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Inglaterra
Um crime na consciência
A execução do brasileiro confundido
com terrorista em Londres leva os
ingleses a refletir sobre a concessão
à polícia do direito de matar

Antônio Ribeiro, de Paris
A sociedade inglesa enfrentou
o terrorismo com resignação, resistência e o
sentimento de que não deveria permitir que os ataques atrapalhassem
o seu dia-a-dia. A reação diante da morte de Jean
Charles de Menezes é de outra ordem. Respirou aliviada um
primeiro momento, quando foi levada a pensar que a polícia
tinha conseguido eliminar um terrorista prestes a detonar sua bomba
numa das principais estações de metrô de Londres.
A intensidade do choque causado pelo reconhecimento posterior de
que a Scotland Yard tentou encobrir a morte de um inocente suplanta,
de certa forma, a indignação provocada pelos atentados
de 7 de julho. À medida que se tomou conhecimento das falsificações
de dados, das meias verdades e do desaparecimento das fitas de segurança,
a opinião pública começou a perceber que esse
tipo de atitude por parte da polícia é mais prejudicial
ao seu estilo de vida que o terrorismo propriamente dito. Os ingleses
concebem a existência do terror como fenômeno nefasto
a ser extirpado, mas não estão dispostos a conviver
com uma polícia que desperta desconfiança.
A Scotland Yard é uma
corporação lendária pela eficácia decorrente
da inteligência e do uso de força moderada. Seus policiais
tradicionalmente atuam desarmados. O que há de diferente
no momento é o aumento na quantidade de policiais armados
nas ruas londrinas e a autorização que muitos deles
recebem para atirar na cabeça de alguém suspeito de
estar na iminência de cometer ação terrorista
e, em certas situações, disparar sem aviso. Essa estratégia,
conhecida como Operação Kratos, é uma resposta
forte ao terrorismo suicida, até há pouco inédito
na Europa. Diante da urgência, e até que coisa melhor
seja encontrada, trata-se de uma medida excepcional para tempos
sombrios, segundo seus defensores. Representa um solavanco na órbita
de uma democracia que enfrentou o terrorismo do IRA durante 36 anos
sem abandonar os valores que sempre foram o candeeiro da resistência
britânica, a consciência de que é necessário
fiscalizar de perto o poder do Estado.
Stephen Hird/Reuters
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Sergio Dionisio/AP
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QUEBRA-CABEÇA
Nick Hardwick, da comissão independente que investiga
o caso, e o cartaz no metrô pedindo ajuda às testemunhas
da morte do brasileiro |
Nesse aspecto, a morte de Menezes
foi uma lição trágica que levou a sociedade
inglesa a refletir sobre as armas de que dispõe na luta contra
o terrorismo e o custo de usá-las. Está ficando
óbvio para a maioria que entregar poderes excepcionais à
polícia abre a possibilidade de ocorrerem aberrações
irremediáveis. A primeira versão posta a circular
pela Scotland Yard foi a de que Menezes deu motivos para a polícia
abrir fogo. Mais tarde se descobriu tratar-se de lorota vergonhosa.
Num processo similar ao que atinge o governo do PT, a situação
da Scotland Yard fica pior a cada nova revelação.
"A tentativa da Scotland Yard de encobrir os erros no caso Jean
abalou mais sua credibilidade do que as falhas propriamente ditas",
disse a VEJA o especialista inglês Charles Shoebridge, ex-policial
da força antiterrorismo da Scotland Yard.
Odd Andersen/AFP
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OBSERVADORES
Enviados do governo brasileiro a Londres: visitas protocolares
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O delicado caso Jean Charles de
Menezes será um teste capital para a Comissão Independente
de Queixas contra a Polícia (IPCC, na sigla em inglês),
responsável pelo inquérito. O organismo foi criado
no ano passado pelo governo do primeiro-ministro Tony Blair depois
que a Suprema Corte britânica concluiu ser injusta a tradição
da polícia de investigar a si própria. Os oitenta
agentes da IPCC, entre os quais muitos são descendentes de
imigrantes, não podem ter parentes entre os membros da força
policial. O efetivo multicultural foi concebido para evitar a inibição
e a desconfiança das comunidades minoritárias, que,
de acordo com as estatísticas, são as maiores vítimas
de abusos policiais. O presidente da IPCC não é juiz,
advogado ou servidor público, mas Nick Hardwick, até
então diretor executivo do Conselho para Refugiados, ONG
de defesa dos direitos humanos de minorias.
