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Saúde
Viciados em sol Enfrentar
os raios solares a qualquer custo, apenas para ficar bronzeado, pode ser
sintoma de dependência química. Suas vítimas já
são chamadas de sunaholics 
Giuliana Bergamo e Paula Neiva
Tomar
sol em excesso, sem proteção, é um atalho para desenvolver
câncer de pele. Embora as campanhas de alerta sejam abundantes, principalmente
no verão, é grande o número de pessoas que se descuidam com
freqüência. Nesse universo de desleixados com a própria saúde,
há um subgrupo recém-identificado pelos dermatologistas: o dos sunaholics,
expressão inglesa para viciados em sol. Não importam a estação
nem as condições climáticas, eles estão sempre bronzeadíssimos.
Quando não lagarteiam horas a fio na areia da praia ou à beira da
piscina, deixam-se tostar em câmaras de bronzeamento artificial. A palavra
"vício", no caso dos sunaholics, é mais do que uma força
de expressão. Estudos internacionais recentes mostram que a necessidade
excessiva de exposição ao sol pode ter origem biológica.
Um desses trabalhos está na última edição da revista
científica Archives of Dermatology, publicada pela Associação
Médica Americana. Ele defende a tese de que o bronzeamento pode viciar
da mesma forma que as drogas ou o álcool podem levar à dependência.
Marcio Madeira/Ag. Fotosite  |
| Sarahyba: saudade dos tempos de sol total e irrestrito
| A pesquisa foi coordenada
por médicos da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Os especialistas
avaliaram cerca de 150 voluntários adultos, habituados a ir à praia.
Eles foram submetidos a questionários aplicados tradicionalmente por psiquiatras
para classificar o grau de dependência de um paciente. Entre as questões
abordadas havia tópicos relativos à freqüência, tempo
e vontade de se expor aos raios solares. Até 53% dos entrevistados se encaixaram
na categoria de dependentes químicos. Outro trabalho, publicado pela Academia
Americana de Dermatologia, demonstrou que a exposição aos raios
ultravioleta provoca sensações de prazer e bem-estar. No experimento,
os médicos dispunham de duas câmaras de bronzeamento artificial,
mas apenas uma delas emitia raios ultravioleta de verdade. Ao longo de algumas
semanas, os pacientes alternavam as câmaras, sem saber que uma delas era
falsa. Em 92% dos casos, os relatos de satisfação e contentamento
foram associados apenas à câmara verdadeira. "Acredita-se que os
raios ultravioleta, sobretudo os do tipo B, estimulem a produção
de endorfinas, os neurotransmissores responsáveis pela sensação
de bem-estar e prazer", disse a VEJA o médico americano Richard Wagner,
um dos autores do estudo da Universidade do Texas. Os níveis de endorfinas
sobem sob a ação dos raios ultravioleta assim como aumentam mediante
o consumo de chocolate ou a prática de exercício físico,
por exemplo.
A modelo carioca Daniella
Sarahyba reconhece que sente muito prazer ao tomar sol. "Fico mais feliz", diz.
Até bem pouco tempo atrás, ela mantinha o corpo dourado à
custa de nenhuma proteção. Apenas o rosto recebia uma camada de
filtro solar. Aos 21 anos, Daniella já estava com a pele manchada e ressecada.
Por sugestão de seus agentes, ela resolveu deixar a paixão um pouco
de lado. Hoje, além de se expor bem menos aos raios solares, a modelo usa
filtro 45 no corpo todo. "Eu estava queimada demais, não há
como negar", diz ela. "Mas, mesmo assim, sinto muita falta dos tempos em que tomava
sol sem nenhuma restrição."
Uma certa dependência do sol talvez tenha raízes na evolução
da espécie humana, explica o médico Omar Lupi, presidente da Sociedade
Brasileira de Dermatologia, da regional Rio de Janeiro. Depois que o homem se
tornou definitivamente bípede, seus pêlos ficaram menores e mais
finos e o número de glândulas sudoríparas aumentou. Essas
transformações facilitaram a eliminação do calor e,
com isso, nossos ancestrais puderam caçar durante os picos de sol, enquanto
os outros animais descansavam uma enorme vantagem. Para agüentar o
desgaste, o organismo teria criado mecanismos de recompensa. Ou seja, sob o sol,
os homens teriam passado a produzir substâncias, como as endorfinas, que
resultam em bem-estar. Dentro dessa hipótese, o organismo de um sunaholic,
por razões biológicas não desvendadas, apresentaria uma maior
necessidade de exposição solar.
Pode-se imaginar quantos antepassados do homem morreram de câncer de pele.
E quantos de nossos contemporâneos ainda serão diagnosticados com
essa doença. No Brasil, onde o grau de insolação é
alto, o câncer de pele é o mais comum dos tumores malignos. Cerca
de 120.000 novos casos serão registrados em 2005. Apesar das campanhas
de alerta, esse número cresce 5% ao ano, em média. O câncer
é causado por alterações no DNA das células. Esses
danos são provocados pelos dois tipos mais comuns de raios solares, o ultravioleta
A e o B (UVA e UVB, respectivamente). Além do câncer, sol em excesso
eleva o risco de uma série de outros problemas de saúde, como inflamações
e infecções. O dado curioso é que, ao contrário do
que acreditam piamente os sunaholics, bronzeado não é sinal
de saúde. "O bronzeado é a proteção do organismo contra
o sol", explica a dermatologista gaúcha Taciana Dal'Forno. A agressão
aumenta drasticamente a produção de melanina, o pigmento natural,
que funciona como uma espécie de guarda-sol em torno do material genético
das células. Mas essa proteção tem um limite, determinado
pelo tipo de pele de cada um. Há que levar em conta ainda que o risco aumenta
de acordo com a freqüência, o tempo e o local escolhido para o banho
de sol (veja
quadro). Para minimizar os perigos, o ideal é não
dispensar jamais o figurino do bronzeado seguro filtro solar, guarda-sol,
chapéu e óculos. Se você é um sunaholic e se
recusa a ir à praia com todo esse equipamento, o melhor a fazer é
mudar-se para a Islândia e morar, de preferência, num lugarejo
bem isolado, sem nenhuma câmara de bronzeamento artificial. O único
risco é morrer de tédio. |