Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Saúde
Viciados em sol

Enfrentar os raios solares a qualquer
custo, apenas para ficar bronzeado,
pode ser sintoma de dependência química.
Suas vítimas já são chamadas de sunaholics


Giuliana Bergamo e Paula Neiva

NESTA REPORTAGEM
Quadro: O mapa do sol
Quadro: Cada tipo de pele, um cuidado

EXCLUSIVO ON-LINE
Mais sobre cuidados no verão em VEJA Saúde

Tomar sol em excesso, sem proteção, é um atalho para desenvolver câncer de pele. Embora as campanhas de alerta sejam abundantes, principalmente no verão, é grande o número de pessoas que se descuidam com freqüência. Nesse universo de desleixados com a própria saúde, há um subgrupo recém-identificado pelos dermatologistas: o dos sunaholics, expressão inglesa para viciados em sol. Não importam a estação nem as condições climáticas, eles estão sempre bronzeadíssimos. Quando não lagarteiam horas a fio na areia da praia ou à beira da piscina, deixam-se tostar em câmaras de bronzeamento artificial. A palavra "vício", no caso dos sunaholics, é mais do que uma força de expressão. Estudos internacionais recentes mostram que a necessidade excessiva de exposição ao sol pode ter origem biológica. Um desses trabalhos está na última edição da revista científica Archives of Dermatology, publicada pela Associação Médica Americana. Ele defende a tese de que o bronzeamento pode viciar da mesma forma que as drogas ou o álcool podem levar à dependência.

Marcio Madeira/Ag. Fotosite
Sarahyba: saudade dos tempos de sol total e irrestrito


A pesquisa foi coordenada por médicos da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Os especialistas avaliaram cerca de 150 voluntários adultos, habituados a ir à praia. Eles foram submetidos a questionários aplicados tradicionalmente por psiquiatras para classificar o grau de dependência de um paciente. Entre as questões abordadas havia tópicos relativos à freqüência, tempo e vontade de se expor aos raios solares. Até 53% dos entrevistados se encaixaram na categoria de dependentes químicos. Outro trabalho, publicado pela Academia Americana de Dermatologia, demonstrou que a exposição aos raios ultravioleta provoca sensações de prazer e bem-estar. No experimento, os médicos dispunham de duas câmaras de bronzeamento artificial, mas apenas uma delas emitia raios ultravioleta de verdade. Ao longo de algumas semanas, os pacientes alternavam as câmaras, sem saber que uma delas era falsa. Em 92% dos casos, os relatos de satisfação e contentamento foram associados apenas à câmara verdadeira. "Acredita-se que os raios ultravioleta, sobretudo os do tipo B, estimulem a produção de endorfinas, os neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar e prazer", disse a VEJA o médico americano Richard Wagner, um dos autores do estudo da Universidade do Texas. Os níveis de endorfinas sobem sob a ação dos raios ultravioleta assim como aumentam mediante o consumo de chocolate ou a prática de exercício físico, por exemplo.

A modelo carioca Daniella Sarahyba reconhece que sente muito prazer ao tomar sol. "Fico mais feliz", diz. Até bem pouco tempo atrás, ela mantinha o corpo dourado à custa de nenhuma proteção. Apenas o rosto recebia uma camada de filtro solar. Aos 21 anos, Daniella já estava com a pele manchada e ressecada. Por sugestão de seus agentes, ela resolveu deixar a paixão um pouco de lado. Hoje, além de se expor bem menos aos raios solares, a modelo usa filtro 45 – no corpo todo. "Eu estava queimada demais, não há como negar", diz ela. "Mas, mesmo assim, sinto muita falta dos tempos em que tomava sol sem nenhuma restrição."

Uma certa dependência do sol talvez tenha raízes na evolução da espécie humana, explica o médico Omar Lupi, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da regional Rio de Janeiro. Depois que o homem se tornou definitivamente bípede, seus pêlos ficaram menores e mais finos e o número de glândulas sudoríparas aumentou. Essas transformações facilitaram a eliminação do calor e, com isso, nossos ancestrais puderam caçar durante os picos de sol, enquanto os outros animais descansavam – uma enorme vantagem. Para agüentar o desgaste, o organismo teria criado mecanismos de recompensa. Ou seja, sob o sol, os homens teriam passado a produzir substâncias, como as endorfinas, que resultam em bem-estar. Dentro dessa hipótese, o organismo de um sunaholic, por razões biológicas não desvendadas, apresentaria uma maior necessidade de exposição solar.

Pode-se imaginar quantos antepassados do homem morreram de câncer de pele. E quantos de nossos contemporâneos ainda serão diagnosticados com essa doença. No Brasil, onde o grau de insolação é alto, o câncer de pele é o mais comum dos tumores malignos. Cerca de 120.000 novos casos serão registrados em 2005. Apesar das campanhas de alerta, esse número cresce 5% ao ano, em média. O câncer é causado por alterações no DNA das células. Esses danos são provocados pelos dois tipos mais comuns de raios solares, o ultravioleta A e o B (UVA e UVB, respectivamente). Além do câncer, sol em excesso eleva o risco de uma série de outros problemas de saúde, como inflamações e infecções. O dado curioso é que, ao contrário do que acreditam piamente os sunaholics, bronzeado não é sinal de saúde. "O bronzeado é a proteção do organismo contra o sol", explica a dermatologista gaúcha Taciana Dal'Forno. A agressão aumenta drasticamente a produção de melanina, o pigmento natural, que funciona como uma espécie de guarda-sol em torno do material genético das células. Mas essa proteção tem um limite, determinado pelo tipo de pele de cada um. Há que levar em conta ainda que o risco aumenta de acordo com a freqüência, o tempo e o local escolhido para o banho de sol (veja quadro). Para minimizar os perigos, o ideal é não dispensar jamais o figurino do bronzeado seguro – filtro solar, guarda-sol, chapéu e óculos. Se você é um sunaholic e se recusa a ir à praia com todo esse equipamento, o melhor a fazer é mudar-se para a Islândia – e morar, de preferência, num lugarejo bem isolado, sem nenhuma câmara de bronzeamento artificial. O único risco é morrer de tédio.

 

OS DEPENDENTES

Eles se expõem ao sol ignorando todas as medidas de proteção


Por mais que estejam bronzeados, para eles nunca é o suficiente


Freqüentemente deixam de lado atividades sociais ou profissionais para se bronzear


Não se intimidam com o risco de desenvolver câncer de pele


Sem banhos de sol regulares, sentem-se desanimados, infelizes, irritadiços e feios


Com medo de perder o bronzeado, aumentam continuamente o tempo de exposição aos raios ultravioleta

Fonte: Archives of Dermatology



 
 
 
 
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