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Entrevista:
Peter Lindert O
Brasil gasta mal O professor americano
diz que no país são os mais pobres que contribuem para ajudar
os ricos. Somos o avesso de Robin Hood  Chrystiane
Silva
Antonio Milena
 | "Só
Itália, França e Alemanha têm despesas maiores com previdência
do que o Brasil, que é um país jovem" | |
O historiador econômico Peter
Lindert, professor da Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados
Unidos, é um mestre na análise de gastos sociais. Já passou
a lupa analítica sobre as despesas de dezenas de nações.
Em relação ao Brasil, conclui: o país gasta muito e gasta
mal. Aos 64 anos, o autor de Growing Public, livro que mapeia a relação
entre crescimento econômico e dispêndios sociais desde o século
XVIII, surpreendeu-se com uma peculiaridade brasileira. Por aqui, apesar da prevalência
de uma população jovem, a maior parte dos recursos é sugada
pelo sistema previdenciário. "É um contra-senso", resume. "Essa
lógica privilegia os idosos, militares e funcionários públicos.
Sobra menos dinheiro para investir em saúde e educação."
Com isso, explica ele, quase toda a contribuição dos mais pobres
acaba financiando a aposentadoria dos mais ricos. "Eis aí o paradoxo de
Robin Hood", diz o professor. É por isso que, ao contrário do que
clamam vários setores da sociedade brasileira, o centro da discussão
sobre gastos sociais deve se deslocar do volume da despesa para se concentrar
em ações eficientes e confiáveis, que atendam quem precisa.
Lindert falou a VEJA antes de participar, no Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial, da Conferência Internacional sobre Política Social no Brasil,
na semana passada, em São Paulo. Veja
O Brasil destina 25% de seu PIB para a área social, mas não
consegue reduzir a pobreza. Isso significa que o país deveria gastar mais?
Lindert Não. Na verdade, o investimento já é
muito alto. O problema é que os programas sociais não atendem os
mais pobres. Quase todo o dinheiro é usado para custear o sistema previdenciário
dos mais ricos, principalmente dos militares e dos juízes. É um
mecanismo distorcido, em que se gasta muito e mal. Essa situação
não é uma marca do Brasil ou mesmo da América Latina. A Índia
tem problema semelhante. As castas mais baixas pagam impostos para que as mais
altas usufruam educação e saúde.
Veja Mas o fato é que mais cedo ou
mais tarde a população vai envelhecer. Como resolver a questão
da previdência social no Brasil? Lindert Todos os economistas
concordam que o Brasil é diferente do resto do mundo. É um país
jovem, mas, ao mesmo tempo, tem grande preocupação com o envelhecimento.
É difícil entender isso, pois existem muitas ações
sociais que deveriam ser consideradas prioritárias no país. Só
Itália, França e Alemanha têm despesas maiores com previdência
do que o Brasil, que é um país jovem. Acontece que eles, sim, têm
motivo para se preocupar, já que possuem uma parcela expressiva da população
acima de 65 anos. É por isso que penso que, com o mesmo valor destinado
à previdência, o Brasil poderia fazer muito mais e melhor para os
mais pobres. Acho que o grande problema do modelo brasileiro de gastos sociais
está na Constituição. Ela estabelece os porcentuais do produto
interno bruto que devem ser investidos em algumas áreas. É isso
que se chama de vinculação orçamentária.
Veja Não é
interessante que um país em desenvolvimento defina esses porcentuais por
lei para garantir recursos para a área social? Lindert
Os simplistas concordariam com essa tese. Mas essas questões são
complicadas. Li, recentemente, um estudo do economista Raul Velloso em que ele
compara os gastos sociais feitos em 1987, antes da aprovação da
vinculação orçamentária na Constituição,
com os de 2002. A conclusão é espantosa. Os indicadores sociais
não melhoraram com a vinculação. Na verdade, eles continuaram
abaixo dos de outros países latinos, que investem muito menos que o Brasil.
Há nações em desenvolvimento que têm feito um eficiente
trabalho com gastos sociais. Elas direcionam menos recursos para as aposentadorias.
E repito: investem mais em educação e saúde. É o caso
da Coréia do Sul e de Taiwan, que também vêm registrando bons
índices de crescimento econômico. O exemplo europeu confirma isso.
Mostra que é perfeitamente possível ter igualdade social e manter
o crescimento econômico. Todos os países em desenvolvimento poderiam
fazer a mesma coisa? É possível, mas cada um tem uma realidade diferente.
