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Especial
China
O vôo do dragão,
da miséria à riqueza
Há 25 anos, as cidades chinesas eram
pobres e sujas. O povo malvestido
passava fome. Ninguém tinha telefone,
carro nem tevê. A China hoje está
virando potência. É o milagre do dragão

Tales Alvarenga
Visitar a China hoje equivale
a presenciar uma das grandes transformações históricas
já ocorridas no mundo. Imagine ter estado na França
nos primeiros anos do século XIX assistindo às conquistas
de Napoleão Bonaparte que mudaram a geografia da Europa,
ou então ter presenciado em Roma, no século V, a ação
dos bárbaros que pressionavam os portões da maior
civilização do mundo clássico. Com os chineses,
o fenômeno é de crescimento econômico ultra-rápido,
com uma dinâmica jamais presenciada nessa dimensão.
Explosões de crescimento já se deram ali mesmo na
Ásia, mas nada que se compare às mudanças que
estão ocorrendo num país com as dimensões e
a população da República Popular da China.
Ali, 1,3 bilhão de pessoas ou um quinto da humanidade está
sendo puxado pelos cabelos para fora da zona de miséria.
O processo ecoa no resto do mundo, porque o dragão chinês
promete ser a maior economia do planeta dentro de algumas décadas.
Partindo de um patamar de miséria
há apenas 25 anos, eles conseguiram crescer à média
de 9,9% nos anos 80, 10,3% nos anos 90 e, agora, perto de 9% a partir
de 2000. A China sempre foi um país com uma aristocracia
refinada, cercada por uma multidão paupérrima. Hoje,
os chineses das metrópoles compram em feiras fartas, freqüentam
supermercados de padrão ocidental e podem desfilar diante
das vitrines de alguns dos maiores e mais ricos shopping centers
do mundo. A China é doze vezes mais rica hoje do que 25 anos
atrás. Sua economia equivale à soma das existentes
no Brasil, no México e na Rússia. Xangai, a maior
cidade do país, concentra 20% da construção
civil do mundo. Por tudo isso, a entrada da força de trabalho
chinesa no capitalismo global será uma bomba com potência
para produzir efeitos durante cinqüenta anos. Estima-se que
haverá meio bilhão de adultos para ser despejados
na produção global a um custo muito baixo.
O panorama de uma grande cidade
chinesa é desconcertante. Feiras de quinquilharias se estendem
ao lado de shoppings com as mais admiradas grifes internacionais.
Carros como Mercedes-Benz, BMW e Audi, todos fabricados lá
mesmo, disputam o espaço nas ruas com bicicletas, Vespas
e os últimos riquixás que serão vistos no mundo.
A uma centena de metros de cortiços, elevam-se alguns dos
mais altos edifícios do mundo, com arrojada arquitetura pós-moderna.
Alguns restaurantes servem cobras
fritas, tiradas vivas de um serpentário à vista do
cliente. Nas feiras populares, roedores são exibidos junto
de sapinhos. São "requintes" da culinária local. Metros
adiante, o visitante verá cafés Starbucks, lojas do
McDonald's, Pizza Hut e casas da rede americana de frango frito
KFC. Os aeroportos estão todos cheios de chineses tomando
Jumbos para viagens internas. Ao mesmo tempo, lojas de Hong Kong
apresentam na vitrine os órgãos sexuais de veados,
secos e delicadamente embalados em celofane. Não entendi
como se usam pênis e testículos secos de veados, se
raspados na comida ou em forma de chá. Mas é fácil
perceber que são afrodisíacos muito apreciados.
A China é uma velha senhora,
uma das mais antigas civilizações do mundo. Os primeiros
objetos de cerâmica fabricados na região têm
5 000 anos. A linhagem inaugural de imperadores, da dinastia Zhou,
antecede em 1 000 anos a fundação do cristianismo.
A Cidade Proibida, o antigo palácio dos imperadores em Pequim,
foi construída um século antes das viagens de Cristóvão
Colombo e Pedro Álvares Cabral. Depois de um longo sono,
que começou no fim da Idade Média, a China vem despertando
desde os anos 80.
