é melhor – mas nada se compara à voz do próprio poeta.

 
 
 
 
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