Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Cultura
Intelectuais sem causa

Eis mais uma desinvenção do partido do dólar
na cueca: os antiintelectuais, sábios que não
ouvem, não vêem e não falam. Pelo menos
enquanto os amigos estiverem no poder


João Gabriel de Lima

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Declarações dos intelectuais

A palestra de abertura do seminário "O silêncio dos intelectuais", na semana passada, foi marcada pelo silêncio da filósofa Marilena Chaui. Instada pela platéia a comentar as notícias sobre corrupção no partido ao qual pertence, o PT, a professora da Universidade de São Paulo disse que não havia dados suficientes para fazer um julgamento. Segundo ela, não era possível confiar nos meios de comunicação, pois estes seriam pautados por "ideólogos tucanos". De qualquer forma, disse ela, se culpa havia, não era do PT, mas do próprio sistema político brasileiro, no qual o presidente nunca tem maioria no Congresso e é obrigado a negociar com os partidos – como se a única forma de fazer isso fosse subornar deputados pagando o mensalão. O raciocínio equivale a culpar o granjeiro que deixou a porta do galinheiro aberta pelo delito de quem lhe afanou as aves. A palestra de Marilena tinha como título uma pergunta: "Intelectual engajado, figura em extinção?". A resposta da filósofa era afirmativa. Os intelectuais com alguma forma de militância estariam desaparecendo, salvo por raras e heróicas exceções – entre as quais ela própria.

A tese de Marilena não se sustenta. Primeiro, intelectual é um sábio engajado. Não existe intelectual neutro – isso é invenção agora de Marilena, depois que sua turma de parteiros da história foi apanhada com dólares na cueca. A figura do intelectual surgiu junto com o iluminismo, e sua figura emblemática é o filósofo François-Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778). Em 1762, em Toulouse, na França, o comerciante calvinista Jean Calas foi condenado à morte por ter supostamente matado o próprio filho, Marc-Antoine, que ameaçara se converter ao catolicismo. Calas foi executado na roda, um tipo de suplício comum na época. Voltaire viu ali um caso clássico de intolerância religiosa e começou a escrever sobre o assunto. Graças à sua insistência, ficou provado que Jean Calas era inocente e que Marc-Antoine havia na verdade se suicidado por causa de dívidas de jogo. O intelectual é, assim, uma invenção liberal – alguém que usa seu saber, poder e prestígio para esclarecer a opinião pública e combater o obscurantismo. O segundo caso emblemático, mais de um século depois, é o do escritor Émile Zola (1840-1902), em sua defesa do oficial do Exército francês Alfred Dreyfus. Em 1894 Dreyfus foi preso, acusado de espionagem. Zola viu na manobra uma manifestação mal disfarçada de racismo – Dreyfus era judeu – e expôs o escândalo à opinião pública no libelo J'Accuse ("Eu acuso"). Após uma longa polêmica que dividiu o país, Dreyfus acabou libertado e reabilitado. O petismo inventou o antiintelectual, o sábio que não ouve, não vê e não fala nada da corrupção dos amigos no poder. E pensar que eles ensinam nossos filhos nas universidades e são pagos com o nosso dinheiro...

Intelectuais não interessam a regimes totalitários, como o nazismo, o fascismo e o comunismo que apareceriam no século XX. É famosa a frase de Lenin segundo a qual, comparando um país a um corpo humano, os intelectuais não seriam sua cabeça pensante, mas o produto dos processos escatológicos. Mesmo assim, a grande operação propagandística que foi o comunismo trouxe vários escritores, filósofos e cientistas de diversas especialidades para suas fileiras. Nascia assim uma distorção do engajamento de Voltaire e Zola, o "intelectual-poodle", aquele que abdica da acurácia de pensamento para defender cegamente uma facção política. O representante mais famoso dessa espécie é o escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), que aderiu ao comunismo no início dos anos 1950. Entre outras barbaridades, o poodle da Sorbonne chegou a defender que não havia censura à imprensa na União Soviética sob Stalin. O filósofo foi celebridade em seu tempo, mas não resistiu ao julgamento da história. Num opúsculo sobre o autor de O Ser e o Nada recentemente publicado no Brasil, a professora francesa Annie Cohen-Solal nota que Sartre é hoje execrado no meio acadêmico de seu país de origem. Na balança, sua desonestidade intelectual pesou mais do que o valor de sua obra literária. Desonestidade – ou preguiça. O escritor e pintor inglês Joshua Reynolds (1723-1792), fundador de um clube literário do qual participavam, entre outros, o crítico Samuel Johnson e o escritor James Boswell, costumava dizer que seguir acriticamente ideários esquemáticos é antes de tudo um estratagema para evitar a dolorosa tarefa de pensar.

