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André
Petry
Nós, o vexame mundial
"Uma parte da elite nacional fica
mais preocupada com a falta de
vaga nos presídios do que com
a falta de vaga na indústria"
A ONU acaba de lançar novo
relatório sobre a situação social no mundo.
De cara, traz uma notícia incômoda. Afirma que crescimento
econômico não reduz, por si só, a desigualdade
social. Diz que, se um país cresce, mas não tem programas
específicos de combate à desigualdade, os frutos do
crescimento acabam na mão dos ricos e isso, em vez
de reduzir, aumenta a desigualdade. A ONU não elege o campeão
mundial do mau exemplo. Mas, como também não esconde
os dados sobre o Brasil, fica claro que o mau exemplo mundial, de
novo, somos nós mesmos.
Debulhando os números
do relatório, fica-se sabendo que o Brasil é um recordista
em desigualdade de renda. Os mais ricos ganham 32 vezes mais que
os mais pobres no Uruguai, essa diferença de renda
é de nove vezes. Nossa indecência quer dizer o seguinte:
se o pobre ganha 200 reais, o rico ganhará 6.400.
(Dos números à
realidade: no último dia 16, cumprindo ordem judicial,
a polícia expulsou 300 sem-teto de um prédio de cinco
andares no centro de São Paulo. Usou bombas de gás
lacrimogêneo e spray de pimenta. Entre os 300 sem-teto havia
110 crianças. Houve feridos e presos, mas a expulsão
foi completada. No Brasil da desigualdade, em que uns têm
um edifício e outros não têm um teto sequer,
a coisa é assim: jogam-se 110 crianças na rua, e isso
significa "fazer justiça".)
O relatório da ONU reafirma
que uma das chagas mundiais é a informalidade gente
que, além de não ter carteira de trabalho assinada,
não tem direito nem acesso a quase nada. No Brasil, os informais
já são maioria: 56%.
(Dos números à
realidade: no fim de maio, no centro de São Paulo, aconteceu
o pior confronto do ano até agora entre policiais
e camelôs. Oito guardas civis ficaram feridos. Três
ambulantes foram presos. Houve de tudo: coquetéis molotov,
bombas caseiras, rojões, pedras, garrafas. Camelôs
protestam, são agredidos pela polícia, vivem sendo
expulsos. Ninguém é camelô porque quer, mas
entre nós é assim: elimina-se, a cacetadas se for
preciso, o único meio de sustento dos informais, e isso é
"manter a ordem".)
A ONU aponta para outro drama
mundial da desigualdade o desemprego. No mundo, há
186 milhões de desempregados. No Brasil, a taxa oficial está
em cerca de 10%. O desemprego é sempre mais alto entre os
jovens e é uma das explicações para o aumento
da criminalidade.
(Dos números à
realidade: entre 1980 e 2000, um pouco mais de 2 milhões
de pessoas morreram de causas violentas no Brasil homicídio,
suicídio, acidente. Nessas duas décadas, o país
teve crescimento medíocre, taxa de desemprego crescente e
criminalidade galopante. Uma parte da elite nacional, daquele pedaço
que ganha 32 vezes mais que os pobres, fica mais preocupada com
a falta de vaga nos presídios do que com a falta de vaga
na indústria.)
A corrupção é
a derrota mais espetacular do governo de Lula. A outra derrota,
acachapante e devastadora, mas que carece do espalhafato cáustico
do mensalão, é não ter tomado uma única
providência significativa para alterar o quadro pornográfico
da concentração de renda.
Nós nos encontraremos,
caro leitor, no próximo relatório da ONU. Com as mesmas
notícias. Provavelmente pioradas.
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