Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Polícia
Alô, alô, meu
amigo bandido!

Gravações telefônicas mostram
convivência inaceitável entre
ídolos do futebol e traficantes


Ronaldo França

"Um abração, irmão", "... fica com Deus aí." Foi assim, em clima de troca de amabilidades, que a polícia fluminense flagrou um instante do relacionamento do goleiro Júlio César, reserva da seleção brasileira e ex-titular do Flamengo, com o traficante Erismar Moreira, o "Bem-Te-Vi", chefe dos bandidos que controlam o tráfico na favela da Rocinha. Outras escutas revelaram que também os jogadores Romário e Jorginho, este último uma estrela da seleção de futebol de praia, mantinham algum tipo de contato com o bandido. Na semana passada, soube-se que o ex-cunhado de Romário, Marcelo Santoro, já havia levado o filho do jogador, Romarinho, de 11 anos, para visitar o traficante. Os envolvidos acham que não estavam fazendo nada de mais. No entanto, algumas poucas ponderações mostram que não é bem assim. Para quem não se recorda, a Rocinha é aquela favela por onde passam 30% de toda a droga vendida na cidade do Rio de Janeiro. Um negócio cujo faturamento chega a 40 milhões de reais por mês, segundo estimativas da polícia. E Bem-Te-Vi é o atual comandante de um exército de jovens armados até os dentes para os quais a maior glória em sua carreira é ostentar a autoria de pelo menos um assassinato – e não apenas dos rivais com os quais disputam a primazia na venda de drogas. Não era, portanto, uma amizade inocente. Bem-Te-Vi é um bandido perigoso.

Divulgação/Polícia Civil
Bem-Te-Vi: os contatos com os ídolos da seleção brasileira rendem prestígio


É comum ouvir que não há opção para os moradores de uma cidade em que um quinto da população vive em favelas dominadas por grupos de traficantes de drogas senão a de manter algum contato amistoso com os bandidos. Uma falácia. Ninguém é obrigado a freqüentar lugares em que o encontro com os bandidos será inevitável, a não ser os próprios moradores de favelas, por total falta de alternativa. Eventos beneficentes podem ser realizados em qualquer lugar, e de preferência sob os olhos da polícia. Se os próprios ídolos das torcidas vão espontaneamente ao encontro dos traficantes em seus bunkers, com que cara as centenas de milhares de moradores de favelas vão dizer que prefeririam se ver livres do jugo do tráfico, que lhes impõe um cotidiano de terror e violência? No caso revelado agora, há o detalhe adicional de que as investigações policiais mostraram um relacionamento muito além do formal entre os jogadores e o bandido. Ficou claro que não se tratava apenas de uma atitude de quem não tem como evitar um relacionamento indesejado. "Há no Brasil a cultura de que a simpatia e a amizade estão fora das regras institucionais, como se pudéssemos colocar esses valores acima da lei", afirma o antropólogo Roberto DaMatta. A conseqüência desse comportamento é legitimar a bandidagem como parte da sociedade legal. Só os bandidos, claro, ganham com isso.

Tornar-se uma pessoa famosa em uma sociedade como a brasileira tem valor incalculável. A fama vem normalmente acompanhada de prestígio, convites para as melhores festas da cidade e de dinheiro, muito dinheiro. Para isso, não basta ser conhecido por um, ou por poucos. Quanto maior o número de admiradores, melhores os contratos de publicidade e mais recheada a conta-corrente. A fama tem, contudo, um efeito colateral e uma conseqüência. O efeito colateral é tornar o ídolo modelo de comportamento, inclusive para crianças e jovens. A conseqüência é que os famosos têm de se comportar de forma ainda mais criteriosa do que o comum dos mortais. Costuma-se associar noções de austeridade e postura ao exercício do poder. É um erro, como explica o diretor da escola de direito da Fundação Getulio Vargas Joaquim Falcão, integrante do Conselho Nacional de Justiça. Diz ele: "O instrumento de poder do ídolo é a influência, e isso é muito forte".

Não é de hoje que se conhecem as incursões de celebridades cariocas no universo da marginalidade. Um dos símbolos dessa promiscuidade foi, por muito tempo, o Carnaval, que tinha nos bicheiros seus grandes anfitriões. Agora, com o poder criminoso do bicho ofuscado pelos traficantes, são estes os que vez por outra aparecem flagrados em conversas telefônicas com artistas e jogadores. Nos Estados Unidos, com seus 297 milhões de habitantes e uma interminável lista de pessoas de fama planetária, os desvios de conduta das celebridades costumam merecer um julgamento mais severo. Desde os anos 50, convencionou-se punir com mais rigor os famosos, no que lá se chama de "efeito demonstração". Exemplo disso é que, há menos de um mês, a veterana apresentadora de TV Martha Stewart, a rainha dos programas de receitas culinárias, concluiu sua temporada de dez meses de prisão, cinco dos quais atrás das grades de uma penitenciária estadual. Foi presa por ter usado informações privilegiadas para se beneficiar na bolsa de valores – e por ter mentido sobre isso. Nos anos 40, Billie Holiday, lendária cantora de jazz, já havia passado pelo mesmo local, por porte de drogas. E assim se construiu uma sociedade que tem obtido seguidas vitórias no combate à criminalidade. É o caso, em especial, da cidade de Nova York, onde os índices de homicídio baixaram a níveis que não se alcançavam desde o início dos anos 60. Será igualmente salutar para o Brasil se a reação da polícia fluminense às conversas entre Bem-Te-Vi e seus amigos famosos for o primeiro passo de um novo caminho.

 
 
 
 
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