Marilena Chaui é a forma mais acabada que temos hoje no Brasil do "poodle" do pensamento. Como seus patrões no Planalto, ela faz vistas grossas para um escândalo do qual vários de seus colegas de partido se envergonham. O mesmo se pode dizer do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que em entrevista à Folha de S.Paulo na semana passada colocou a corrupção petista na conta de uma tentativa de golpe orquestrada pelo PSDB e pelo PFL. Em sua defesa cega (e surda, e muda) do partido, Marilena e Wanderley ainda têm muitos companheiros entre os chamados "intelectuais petistas" – um oximoro tão perfeito quanto "chuva seca", "inteligência militar" ou "visão de esquerda". Em boa parte dos casos, são barulhentos e contam com uma seita de seguidores igualmente raivosa e ruidosa. Mas já começam a virar minoria. A corrupção no governo vem sacudindo a intelectualidade brasileira de esquerda, que por muitos anos foi prisioneira de uma ilusão – a de que bastariam quatro anos de um governo petista, comprometido com os chamados "interesses nacionais" e professando elevado padrão ético, para resolver os problemas brasileiros. O primeiro choque veio quando Lula abraçou entusiasticamente a política econômica formulada pelo PSDB, a qual o PT havia criticado por oito anos. O segundo com a crise atual. Mais lúcidos que Marilena e Wanderley Guilherme, o sociólogo Francisco de Oliveira, o economista Paul Singer e a cientista política Maria Victoria Benevides vieram a público recentemente para condenar o partido do ponto de vista ético (veja quadro na pág. 96). Numa palestra na Festa Literária Internacional de Parati (Flip), o crítico literário Roberto Schwarz resumiu com precisão o sentimento da turma: "Os melhores de nós, da esquerda, eram justamente Fernando Henrique e Lula. Eles chegaram ao poder e não resolveram os nossos problemas. Talvez nossos problemas sejam mais complexos do que imaginávamos". Bingo! Francisco de Oliveira completa: "Precisamos ir além dos antigos slogans". A isso os velhos comunistas chamariam "autocrítica".

Justiça seja feita, o seminário "O silêncio dos intelectuais" não foi criado para discutir o governo petista nem para que a esquerda lavasse sua roupa suja. O evento, organizado pelo filósofo Adauto Novaes – que tem em seu currículo ciclos bem-sucedidos como "O olhar" e "Os sentidos da paixão" , é um conjunto bem balanceado de palestrantes de diferentes especialidades e colorações ideológicas, e seu tema havia sido escolhido muito antes que o neologismo mensalão fosse cunhado. Embora o título do seminário seja provocativo, ele não reflete a realidade. Como costuma dizer a argentina Beatriz Sarlo, professora de literatura, nunca os intelectuais tiveram tanto prestígio e voz quanto hoje. É fácil entender a razão. Com a decadência dos totalitarismos de esquerda e de direita, os intelectuais voltaram a ter espaço para se manifestar. Quando ocorre um evento dramático como o 11 de Setembro, as páginas de jornais, os debates de televisão e os programas de rádio se enchem deles, com as opiniões mais díspares – é só ler por exemplo o que a americana Susan Sontag e o francês Bernard-Henri Lévy escreveram sobre o assunto. Planejado para refletir essa pluralidade, "O silêncio dos intelectuais" ficou com pecha de governista por ter sido apoiado pelo Ministério da Cultura e também pela repercussão da palestra de Marilena. No final da exposição, ela revelou que não tem lido jornais nos últimos cinco meses por causa de um problema sério de doença na família. Superada a tribulação, talvez fosse o caso de a filósofa entrar no Google e se debruçar sobre os debates e relatórios da CPI e as investigações policiais. Quando Sartre decidiu se tornar comunista, o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty objetou que não poderia apoiar a causa sem conhecer de forma aprofundada a situação da União Soviética, para que não terminasse por emular um ditador. Para ele, um intelectual não podia aderir automaticamente a nada – era essencial, antes, correr atrás de informação. Merleau-Ponty é um dos heróis de Marilena. Se o bom é seguir cega e comodamente alguma coisa, melhor seria a senhora filósofa seguir Merleau-Ponty. Afinal, quando um sábio renuncia ao engajamento numa causa tão importante quanto a moralidade pública, resta pouco de sua condição de intelectual. Ou melhor, não resta nada.

 
 
 
 
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