O importante é não cair no discurso fácil de "vamos gastar
mais". Essa é uma postura política voltada contra o social, e não
a favor. Veja
Ao longo da história, a idéia de ampliar gastos sociais esteve
associada a partidos de esquerda. Isso ainda faz sentido? Lindert
Nos países europeus, que têm os melhores sistemas sociais, esses
programas são sempre associados aos partidos de esquerda. Mas isso é
complexo nos países em desenvolvimento. No Brasil, a esquerda também
clama por gastos sociais maiores para atender as camadas menos favorecidas. Mas
os programas sociais atendem justamente os mais ricos. Quem é de esquerda
nesse caso? Veja
Qual é a saída para efetivamente ajudar os mais pobres?
Criar um sistema em que os gastos sociais sejam direcionados a grupos específicos?
Ou o regime de universalização, utilizado no Brasil, em que todos
têm acesso a programas sociais? Lindert Essa é
uma questão difícil. Para atingir os mais pobres, o Brasil deveria
focalizar os gastos diretamente nas camadas menos favorecidas. Alguns programas
brasileiros fazem isso, especialmente os que exigem que a ajuda financeira seja
condicionada a algumas exigências, como é o caso do Bolsa-Escola.
Para receber o benefício, as famílias têm de matricular os
filhos no colégio. Esse é o melhor sistema de direcionamento de
gastos sociais que vi no Brasil, mas tem de funcionar corretamente. A idéia
desse projeto é boa, que fique bem claro. O Bolsa-Escola foi uma solução
caseira para um problema local, mas que funciona muito bem. Embora ele não
resolva o problema da qualidade do ensino, essas crianças terão
formação melhor e poderão contribuir com o desenvolvimento
do país. Mas é importante criar mecanismos para que o sistema funcione.
É preciso ter certeza de que o dinheiro será direcionado para as
pessoas certas e que o governo conseguirá monitorar se as crianças
estão realmente indo à escola. O controle é fundamental.
Na Índia, por exemplo, os professores recebem um alto salário, mas
muitos nem sequer aparecem para dar aula. Ou seja, você pode ter uma boa
instituição, mas precisa fazê-la funcionar direito.
Veja O que é
o paradoxo de Robin Hood? Lindert É quando os mais
pobres contribuem para ajudar os mais ricos, e não o contrário.
E o Brasil se enquadra nesse caso. O paradoxo de Robin Hood pode perdurar até
2050 em países que têm governos ruins. Eles sempre terão desigualdade,
pobreza, e não há nada que o aumento de gastos sociais possa fazer
por eles, porque não têm governo. O antídoto para o paradoxo
é simples: bom governo. Veja
Já que os mais ricos usufruem os benefícios sociais,
o senhor quer dizer que eles devem contribuir mais? Lindert
Não. Isso também não funciona. Taxas muito altas podem frear
o crescimento econômico, pois tendem a afastar possíveis investidores,
principalmente os estrangeiros. Para solucionar esse impasse, os conservadores
defendem maior taxação do consumo. Não de forma generalizada
nem exclusivamente os produtos de luxo. Mas, sim, o consumo ligado a hábitos,
como as bebidas alcoólicas e o tabaco. Também pregam a cobrança
de impostos maiores sobre produtos como a gasolina. Assim, é possível
criar uma contribuição para a formação de um estado
de bem-estar social sem afetar o crescimento econômico nem os investimentos.
Eu considero esse sistema bom e justo. E ele não amedronta o capital estrangeiro.
Agora, não há mágica para produzir bons programas sociais
aliados a impostos baixos. Veja
Mas, então, como impedir que só os ricos usufruam
os gastos sociais? Lindert É preciso manter um regime
democrático, com transparência de informações e regras
claras. É fundamental haver espaço para críticas. É
preciso combater ainda o uso irregular e o desvio de recursos. Isso é democracia.
O Brasil não está em má posição sob esse ponto
de vista. Tem um sistema democrático consolidado. Tem também grupos
empresariais e políticos competitivos, e o governo presta contas dos gastos
públicos. Isso torna a situação mais fácil. Há
casos muito piores. A Índia é a maior democracia do mundo, mas quando
você olha para a realidade daquele país percebe que, além
de pobre e desigual, tem a agravante do sectarismo entre as castas. Os Estados
Unidos, outro exemplo, tiveram de superar grandes problemas raciais e ainda encontram
entraves nessa área. No caso do Brasil, não. No mínimo, essas
questões são menos graves. A impressão que tenho é
que estão todos juntos, unidos em um objetivo comum.
