Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Tecnologia
Gates abre uma nova janela

Já está sendo testado o Windows Vista,
o novo sistema operacional da Microsoft.
A empresa promete que ele será mais
confiável e seguro

 

Roslan Rahmann/AFP
ÍCONE CULTURAL
Bill Gates, dono da Microsoft: cultuado e odiado ao mesmo tempo

O mundo da computação está alvoroçado. Depois de quatro anos de especulações e espera, a Microsoft finalmente pôs para circular a primeira versão de teste de seu novo sistema operacional, o Windows Vista. "É o que chamamos de versão beta. Ela está incompleta e sujeita a modificações, mas serve para que o ecossistema tecnológico comece a se adaptar", diz Rodrigo Paiva, gerente de produtos da Microsoft no Brasil. Em outras palavras, é a partir dela que os criadores dos mais diversos programas e badulaques eletrônicos (como câmeras digitais, impressoras ou placas de vídeo) verificam a compatibilidade de seus produtos com o novo sistema operacional – enquanto a Microsoft avalia a necessidade de correções. Nos próximos meses, outras versões deverão ser submetidas a especialistas, até o lançamento definitivo do Vista, no segundo semestre de 2006. Nessa altura, milhões de pessoas sentirão o impacto da novidade. Mais de 90% dos computadores de todo o mundo operam com o sistema da Microsoft. Como Coca-Cola ou McDonald's, o Windows deixou de ser somente uma marca: é um ícone que desperta admiração e ódio, sinônimo de capitalismo e de globalização (o mesmo se pode dizer do dono da Microsoft, Bill Gates, que é admirado por alguns e considerado o anticristo por outros).

Um novo sistema operacional significa uma mudança radical no computador, do visual às funções mais essenciais. A Microsoft criou, por exemplo, um novo design para as telas do Windows Vista. Ela o batizou de Aero, por fazer uso de transparências. Os computadores mais potentes terão disponível uma opção ainda mais incrementada, o Aero Glass, com ícones animados e efeitos visuais. Outra inovação importante está na forma de apresentação e classificação dos arquivos: será mais fácil localizá-los no computador e reconhecer o seu conteúdo. Na internet, as mudanças ficam por conta do navegador Explorer 7. Ele terá, por exemplo, uma função especial que avisa o usuário quando uma página na rede freqüentemente visitada sofreu alguma atualização. As grandes promessas do Windows Vista, porém, são estruturais: o sistema pretende garantir maior segurança contra os vírus e programas invasores que hoje infestam a internet, além de reduzir as ocasiões em que o computador trava e precisa ser reiniciado.

Uma das conseqüências da hegemonia da Microsoft no mercado de sistemas operacionais está no fato de ela atrair a atenção de todos os tipos de criminosos e arruaceiros virtuais. De acordo com dados da Trend Micro, empresa japonesa fabricante de antivírus, 95% de todos os ataques a computadores têm como alvo usuários dos sistemas operacionais Windows. Periodicamente, quando descobre uma brecha em seus programas, a Microsoft oferece, em seu site, atualizações de segurança. "O problema é que, ao lançar um boletim na internet, a Microsoft informa as falhas não só para os usuários, mas também para os hackers", diz o consultor de tecnologia Lucas Shirahata.

Atualizações de segurança em geral exigem que o computador seja reiniciado, o que demanda um tempo precioso em companhias com grandes redes de computadores. A mais recente epidemia disseminada em plataformas Windows atingiu a rede de notícias CNN e o jornal The New York Times, entre outras empresas. Nenhuma delas atualizou seu sistema a tempo quando, no início de agosto, a Microsoft anunciou um problema no Windows XP. Em menos de cinco dias, os hackers criaram um vírus chamado Zotob, que se aproveitava da tal falha.

 
HACKERS EM AÇÃO
O canal de notícias CNN divulga o recente ataque do vírus Zotob, que atingiu seus próprios computadores e os de mais de 100 outras empresas: em busca das brechas do Windows

Grandes esforços estão sendo feitos para que, no Windows Vista, setores vitais do computador sejam mais difíceis de acessar e modificar, o que diminuiria a possibilidade de que um vírus ou um "cavalo-de-tróia" (programa que rouba informações privadas sem que o usuário saiba) se instale na memória. O desafio, claro, é fazer com que isso não dificulte também a vida do usuário. "Estamos bem conscientes, contudo, de que essa é uma guerra que não tem fim", diz Rodrigo Paiva. Com menos de um mês de lançamento da versão beta, já houve tentativas de burlar a segurança desse sistema experimental.