Sou um veterano do Oriente. Estive
três vezes no Japão, visitei a Índia, o Nepal,
Cingapura, Taiwan. Nenhum desses países me impressionou tanto
quanto a China, onde estive três vezes. Em 1991, conheci Hong
Kong. Dez anos atrás, fui perambular durante um mês
pelas metrópoles da franja do Pacífico, que concentram
mais de 70% dos chineses. Ali estão instaladas centenas de
Zonas Econômicas Especiais, onde se multiplicam multinacionais
japonesas, européias e americanas, algumas das quais visitei.
Estive agora mais um mês na China e vi outro país,
que não existia em 1995. Só sentirá o alcance
real da máquina de crescimento chinesa quem puder comparar
o panorama de hoje com o de épocas passadas.
AP
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DA FILA DE TANQUES
À FILA DE JUMBOS
O estudante se coloca à frente do tanque e bloqueia
o seu avanço na Praça da Paz Celestial, durante
os tumultos de junho de 1989. Abaixo, os jatos da China Airlines,
que transportam milhões de chineses em viagens internas
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Divulgação
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A riqueza da China não
é dessas de que a pessoa só toma conhecimento lendo
estudos de economistas. Na China, a riqueza é um fenômeno
físico, visível a olho nu, desde que o observador
saiba o que estava ali antes. A China iniciou sua modernização
em 1980, depois de trinta anos de aplicação de um
estilo extremado de comunismo, que tinha chavões marxistas-leninistas
de um lado e racionamento de gêneros alimentícios do
outro. O trabalho físico era realizado com instrumentos medievais.
As árvores eram consideradas simples combustível e
os jardins, nada mais do que caprichos burgueses. O comunismo produziu
um desastre econômico e ecológico na China. Hoje, Pequim
é um jardim, com árvores novas espalhadas por todas
as avenidas. As vias elevadas abrem-se em forma de pétalas.
A cidade tem dez hotéis cinco-estrelas, do melhor gabarito
internacional, equipados com restaurantes luxuosos e culinária
impecável do Ocidente. Está construindo mais doze
cinco-estrelas para as Olimpíadas de 2008. As calçadas
são amplas como as dos Champs-Élysées, em Paris.
E tão limpas como as de Tóquio. Nas periferias enfileiram-se
conjuntos de prédios de quarenta, cinqüenta andares
com apartamentos pequenos para a massa trabalhadora. Na rua, as
pessoas se vestem com roupas mais simples do que na Europa, mas
já são trajes modernos e, grande novidade, coloridos.
Veja agora a Pequim de 1980,
com base na descrição do jornalista italiano Fernando
Mezzetti, que estava por lá como correspondente de imprensa
e escreveu um livro, De Mao a Deng, sobre sua experiência.
A capital era uma aldeia de gente camponesa. Todos escarravam no
chão. Não se viam saias nem vestidos, todos usavam
túnicas Mao, cinzentas. O único prédio alto
da cidade era o hotel estatal Pequim, de dezessete andares. Havia
feios edifícios baixos para as repartições
públicas. O resto, quase a totalidade da capital, era composto
de hutongs, vielas com casas escuras de um andar, quartos sem janelas
e enormes privadas coletivas que não eram servidas por esgoto.
Uma ou duas vezes por semana, passava um caminhão da prefeitura
para recolher as fezes, que iam virar adubo nas fazendas coletivas.
Visitei uma dessas instalações sanitárias em
1991, na área de Hong Kong. Constava de uma bacia de cerâmica
com a circunferência de uma banheira de hidromassagem. Umas
100 ou 200 pessoas tinham passado por lá antes do recolhimento
dos excrementos.
Nos lugares públicos não
havia espelhos porque era considerado burguês cuidar da aparência.
Os salões de cabeleireiro tinham sido fechados. Existiam
cupons de racionamento e apenas 64 chuveiros públicos para
8 milhões de pessoas em Pequim. Ninguém tinha TV,
rádio, telefone nem carro, a não ser funcionários
do alto escalão do Partido Comunista Chinês. Abriu-se
naquele ano o primeiro restaurante privado de Pequim. Um tonel cheio
de brasas funcionava como fogão. Havia somente quatro mesas
de cinco lugares para os clientes. O local tornou-se a sensação
da capital e logo era preciso fazer reserva com antecedência
de semanas. Naquela época, cada lojinha pertencia ao Estado.