Matt Dunham/AP
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IMAGEM ARRANHADA
Policiais em patrulha diante da Scotland Yard: caso
de Jean abala a confiança inglesa na polícia |
Noventa minutos depois da execução
em Stockwell, o comissário-chefe da Scotland Yard, sir Ian
Blair (nenhum parentesco com o primeiro-ministro), pediu ao Ministério
do Interior que impedisse a IPCC de investigar o caso, para não
atrapalhar na luta antiterrorista. A proposta foi rejeitada, mas
a comissão independente só conseguiu chegar perto
dos primeiros indícios quase uma semana depois da morte.
Na queda-de-braço entre a polícia e a IPCC, valem
até golpes por baixo da mesa. A polícia informou aos
investigadores que algumas câmeras do circuito fechado da
estação de metrô Stockwell não registram
os últimos momentos de Menezes. A empresa responsável
pela manutenção das câmeras não detectou
nenhuma anomalia no funcionamento do sistema no dia da morte de
Menezes. Os documentos e relatos que revelaram a mentira da polícia
sobre o caso, vazados à imprensa, saíram dos computadores
da IPCC.
Stephen Hird/Reuters
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PROTESTO
No cartaz, em inglês, a acusação
de que a morte de Jean foi crime a sangue-frio |
O governo brasileiro enviou uma
missão diplomática para acompanhar as investigações.
Os emissários do Brasil descobriram que a polícia
inglesa, enquanto mentia para o público, contou toda a verdade
à família da vítima. "Os policiais pediram
aos parentes de Jean que não divulgassem essa informação
para não atrapalhar o combate interno ao terrorismo", diz
Márcio Garcia, do Ministério da Justiça, um
dos três enviados brasileiros. A comissão independente
manifestou a intenção de concluir o inquérito
até o fim do ano. Ele pode desaguar em processos criminais
contra membros da Yard. Quando isso ocorreu no passado, policiais
abandonaram o serviço em solidariedade aos colegas condenados.
Na atual luta contra o terror, esse efeito seria desastroso para
a corporação, cujo efetivo, considerado insuficiente
para o desafio da missão, tem trabalhado sob alta tensão
num ritmo infernal. Seria pior, contudo, abafar o caso e deixar
que a ação da polícia escape do controle da
sociedade, como ocorre nas repúblicas bananeiras.
Sergio Dionisio/AP
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HOMENAGEM NO
METRÔ
Flores e mensagens na frente da estação
onde Jean Charles foi executado |
A notoriedade que a morte de Jean Charles ganhou na Inglaterra tem
sido usada também para proveito político. Asad Rehman,
assessor do parlamentar George Galloway acusado pelo Senado
americano de trabalhar pela ditadura de Saddam Hussein , proclamou-se
"porta-voz" da família Menezes em Londres. Galloway tem capitaneado
as entrevistas coletivas dos primos de Jean. As acusações
contra a polícia agora se misturam com críticas à
presença das tropas britânicas no Iraque. "Infelizmente
a família é ingênua. Os parentes estariam melhor
nas mãos do embaixador brasileiro", disse o deputado conservador
Brian Coleman. Essa onda foi prevista muito antes de acontecer pela
advogada da família, Gareth Peirce, famosa pela defesa que
inocentou o grupo de irlandeses condenados injustamente como terroristas
do IRA, conhecidos como Guildford Four. A descoberta do erro perpetrado
pela polícia é um marco na história do sistema
judicial inglês. Gareth Peirce considera as atuais investigações
comprometidas. Ela clama por um processo público com ainda
mais visibilidade. Não será surpresa se ela evocar
sua frase célebre: "Diga terrorismo e isso justifica tudo".
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