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Sociedade
As "biofábricas"
Mulheres vendem fetos abortados para
clínicas de estética na Rússia, que oferecem
tratamentos com células-tronco

Paula Neiva
Mikhail Metzel/AP
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| Centro de beleza em Moscou: há também
terapias com injeções de células-tronco
extraídas da medula óssea |
A abertura econômica proporcionou
uma explosão no mercado dos produtos e serviços de
beleza na Rússia. Mercado que inclui bizarrices como um tratamento
antienvelhecimento à base de injeções de células-tronco
extraídas de fetos. Quatro sessões, ao custo total
de 50.000 dólares, seriam capazes de eliminar rugas, aumentar
a disposição, evitar a calvície e manter a
libido a mil. Tudo balela. Não bastasse a falta de comprovação
da eficácia e segurança da terapia, as clínicas
de estética que a oferecem se valem do comércio ilegal
de fetos abortados como fonte dessas células-tronco. Mulheres
jovens e pobres, em sua maioria, são incentivadas a interromper
a gravidez por volta do terceiro mês e a vender o feto. O
preço: 200 dólares cada um. Para ganharem um dinheiro
extra, algumas delas engravidam apenas para abortar. A essas mulheres,
inclusive, foi dado o apelido de "biofábricas". A procura
pelas injeções de células-tronco é tão
grande que já se formou até uma rede internacional
de tráfico de fetos abortados entre a Rússia e ex-repúblicas
soviéticas, sobretudo a Ucrânia. Em abril passado,
um homem com 25 fetos congelados, escondidos em aspiradores de pó,
foi preso na fronteira entre os dois países.
Terapias com células-tronco
são uma das grandes apostas da medicina. Como têm a
capacidade de se transformar em qualquer célula do corpo
humano, elas poderão ser usadas, acredita-se, no tratamento
de doenças degenerativas graves, como o câncer e o
diabetes. As principais fontes de células-tronco são
os embriões, os fetos, o sangue do cordão umbilical
e a medula óssea. Enquanto os cientistas do Ocidente ainda
tentam entender o seu funcionamento, a Rússia já as
utiliza em tratamentos antiidade faz algum tempo, embora não
haja nenhuma prova de sua eficiência. Há até
mesmo uma lei que prevê o uso em clínicas de estética
de células-tronco extraídas da medula óssea.
Só em Moscou cinqüenta centros oferecem a terapia
a maioria deles com fila de espera.
Desde que foi divulgado que as
células fetais podem ser mais potentes do que as de medula,
clínicas russas passaram a recorrer às "biofábricas"
para obtê-las. Tratamentos estéticos com essa matéria-prima
são arriscados também porque não se conhecem
os seus efeitos a longo prazo. Além disso, como se trata
de uma atividade ilegal, a higiene e a segurança do material
não são controladas. "Abre-se a possibilidade de contaminação
por uma série de vírus, como os das hepatites", diz
o geneticista russo Alexandre Kerkis. Um dos fatores que mais contribuem
para a proliferação dos tratamentos com células-tronco
fetais na Rússia é a facilidade com que se consegue
um feto por lá. O número anual de abortos, o principal
método de controle da natalidade naquele país, chega
a 2 milhões o que corresponde a 60% das gestações.
E, agora, há as mulheres que abortam por encomenda.
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