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Auto-retrato
Mikhail Gorbachev
Matt Sayles/AP
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O último líder da União Soviética, hoje
à frente da ONG Green Cross, passa boa parte do tempo viajando
para divulgar suas idéias sobre a nova ordem mundial e a
preservação do meio ambiente. Gorbachev chega ao Brasil
na semana que vem para participar da cerimônia do prêmio
ECO, entregue a empresas que promovem projetos sociais. Ele falou
ao editor Okky de Souza.
DEPOIS DE MUDAR O CURSO DA
HISTÓRIA, COM O DESMONTE DO REGIME SOVIÉTICO, O SENHOR
HOJE SE DEDICA A GRANDES CAUSAS SOCIAIS E ECOLÓGICAS. COMO
OCORREU ESSA TRANSFORMAÇÃO EM SUA VIDA?
Não sou mais um chefe de Estado, mas continuo interessado
nos grandes desafios do mundo, como o terrorismo, a pobreza e a
preservação do meio ambiente. Ainda estamos tentando
eliminar heranças da Guerra Fria e da corrida armamentista.
Todos aqueles velhos mísseis e submarinos nucleares têm
de ser desmontados e precisamos eliminar as armas químicas.
Essa é uma tarefa que exige tempo e muito dinheiro. Os governos
não devem economizar recursos para isso.
QUAL O RISCO QUE AS ARMAS
NUCLEARES REPRESENTAM HOJE?
Quando me encontrei pela primeira vez com a Margareth Thatcher,
então primeira-ministra da Inglaterra, comentei que as armas
de destruição em massa disponíveis na Rússia
e nos Estados Unidos, juntas, dariam para destruir o mundo 1.000
vezes. Grande parte desse arsenal continua intacta. Ele pode representar
um risco ainda maior do que no passado por causa da escalada do
terrorismo internacional. É preciso evitar que os terroristas
se apossem dessas armas. Pelo mesmo motivo, é preciso cuidar
para que os países capazes de fabricar armas nucleares não
o façam. Quando elas surgiram, o cientista Albert Einstein
disse que, a partir daquele momento, a humanidade deixava de ser
imortal. Essa reflexão continua atual.
A GLOBALIZAÇÃO
PROMOVEU O DESENVOLVIMENTO EM PAÍSES COMO A CHINA E A ÍNDIA,
MAS NÃO TEVE O MESMO EFEITO EM MUITOS PAÍSES DO TERCEIRO
MUNDO. COMO APERFEIÇOÁ-LA?
A globalização beneficiou esses países
porque seus governos não tentaram impor à economia
e à sociedade modelos importados que desconsideram suas peculiaridades
como nações. Em outros países, inclusive na
Rússia e no Brasil, cometeram-se erros, em grande parte por
causa das pressões exercidas pelo Fundo Monetário
Internacional e pelas partes envolvidas no chamado Consenso de Washington.
Acho que já corrigimos boa parte desses erros e as coisas
agora estão melhorando. O processo de globalização
começou de forma descontrolada, após a Guerra Fria,
e hoje ele leva mais em conta as particularidades de cada sociedade.
O QUE PODE SER FEITO PARA
REVERTER A SITUAÇÃO DE POBREZA EXTREMA EM QUE VIVEM
AS POPULAÇÕES DE VÁRIOS PAÍSES DA ÁFRICA?
O primeiro passo é que os países ricos cumpram
aquilo que prometem. Na Eco-92, encontro de chefes de Estado ocorrido
no Rio de Janeiro, as nações do mundo reafirmaram
seu compromisso de investir uma porcentagem do PIB para combater
a pobreza no mundo. Só três ou quatro o fizeram. Todas
as outras nações, incluindo as mais ricas, estão
alocando apenas uma fração do que prometeram. Há
cinco anos, na ONU, formulou-se um acordo para combater a pobreza,
promover a preservação do meio ambiente e beneficiar
a educação nos países carentes. Até
agora, muito pouco foi feito. Considero chocante que as nações
mais ricas gastem centenas de bilhões de dólares para
travar uma guerra e não reservem 10 bilhões para combater
a pobreza. Minha impressão é que a luta contra a pobreza
exige uma pressão incessante da opinião pública,
das instituições e da sociedade civil.
O PRESIDENTE RUSSO VLADIMIR
PUTIN TEM DESPERTADO CRÍTICAS POR TOMAR ATITUDES AUTORITÁRIAS,
AO VELHO ESTILO DA UNIÃO SOVIÉTICA. COMO AVALIA O
SEU GOVERNO?
Acusam Putin de ser excessivamente duro, rígido, mas
o povo russo tem uma opinião diferente sobre ele. Putin herdou
um país caótico, que se desintegrava, e com uma sociedade
preocupada com essa situação. Ele conseguiu estabilizar
o cenário econômico e preparar o terreno para o futuro.
A quem o critica, aconselho que ouça a voz do povo russo.
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