Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Estados Unidos
O aiatolá deles

Televangelista dos EUA pede à CIA
que mate Chávez, um apelo ao crime
que só ajuda o falastrão da Venezuela


Fotos Gene J. Puska/AP, Jorge Rey/AFP
Chávez comenta, ao lado do ditador cubano Fidel Castro, as ameaças de Pat Robertson (à esq.): "É o imperialismo americano"

Terrorismo a favor não é terrorismo? No início da semana passada, Pat Robertson, um dos mais conhecidos televangelistas dos Estados Unidos, deu sua contribuição ao debate: sugeriu ao governo americano recorrer ao assassinato como solução sumária para seus problemas com Hugo Chávez, o presidente falastrão da Venezuela. A declaração foi feita durante seu programa de TV matinal (audiência média de 1 milhão de pessoas). Com a firmeza de um fanático, o pastor explicou o assassinato como medida preventiva para evitar que os americanos precisassem gastar "200 bilhões de dólares em outra guerra para se livrar de um ditador". Para ter idéia das proporções políticas do pronunciamento, imagine se um aiatolá de Teerã fosse à televisão e clamasse pelo assassinato do presidente Bush. A diferença entre os dois lados na guerra ao terror é exatamente essa – há clareza na identificação do lado terrorista, que é aquele que explode bombas nos trens de Londres e ataca edifícios em Nova York.

Apesar de tudo, a reação da Casa Branca foi tépida. O Departamento de Estado praticamente desconversou. Qualificou a fala de Robertson de "inapropriada" e esclareceu que o assassinato de Hugo Chávez não faz parte da política oficial dos Estados Unidos. É certo que não, visto que há mais de trinta anos uma lei proíbe o governo americano de cometer assassinatos políticos no exterior. Devido a declarações desse tipo, mas com o sinal contrário, a Inglaterra e a França estão expulsando mulás raivosos de seus territórios. Robertson dificilmente perderá o acesso aos figurões do governo Bush. Como um dos principais representantes da extrema direita cristã, ele foi indispensável na reeleição do presidente e terá peso na convenção republicana de 2006. "Os grupos evangélicos de extrema direita são uma parte importante do eleitorado do atual governo, e por isso Bush não condenou publicamente as declarações de Robertson", disse a VEJA Clyde Wilcox, cientista político da Universidade de Georgetown, em Washington.

Dono de um império empresarial que inclui uma rede de TV e uma universidade e de uma receita para emagrecer que vende bem, Robertson é pródigo em declarações descabidas. Depois dos atentados de 11 de setembro, disse ver a tragédia como uma vingança divina pelo excesso de materialismo e liberdade sexual da sociedade americana. Mais recentemente, advertiu que "terremotos, tornados e, possivelmente, meteoros iriam atingir a Disney World por ter promovido um 'dia gay' ". O mais feliz com tudo isso é Chávez, que sempre incluiu em seu discurso antiamericano a acusação de que Bush conspira para matá-lo e invadir a Venezuela. Robertson deu mais um argumento para essa mirabolante teoria conspiratória e dificultou o esforço do governo americano de baixar o tom na guerra de palavras com o presidente venezuelano.

 
 
 
 
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