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Cultura Intelectuais
sem causa Eis mais uma desinvenção
do partido do dólar na cueca: os antiintelectuais, sábios que
não ouvem, não vêem e não falam. Pelo menos
enquanto os amigos estiverem no poder  João
Gabriel de Lima
A palestra de abertura
do seminário "O silêncio dos intelectuais", na semana passada, foi
marcada pelo silêncio da filósofa Marilena Chaui. Instada pela platéia
a comentar as notícias sobre corrupção no partido ao qual
pertence, o PT, a professora da Universidade de São Paulo disse que não
havia dados suficientes para fazer um julgamento. Segundo ela, não era
possível confiar nos meios de comunicação, pois estes seriam
pautados por "ideólogos tucanos". De qualquer forma, disse ela, se culpa
havia, não era do PT, mas do próprio sistema político brasileiro,
no qual o presidente nunca tem maioria no Congresso e é obrigado a negociar
com os partidos como se a única forma de fazer isso fosse subornar
deputados pagando o mensalão. O raciocínio equivale a culpar o granjeiro
que deixou a porta do galinheiro aberta pelo delito de quem lhe afanou as aves.
A palestra de Marilena tinha como título uma pergunta: "Intelectual engajado,
figura em extinção?". A resposta da filósofa era afirmativa.
Os intelectuais com alguma forma de militância estariam desaparecendo, salvo
por raras e heróicas exceções entre as quais ela própria.
A tese de Marilena não se sustenta.
Primeiro, intelectual é um sábio engajado. Não existe intelectual
neutro isso é invenção agora de Marilena, depois que
sua turma de parteiros da história foi apanhada com dólares na cueca.
A figura do intelectual surgiu junto com o iluminismo, e sua figura emblemática
é o filósofo François-Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778).
Em 1762, em Toulouse, na França, o comerciante calvinista Jean Calas foi
condenado à morte por ter supostamente matado o próprio filho, Marc-Antoine,
que ameaçara se converter ao catolicismo. Calas foi executado na roda,
um tipo de suplício comum na época. Voltaire viu ali um caso clássico
de intolerância religiosa e começou a escrever sobre o assunto. Graças
à sua insistência, ficou provado que Jean Calas era inocente e que
Marc-Antoine havia na verdade se suicidado por causa de dívidas de jogo.
O intelectual é, assim, uma invenção liberal alguém
que usa seu saber, poder e prestígio para esclarecer a opinião pública
e combater o obscurantismo. O segundo caso emblemático, mais de um século
depois, é o do escritor Émile Zola (1840-1902), em sua defesa do
oficial do Exército francês Alfred Dreyfus. Em 1894 Dreyfus foi preso,
acusado de espionagem. Zola viu na manobra uma manifestação mal
disfarçada de racismo Dreyfus era judeu e expôs o escândalo
à opinião pública no libelo J'Accuse ("Eu acuso").
Após uma longa polêmica que dividiu o país, Dreyfus acabou
libertado e reabilitado. O petismo inventou o antiintelectual, o sábio
que não ouve, não vê e não fala nada da corrupção
dos amigos no poder. E pensar que eles ensinam nossos filhos nas universidades
e são pagos com o nosso dinheiro...
Intelectuais não interessam a regimes totalitários, como o nazismo,
o fascismo e o comunismo que apareceriam no século XX. É famosa
a frase de Lenin segundo a qual, comparando um país a um corpo humano,
os intelectuais não seriam sua cabeça pensante, mas o produto dos
processos escatológicos. Mesmo assim, a grande operação propagandística
que foi o comunismo trouxe vários escritores, filósofos e cientistas
de diversas especialidades para suas fileiras. Nascia assim uma distorção
do engajamento de Voltaire e Zola, o "intelectual-poodle", aquele que abdica da
acurácia de pensamento para defender cegamente uma facção
política. O representante mais famoso dessa espécie é o escritor
e filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), que aderiu ao comunismo
no início dos anos 1950. Entre outras barbaridades, o poodle da Sorbonne
chegou a defender que não havia censura à imprensa na União
Soviética sob Stalin. O filósofo foi celebridade em seu tempo, mas
não resistiu ao julgamento da história. Num opúsculo sobre
o autor de O Ser e o Nada recentemente publicado no Brasil, a professora
francesa Annie Cohen-Solal nota que Sartre é hoje execrado no meio acadêmico
de seu país de origem. Na balança, sua desonestidade intelectual
pesou mais do que o valor de sua obra literária. Desonestidade ou
preguiça. O escritor e pintor inglês Joshua Reynolds (1723-1792),
fundador de um clube literário do qual participavam, entre outros, o crítico
Samuel Johnson e o escritor James Boswell, costumava dizer que seguir acriticamente
ideários esquemáticos é antes de tudo um estratagema para
evitar a dolorosa tarefa de pensar.
