Edição 1920 . 31 de agosto de 2005

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Auto-retrato
Mikhail Gorbachev


Matt Sayles/AP


O último líder da União Soviética, hoje à frente da ONG Green Cross, passa boa parte do tempo viajando para divulgar suas idéias sobre a nova ordem mundial e a preservação do meio ambiente. Gorbachev chega ao Brasil na semana que vem para participar da cerimônia do prêmio ECO, entregue a empresas que promovem projetos sociais. Ele falou ao editor Okky de Souza.

DEPOIS DE MUDAR O CURSO DA HISTÓRIA, COM O DESMONTE DO REGIME SOVIÉTICO, O SENHOR HOJE SE DEDICA A GRANDES CAUSAS SOCIAIS E ECOLÓGICAS. COMO OCORREU ESSA TRANSFORMAÇÃO EM SUA VIDA?
Não sou mais um chefe de Estado, mas continuo interessado nos grandes desafios do mundo, como o terrorismo, a pobreza e a preservação do meio ambiente. Ainda estamos tentando eliminar heranças da Guerra Fria e da corrida armamentista. Todos aqueles velhos mísseis e submarinos nucleares têm de ser desmontados e precisamos eliminar as armas químicas. Essa é uma tarefa que exige tempo e muito dinheiro. Os governos não devem economizar recursos para isso.

QUAL O RISCO QUE AS ARMAS NUCLEARES REPRESENTAM HOJE?
Quando me encontrei pela primeira vez com a Margareth Thatcher, então primeira-ministra da Inglaterra, comentei que as armas de destruição em massa disponíveis na Rússia e nos Estados Unidos, juntas, dariam para destruir o mundo 1.000 vezes. Grande parte desse arsenal continua intacta. Ele pode representar um risco ainda maior do que no passado por causa da escalada do terrorismo internacional. É preciso evitar que os terroristas se apossem dessas armas. Pelo mesmo motivo, é preciso cuidar para que os países capazes de fabricar armas nucleares não o façam. Quando elas surgiram, o cientista Albert Einstein disse que, a partir daquele momento, a humanidade deixava de ser imortal. Essa reflexão continua atual.

A GLOBALIZAÇÃO PROMOVEU O DESENVOLVIMENTO EM PAÍSES COMO A CHINA E A ÍNDIA, MAS NÃO TEVE O MESMO EFEITO EM MUITOS PAÍSES DO TERCEIRO MUNDO. COMO APERFEIÇOÁ-LA?
A globalização beneficiou esses países porque seus governos não tentaram impor à economia e à sociedade modelos importados que desconsideram suas peculiaridades como nações. Em outros países, inclusive na Rússia e no Brasil, cometeram-se erros, em grande parte por causa das pressões exercidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelas partes envolvidas no chamado Consenso de Washington. Acho que já corrigimos boa parte desses erros e as coisas agora estão melhorando. O processo de globalização começou de forma descontrolada, após a Guerra Fria, e hoje ele leva mais em conta as particularidades de cada sociedade.

O QUE PODE SER FEITO PARA REVERTER A SITUAÇÃO DE POBREZA EXTREMA EM QUE VIVEM AS POPULAÇÕES DE VÁRIOS PAÍSES DA ÁFRICA?
O primeiro passo é que os países ricos cumpram aquilo que prometem. Na Eco-92, encontro de chefes de Estado ocorrido no Rio de Janeiro, as nações do mundo reafirmaram seu compromisso de investir uma porcentagem do PIB para combater a pobreza no mundo. Só três ou quatro o fizeram. Todas as outras nações, incluindo as mais ricas, estão alocando apenas uma fração do que prometeram. Há cinco anos, na ONU, formulou-se um acordo para combater a pobreza, promover a preservação do meio ambiente e beneficiar a educação nos países carentes. Até agora, muito pouco foi feito. Considero chocante que as nações mais ricas gastem centenas de bilhões de dólares para travar uma guerra e não reservem 10 bilhões para combater a pobreza. Minha impressão é que a luta contra a pobreza exige uma pressão incessante da opinião pública, das instituições e da sociedade civil.

O PRESIDENTE RUSSO VLADIMIR PUTIN TEM DESPERTADO CRÍTICAS POR TOMAR ATITUDES AUTORITÁRIAS, AO VELHO ESTILO DA UNIÃO SOVIÉTICA. COMO AVALIA O SEU GOVERNO?
Acusam Putin de ser excessivamente duro, rígido, mas o povo russo tem uma opinião diferente sobre ele. Putin herdou um país caótico, que se desintegrava, e com uma sociedade preocupada com essa situação. Ele conseguiu estabilizar o cenário econômico e preparar o terreno para o futuro. A quem o critica, aconselho que ouça a voz do povo russo.

 
 
 
 
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