Hoje, Pequim tem restaurantes aos milhares, salões de beleza,
boates, casas de jazz, teatros com concertos de rock, lojas de aparelhos
eletrônicos.
Vamos ao maior shopping center
de Pequim. Chama-se China World Shopping Mall. Tem lojas da Cartier,
Prada, Zegna, Gucci, Hugo Boss, Fendi, Baccarat, Dior, Cerruti,
Celine, Dunhill, Ferragamo, Montblanc, Lagerfeld, Paul&Shark,
Armani, Givenchy, Moschino, Kenzo e mais cinqüenta marcas de
roupas e outras 200 lojas de jóias, artigos de couro, itens
de beleza, livrarias e restaurantes. Nos três andares inferiores
ao térreo dos grandes hotéis, há sempre uma
Daslu com todas aquelas marcas famosas (e preços internacionais).
Em Hong Kong, os shoppings enfileiram-se em tal quantidade no centro
da ilha que é possível passar de um a outro por vias
aéreas para pedestres, gastando-se horas e horas na visita,
sem pisar na rua.
AFP
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Zou Qing/AFP
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DO
FANATISMO MAOÍSTA À SALA DA BOLSA
Na foto à esquerda, estudantes de túnica
Mao: usar roupa colorida, maquiar-se e ir ao cabeleireiro eram
"excrescências burguesas". Na foto à
direita, as novas instalações da Bolsa de Valores
de Xangai |
"Lolex, Lolex." Os vendedores
de relógios falsificados estão por toda parte. O Rolex
é a marca que anunciam para chamar a atenção
dos estrangeiros, mas eles têm exemplares de todas as etiquetas
famosas. À porta dos hotéis, vendem Rolex a 5 dólares.
É uma falsificação grosseira, da mesma maneira
que as bolsas "Luiton", ou Louis Vuitton. Mas há lojas muito
bem instaladas com falsificações de primeira linha.
Têm catálogos de relógios conhecidos a 50 dólares
americanos o exemplar. Uma mala de viagem falsa Louis Vuitton, de
acabamento impecável, custa 100 dólares. Uma bolsa
da marca Gucci sai por 50 dólares e, à primeira vista,
é tão bonita quanto a verdadeira, vendida nos shoppings
chiques por 1 800 dólares.
Combina-se na China uma fórmula
de abertura econômica com autoritarismo político. Hoje
em dia, o regime só é comunista e igualitário
na retórica, estimulando a instalação de um
capitalismo extremado em certas áreas, com atenção
especial para a atração de investimentos estrangeiros.
As autoridades chamam esse modelo de "socialismo com características
chinesas". Decidiu-se criar uma nova zona econômica especial
num bairro cheio de casebres? Nenhum problema. Manda-se o aviso
de despejo a todos os moradores do bairro e passam-se os tratores
para limpar o terreno. Nas zonas especiais florescem indústrias
de automóveis (o país abriga a terceira maior do mundo),
fábricas de produtos eletrônicos (a China, com 350
milhões de assinantes, tem a maior quantidade de celulares
no planeta), produtores de peças para o setor aeroespacial,
computadores, têxteis, calçados. A China chegará,
dentro de três anos, a ter 1,8 milhão de jovens financistas
e contadores, com menos de sete anos de formados, empatando com
os Estados Unidos, segundo cálculo do McKinsey Global Institute,
publicado na semana passada pela revista americana BusinessWeek.
Há 1,8 milhão de jovens engenheiros no país,
contra apenas 600 000 nos EUA, e ambas as nações caminham
para ostentar a mesma quantidade de cientistas da área biológica
e afins daqui a três anos. Investe-se com volúpia na
remessa de jovens talentos para doutorados no exterior. Além
das redes públicas de ensino, foram abertas 1 300 universidades
privadas a partir dos anos 90.
O homem que está por trás
dessa revolucionária mudança no status econômico
da China não é normalmente colocado no panteão
dos grandes estadistas do século XX, onde deveria estar.