Marilena Chaui é a forma mais acabada que temos hoje no Brasil do "poodle"
do pensamento. Como seus patrões no Planalto, ela faz vistas grossas para
um escândalo do qual vários de seus colegas de partido se envergonham.
O mesmo se pode dizer do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos,
que em entrevista à Folha de S.Paulo na semana passada colocou a
corrupção petista na conta de uma tentativa de golpe orquestrada
pelo PSDB e pelo PFL. Em sua defesa cega (e surda, e muda) do partido, Marilena
e Wanderley ainda têm muitos companheiros entre os chamados "intelectuais
petistas" um oximoro tão perfeito quanto "chuva seca", "inteligência
militar" ou "visão de esquerda". Em boa parte dos casos, são barulhentos
e contam com uma seita de seguidores igualmente raivosa e ruidosa. Mas já
começam a virar minoria. A corrupção no governo vem sacudindo
a intelectualidade brasileira de esquerda, que por muitos anos foi prisioneira
de uma ilusão a de que bastariam quatro anos de um governo petista,
comprometido com os chamados "interesses nacionais" e professando elevado padrão
ético, para resolver os problemas brasileiros. O primeiro choque veio quando
Lula abraçou entusiasticamente a política econômica formulada
pelo PSDB, a qual o PT havia criticado por oito anos. O segundo com a crise atual.
Mais lúcidos que Marilena e Wanderley Guilherme, o sociólogo Francisco
de Oliveira, o economista Paul Singer e a cientista política Maria Victoria
Benevides vieram a público recentemente para condenar o partido do ponto
de vista ético (veja quadro na pág. 96). Numa palestra na
Festa Literária Internacional de Parati (Flip), o crítico literário
Roberto Schwarz resumiu com precisão o sentimento da turma: "Os melhores
de nós, da esquerda, eram justamente Fernando Henrique e Lula. Eles chegaram
ao poder e não resolveram os nossos problemas. Talvez nossos problemas
sejam mais complexos do que imaginávamos". Bingo! Francisco de Oliveira
completa: "Precisamos ir além dos antigos slogans". A isso os velhos comunistas
chamariam "autocrítica". Justiça
seja feita, o seminário "O silêncio dos intelectuais" não
foi criado para discutir o governo petista nem para que a esquerda lavasse sua
roupa suja. O evento, organizado pelo filósofo Adauto Novaes que
tem em seu currículo ciclos bem-sucedidos como "O olhar" e "Os sentidos
da paixão" , é um conjunto bem balanceado de palestrantes
de diferentes especialidades e colorações ideológicas, e
seu tema havia sido escolhido muito antes que o neologismo mensalão fosse
cunhado. Embora o título do seminário seja provocativo, ele não
reflete a realidade. Como costuma dizer a argentina Beatriz Sarlo, professora
de literatura, nunca os intelectuais tiveram tanto prestígio e voz quanto
hoje. É fácil entender a razão. Com a decadência dos
totalitarismos de esquerda e de direita, os intelectuais voltaram a ter espaço
para se manifestar. Quando ocorre um evento dramático como o 11 de Setembro,
as páginas de jornais, os debates de televisão e os programas de
rádio se enchem deles, com as opiniões mais díspares
é só ler por exemplo o que a americana Susan Sontag e o francês
Bernard-Henri Lévy escreveram sobre o assunto. Planejado para refletir
essa pluralidade, "O silêncio dos intelectuais" ficou com pecha de governista
por ter sido apoiado pelo Ministério da Cultura e também pela repercussão
da palestra de Marilena. No final da exposição, ela revelou que
não tem lido jornais nos últimos cinco meses por causa de um problema
sério de doença na família. Superada a tribulação,
talvez fosse o caso de a filósofa entrar no Google e se debruçar
sobre os debates e relatórios da CPI e as investigações policiais.
Quando Sartre decidiu se tornar comunista, o filósofo francês Maurice
Merleau-Ponty objetou que não poderia apoiar a causa sem conhecer de forma
aprofundada a situação da União Soviética, para que
não terminasse por emular um ditador. Para ele, um intelectual não
podia aderir automaticamente a nada era essencial, antes, correr atrás
de informação. Merleau-Ponty é um dos heróis de Marilena.
Se o bom é seguir cega e comodamente alguma coisa, melhor seria a senhora
filósofa seguir Merleau-Ponty. Afinal, quando um sábio renuncia
ao engajamento numa causa tão importante quanto a moralidade pública,
resta pouco de sua condição de intelectual. Ou melhor, não
resta nada. |