Ao lado da vulnerabilidade, o Windows também tem o mau hábito de travar, muitas vezes causando perdas de dados. Quem nunca deparou com uma mensagem mal-educada do tipo "Este programa executou uma ação ilegal e será fechado"? "Esses problemas ocorrem porque o sistema vai acumulando muitos erros na memória. O problema vem sendo contido, mas está longe do ideal", diz Caetano Traina Júnior, professor de computação da Universidade de São Paulo em São Carlos. O Vista pretende ser um sistema mais estável, embora a versão beta ainda não permita avaliar que sucesso terá. Entre as medidas pesquisadas para tornar os computadores mais confiáveis para seus usuários (como diz a Microsoft, dar firmeza ao "pilar da confiança" é essencial) estão, por exemplo, o reinício automático de serviços que falham, o diagnóstico precoce de problemas com impressoras e outros periféricos e o conserto eficiente de sistemas que, digamos, demoram muito para carregar.

Quem precisa – ou apenas deseja – comprar um novo PC neste momento deve levar em conta alguns fatores. Primeiramente, a Microsoft promete dez anos de assistência a seus produtos. Isso significa que usuários do sistema operacional corrente, o Windows XP, ainda terão direito a suporte técnico por um bom tempo. De maneira semelhante, arquivos e programas que rodam com o XP não deverão caducar – e serão plenamente compatíveis com o Vista. Quem esperar pelo segundo semestre de 2006, contudo, provavelmente acabará adquirindo uma máquina mais potente e funcional. Até porque, para alcançar seu desempenho máximo, o Windows Vista deverá ser instalado em computadores com um mínimo de 512 megabytes de memória. Está acabando a era da memória de 256 megabytes – a mais vendida no Brasil de hoje.

 

Livre, não grátis

Paul Sakuma/AP
CAPITALISTA, SIM
Linus Torvalds, criador do Linux: gigantes como a IBM investem em seu programa


O sistema operacional Windows tem inimigos no governo Lula. Eles defendem a bandeira do software livre – ou seja, dos programas que não cobram licença de uso, ao contrário do que ocorre com o produto da Microsoft. Um dos mais agressivos defensores dessa causa vinha sendo até agora o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, diretor-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, órgão vinculado à Casa Civil. Subordinado ao ex-ministro José Dirceu, Amadeu perdeu influência nas últimas semanas e está para deixar o cargo. Mas isso não significa que a idéia de adotar o software livre tenha sido abandonada. Há três frentes em que ela deve ser posta em prática. Primeiro, o programa Computador para Todos. Dentro de três semanas, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve disponibilizar 200 milhões de reais em linhas de crédito para que a população mais pobre compre PCs. As máquinas que forem adquiridas com esse financiamento virão obrigatoriamente equipadas com software livre. Há também o projeto Casa Brasil, que pretende construir centros comunitários onde a população terá acesso a computadores e internet. Finalmente, o plano de instalar o Linux – o mais famoso e o mais utilizado dos sistemas livres – em toda a rede da administração federal.

Sérgio Amadeu já se referiu ao negócio da Microsoft como "prática de traficante". Isso revela o viés ideológico de seu raciocínio. E um viés bastante torto. Pois não se deve confundir software "livre" com "gratuito". O finlandês Linus Torvalds, criador do Linux, não é nenhum anarquista digital. É um homem de negócios. A IBM e a Dell, gigantes da indústria da informática, fazem pesados investimentos no desenvolvimento de softwares para o Linux, que é usado no mercado corporativo. Terminais de banco, celulares, caixas de supermercado e até robôs rodam com o programa – mas pagam pelos serviços de instalação e manutenção. O governo federal e os compradores dos computadores que ele financiar também ficarão sujeitos a esses gastos. Os beneficiários do programa Computador para Todos, por exemplo, só terão direito a um ano de suporte grátis. Além disso, é aconselhável levar em conta o resultado das políticas de inclusão digital implementadas em outros países. Malásia, Tailândia e Coréia do Sul, por exemplo, comprovaram que a venda de computadores sem opção de escolha de software pode ter péssimas conseqüências. "Se o usuário que foi obrigado a usar software livre não gostar, ele vai acabar comprando uma versão do Windows no camelô", diz Jorge Sukarie, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software. Foi o que se observou na Ásia: a imposição do software livre só serviu para incentivar a pirataria.

 

 

 
 
 
topovoltar