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Polícia
Alô, alô, meu
amigo bandido!
Gravações telefônicas mostram
convivência inaceitável entre
ídolos do futebol e traficantes

Ronaldo França
"Um abração, irmão",
"... fica com Deus aí." Foi assim, em clima de troca de amabilidades,
que a polícia fluminense flagrou um instante do relacionamento
do goleiro Júlio César, reserva da seleção
brasileira e ex-titular do Flamengo, com o traficante Erismar Moreira,
o "Bem-Te-Vi", chefe dos bandidos que controlam o tráfico
na favela da Rocinha. Outras escutas revelaram que também
os jogadores Romário e Jorginho, este último uma estrela
da seleção de futebol de praia, mantinham algum tipo
de contato com o bandido. Na semana passada, soube-se que o ex-cunhado
de Romário, Marcelo Santoro, já havia levado o filho
do jogador, Romarinho, de 11 anos, para visitar o traficante. Os
envolvidos acham que não estavam fazendo nada de mais. No
entanto, algumas poucas ponderações mostram que não
é bem assim. Para quem não se recorda, a Rocinha é
aquela favela por onde passam 30% de toda a droga vendida na cidade
do Rio de Janeiro. Um negócio cujo faturamento chega a 40
milhões de reais por mês, segundo estimativas da polícia.
E Bem-Te-Vi é o atual comandante de um exército de
jovens armados até os dentes para os quais a maior glória
em sua carreira é ostentar a autoria de pelo menos um assassinato
e não apenas dos rivais com os quais disputam a primazia
na venda de drogas. Não era, portanto, uma amizade inocente.
Bem-Te-Vi é um bandido perigoso.
Divulgação/Polícia
Civil
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| Bem-Te-Vi: os contatos com os ídolos
da seleção brasileira rendem prestígio
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É comum ouvir que não há opção
para os moradores de uma cidade em que um quinto da população
vive em favelas dominadas por grupos de traficantes de drogas senão
a de manter algum contato amistoso com os bandidos. Uma falácia.
Ninguém é obrigado a freqüentar lugares em que
o encontro com os bandidos será inevitável, a não
ser os próprios moradores de favelas, por total falta de
alternativa. Eventos beneficentes podem ser realizados em qualquer
lugar, e de preferência sob os olhos da polícia. Se
os próprios ídolos das torcidas vão espontaneamente
ao encontro dos traficantes em seus bunkers, com que cara as centenas
de milhares de moradores de favelas vão dizer que prefeririam
se ver livres do jugo do tráfico, que lhes impõe um
cotidiano de terror e violência? No caso revelado agora, há
o detalhe adicional de que as investigações policiais
mostraram um relacionamento muito além do formal entre os
jogadores e o bandido. Ficou claro que não se tratava apenas
de uma atitude de quem não tem como evitar um relacionamento
indesejado. "Há no Brasil a cultura de que a simpatia e a
amizade estão fora das regras institucionais, como se pudéssemos
colocar esses valores acima da lei", afirma o antropólogo
Roberto DaMatta. A conseqüência desse comportamento é
legitimar a bandidagem como parte da sociedade legal. Só
os bandidos, claro, ganham com isso.
Tornar-se uma pessoa famosa em
uma sociedade como a brasileira tem valor incalculável. A
fama vem normalmente acompanhada de prestígio, convites para
as melhores festas da cidade e de dinheiro, muito dinheiro. Para
isso, não basta ser conhecido por um, ou por poucos. Quanto
maior o número de admiradores, melhores os contratos de publicidade
e mais recheada a conta-corrente. A fama tem, contudo, um efeito
colateral e uma conseqüência. O efeito colateral é
tornar o ídolo modelo de comportamento, inclusive para crianças
e jovens. A conseqüência é que os famosos têm
de se comportar de forma ainda mais criteriosa do que o comum dos
mortais. Costuma-se associar noções de austeridade
e postura ao exercício do poder. É um erro, como explica
o diretor da escola de direito da Fundação Getulio
Vargas Joaquim Falcão, integrante do Conselho Nacional de
Justiça. Diz ele: "O instrumento de poder do ídolo
é a influência, e isso é muito forte".
Não é de hoje que
se conhecem as incursões de celebridades cariocas no universo
da marginalidade. Um dos símbolos dessa promiscuidade foi,
por muito tempo, o Carnaval, que tinha nos bicheiros seus grandes
anfitriões. Agora, com o poder criminoso do bicho ofuscado
pelos traficantes, são estes os que vez por outra aparecem
flagrados em conversas telefônicas com artistas e jogadores.
Nos Estados Unidos, com seus 297 milhões de habitantes e
uma interminável lista de pessoas de fama planetária,
os desvios de conduta das celebridades costumam merecer um julgamento
mais severo. Desde os anos 50, convencionou-se punir com mais rigor
os famosos, no que lá se chama de "efeito demonstração".
Exemplo disso é que, há menos de um mês, a veterana
apresentadora de TV Martha Stewart, a rainha dos programas de receitas
culinárias, concluiu sua temporada de dez meses de prisão,
cinco dos quais atrás das grades de uma penitenciária
estadual. Foi presa por ter usado informações privilegiadas
para se beneficiar na bolsa de valores e por ter mentido
sobre isso. Nos anos 40, Billie Holiday, lendária cantora
de jazz, já havia passado pelo mesmo local, por porte de
drogas. E assim se construiu uma sociedade que tem obtido seguidas
vitórias no combate à criminalidade. É o caso,
em especial, da cidade de Nova York, onde os índices de homicídio
baixaram a níveis que não se alcançavam desde
o início dos anos 60. Será igualmente salutar para
o Brasil se a reação da polícia fluminense
às conversas entre Bem-Te-Vi e seus amigos famosos for o
primeiro passo de um novo caminho.
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