Seu nome não é Mao Tsé-tung. Deng Xiaoping
é o herói da modernização chinesa. Com
pouco mais de 1,50 metro de altura, fumante até perto da
morte, aos 92 anos de idade, em 1997, sem nenhum apreço visível
por ideologias, mesmo repetindo os mantras socialistas, Deng nunca
achou que um regime de liberdade política pudesse manter
nos trilhos uma população de mais de 1 bilhão
de habitantes. O pânico da anarquia social sempre acompanhou
os dirigentes chineses, e Deng não foi exceção.
No caso do antecessor Mao Tsé-tung, a repressão se
destinava a impor a coletivização no campo e nas cidades,
prender os que ousassem discordar do marxismo-leninismo e punir
os intelectuais com trabalho braçal só porque eles
eram um resquício da burguesia que o comunismo queria extirpar.
Deng, ao contrário, pensava em usar o poder como uma barragem
contra a sublevação social e a favor da modernização
da economia.
Mao
é venerado como o fundador da República Popular da
China, um símbolo da coesão de uma nação
com várias etnias e centenas de dialetos. Mas as lideranças
chinesas já admitem há décadas que Mao também
produziu desastres econômicos. Em certa época, ordenou
que os chineses trocassem toda a sua agricultura de hortaliças,
chá e frutas pelo plantio exclusivo de cereais. Mandou também
que abandonassem outros afazeres em salas de aula, escritórios
e fábricas para produzir aço em miniusinas de fundo
de quintal. O objetivo desses projetos era "alcançar a Inglaterra
em quinze anos". Mao também despachou os intelectuais, técnicos,
cientistas e professores para um período forçado de
reeducação nas fazendas coletivas, enquanto todas
as escolas do país ficaram fechadas por uma década.
Morreram de fome algo como 50, 60 milhões de pessoas nessas
aventuras ideológicas do Grande Timoneiro. Hoje, com uma
reserva de 700 bilhões de dólares, é a China
que financia o gigantesco déficit público americano,
comprando títulos dos Estados Unidos.
Mao Tsé-tung morreu em
setembro de 1976 e Deng Xiaoping foi devagar limpando o terreno
para a aplicação daquilo que era sua idéia
de "revolução". A partir de 1980, anunciou reformas
das instituições econômicas e políticas
da China que levaram o país ao crescimento acelerado. Para
as multinacionais que queiram instalar-se na China, o governo reduz
os impostos, dá isenções, permite remessa total
de lucros para o exterior. A carga tributária é baixa,
os juros estão ali por 5% ao ano e a inflação
em torno de 1%. As leis trabalhistas, nas zonas especiais, favorecem
o empregador.
Apesar de todas as mudanças,
a China continua com seu regime autoritário. Deng é
o herói da modernização chinesa, mas nunca
foi um vovô bonachão. Isso ele demonstrou ao mandar
200 000 homens do Exército encerrar a bala as manifestações
populares por democracia que eclodiram em junho de 1989 em Pequim.
Esse acontecimento, o massacre da Praça da Paz Celestial,
não foi captado em todas as suas dimensões pelo Ocidente.
É um divisor de águas na China por reforçar
a idéia da modernização econômica dentro
de um regime ditatorial.
Mikhail Gorbachev esteve em Pequim
nesse período. Primeiro líder soviético a visitar
a China em trinta anos, abrindo a chance de os dois países
normalizarem suas relações diplomáticas, Gorbachev
teve barrado seu deslocamento do aeroporto até a Praça
da Paz Celestial, onde receberia homenagens. Pequim estava paralisada
de lado a lado por 1 milhão de manifestantes, numa cidade
de 12 milhões de habitantes. Gorbachev entrou na Assembléia
do Povo por uma entrada de serviço lateral e não pôde
visitar a Cidade Proibida, no outro lado da praça. A população
levantou barricadas com ônibus incendiados, pneus e blocos
de cimento, para dificultar o avanço das tropas. À
meia-noite do dia 4 de junho, o Exército Vermelho atacou.
Não se sabe quantas pessoas morreram. Centenas, talvez milhares.
Deng reapareceu depois do massacre para dizer candidamente que,
se houve algo errado, foi não se ter levado mais longe e
mais rápido a política de abertura econômica.