Veja O que determina quanto um país
deveria gastar em programas sociais como saúde, educação
e previdência? Lindert Quatro quesitos definem quanto
as nações devem direcionar a programas sociais. O primeiro parâmetro
é a situação econômica. Os países mais ricos
gastam mais. Outro ponto importante é o que defino como homogeneidade.
Quando se tem a sensação de que, de fato, todos os cidadãos
são iguais, que eles são o mesmo tipo de pessoa que você é,
isso faz com que ninguém se incomode em pagar mais impostos, contanto que
eles se revertam em bons programas sociais e segurança. O terceiro quesito
é a idade da população. Sociedades em que há um porcentual
maior de pessoas velhas têm obrigatoriamente de gastar mais em previdência
social. O quarto aspecto a ser considerado na minha opinião, o mais
importante é a existência da democracia. Se olharmos pelo
retrovisor, veremos que não havia a preocupação com gastos
sociais no mundo por volta do início do século XX. Mas hoje, com
a consolidação dos sistemas democráticos, quando se observa
a desigualdade social e a pobreza, a primeira pergunta que se faz é por
que ninguém toma providências a esse respeito. Só há
uma resposta: falta de vontade dos governos. Veja
O que o Brasil pode fazer para melhorar a qualidade dos gastos sociais?
É possível medir a eficiência dos programas? Lindert
O que dá para fazer agora é olhar coisas óbvias,
básicas. Crianças na escola, hospitais... E, é claro, restringir
a generosidade concedida às classes sociais mais altas. Sem dúvida,
é possível medir a eficiência dos gastos públicos,
mas ainda não há estatísticas mundiais completas para fazer
um levantamento preciso. Talvez no futuro possamos medir com maior exatidão
o efeito dos gastos públicos, mas agora não existem boas ferramentas
para isso. Um fator que sem dúvida pode contribuir para essa análise
é a transparência. Vivemos na era das câmeras e da internet,
em que facilmente a população pode ser informada sobre o que é
feito com seu dinheiro e onde ele é usado. Veja
Que áreas sociais deveriam receber mais investimentos e quais
poderiam trazer melhores resultados a curto prazo? Lindert
Para reduzir a desigualdade social e promover o crescimento econômico de
uma nação, é preciso deslocar os gastos públicos para
longe das aposentadorias, especialmente as dos servidores públicos, e investir
em educação e saúde. Na educação, seria necessário
concentrar os investimentos na formação de professores e nos alunos
do ensino fundamental e do ensino médio. Só com educação
um país consegue crescer. Na área de saúde pública
é preciso investir em programas de prevenção, principalmente
fora das grandes cidades. Esse direcionamento de recursos já foi utilizado
por outros países e deu bons resultados. É isso que a experiência
internacional sugere. Veja
É possível fazer bons programas sociais mesmo em países
com problemas para equilibrar as contas do governo? Lindert
Entre os países desenvolvidos, podemos constatar que os que têm gastos
sociais elevados e altos impostos não apresentam grandes déficits
públicos. Curiosamente, os que têm os maiores déficits são
justamente aqueles que possuem menos recursos destinados à área
social. O do Japão é elevadíssimo, e isso não tem
nenhuma relação com um estado de bem-estar social. O segundo maior
déficit do mundo é o dos Estados Unidos, onde os impostos usados
para custear os avanços militares fizeram explodir o orçamento americano.
Em suma, não há necessariamente uma relação entre
as duas coisas. Veja
A ineficiência dos gastos não tende a agravar os problemas sociais
e comprometer o futuro do Brasil? Lindert Felizmente, não.
O Brasil está melhor que o grupo de países que dificilmente conseguirão
melhorar de vida. Eles ficam em zonas de guerra e são muito pobres. O Brasil
está entre as nações que podem crescer bastante quando enfrentarem
seus problemas. Elas serão capitaneadas pela China, que, em breve, deve
se consolidar como um dos países mais prósperos do mundo. O Brasil
também estará nesse grupo e tem muito a ensinar à China.
Aqui, existe democracia, governo e instituições muito mais sólidas
do que no gigante asiático. Isso sem falar nos recursos naturais. Na minha
opinião, o futuro imediato do Brasil é muito bom. |