Na China, as coisas são assim. Deng nunca ocupou formalmente
o posto de líder máximo. A partir de certa idade,
renunciou aos cargos de terceiro escalão que tinha e foi
para os bastidores. Continuou mandando. Suas duas frases mais citadas
tratam de ideologia (contra) e de riqueza (a favor). Elas dão
uma boa idéia do que era sua mente. Sobre ideologia: "Não
importa se o gato é preto ou é branco, desde que cace
ratos". Sobre a riqueza: "Ser rico é glorioso".
Há quem considere o crescimento
chinês uma bolha que pode estourar. Se a China produzir um
retrocesso na cuidadosa abertura política que está
em marcha, o país perde a chance de continuar se modernizando.
Se deixa a modernização prosseguir no ritmo atual,
corre o risco de perder o controle político da situação.
Há ainda as diferenças entre o padrão de vida
das metrópoles e o do campo, que teria remetido uma massa
de 200 milhões de desempregados para as cidades. Os bancos
oficiais têm um rombo superior a meio bilhão de dólares.
Tudo isso é verdade. Mas, quando fui à China em 1995,
diziam-se as mesmas coisas. As profecias pessimistas não
se concretizaram. As otimistas foram inteiramente superadas pelo
dragão. Ele foi muito mais longe do que se esperava.
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OS TÉCNICOS É
QUE MANDAM
Gene del Bianco/Reuters
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IDEOLOGIA
E MODERNIZAÇÃO
O líder Mao, herói da revolução,
cometeu erros desastrosos na economia. Deng Xiaoping
(foto) foi o estadista da modernização
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As sucessões na liderança da China antes
de Deng Xiaoping eram momentos de grande tensão.
O líder que caía em desgraça e
era demitido costumava ser exposto à opinião
pública como um inimigo do povo. Hoje, isso acabou.
Deng queria que as regras que balizam o governo permanecessem
as mesmas quando as lideranças políticas
fossem trocadas. Conseguiu implantar essa mudança.
Os dirigentes máximos da China, os nove integrantes
do Comitê Permanente do Politburo, começaram
a ser escolhidos e treinados em 1980, conforme relata
o livro China's New Rulers, de Andrew Nathan
e Bruce Gilley. Deng pediu ao partido que selecionasse
nas províncias "jovens" de até 49 anos,
que fossem formados em universidade, trabalhassem em
ramos técnicos, como engenharia ou direito, já
tivessem demonstrado capacidade gerencial em órgãos
estatais e fossem leais ao partido.
Esses jovens foram
subindo pelas hierarquias regionais até chegar
à cúpula do governo chinês, por
meio de um processo racional de seleção.
Usam gravata, não cospem em escarradeiras como
seus antecessores, conhecem outros países onde
muitos deles estudaram (Mao só saiu da China
para ir uma vez a Moscou), têm diploma universitário,
lidam bem com estatísticas e estratégias
gerenciais. A idéia era fazer promoções
meritocráticas e não ideológicas.
Hu Jintao, o líder máximo da China atualmente,
era um engenheiro de hidrelétricas numa província
pobre, um completo desconhecido na hierarquia do partido.
Foi um dos alcançados pela convocação
de Deng. O mandato dos líderes dura cinco anos
e é renovável por mais cinco. Ao fim,
voltam para casa. Já se conhecem os nomes dos
que assumirão o poder em 2012. E é possível
fazer especulações bastante seguras sobre
a quem caberá ocupar a liderança em 2022.
Um país capaz dessa previsibilidade merece o
sucesso econômico que está tendo.
Esses nove chineses
do Politburo são porta-vozes das posições
de Deng Xiaoping sobre modernização. Para
os novos líderes, a luta de classes foi substituída
pela luta em prol da produção e da produtividade.
Eles fazem uma clara distinção entre partido
e Estado. Estão empenhados em reduzir cada vez
mais a estatização. Foram formados num
ambiente em que as regiões e as empresas ganham
autonomia crescente. Trocaram a crença em slogans
ideológicos por incentivos materiais. Foi todo
esse ideário, aplicado por Deng a partir do início
dos anos 80, que liquidou a era Mao Tsé-tung.
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