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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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Claudio de Moura Castro

Livrai-nos dos crédulos

"Nossa sociedade deve preparar melhor
as pessoas para que elas não tomem
o falso pelo verdadeiro"


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Ponto de vista de 27/3/2002: "Movimento dos Sem-Luz"

Em 1938, um senhor Orson Welles anunciou em seu programa radiofônico que Nova York estava sendo invadida por marcianos. As contínuas notícias do avanço da invasão trouxeram pânico à cidade, causando acidentes e uma confusão geral. Mas trouxeram também protestos veementes e fama instantânea para o genial ator.

Ilustração Ale Setti


Mais recentemente, um editor da revista Esquire apostou com amigos quanto tempo levaria até ser denunciada a farsa inverossímil narrada em um artigo. Noticiou que um grupo escolhido pela Presidência americana se reunia secretamente em uma base subterrânea (chamada Iron Mountain) para discutir o que fazer após a Guerra Fria, quando a ausência de inimigos externos levaria a uma insurreição doméstica. O plano escolhido era desarmar os grupos de extrema direita, o provável estopim da guerra civil. Mas, em vez de perceberem o ridículo, os tais grupos acreditaram piamente no complô, e a publicação tornou-se a mais contundente evidência de que deveriam resistir a qualquer preço. Mesmo com o editor indo a juízo e provando sua autoria do ensaio maluco, não arrefeceram as crenças dos "vigilantes" extremistas.

Em escala muito mais modesta, cometi involuntariamente uma travessura parecida. Viajo muito e sempre me defronto com quartos de hotel sem luz suficiente para ler. Já havia escrito sobre isso. Mas voltei ao assunto e, para não plagiar o ensaio prévio, inventei a longa história de um complô dos hoteleiros e de uma cruzada de protesto, o Movimento dos Sem-Luz. Até um website fictício foi inventado.

A maioria dos leitores entendeu a piada. Mas qual não foi meu pavor quando comecei a receber um número assustador de e-mails de quem havia acreditado, pelo menos em parte, na ficção.

Não houve vítimas, a história não congestionou o tráfego nem alimentou os ardores extremistas. Mas revelou uma semelhante vulnerabilidade de nossa sociedade. Em países democráticos, as pessoas votam, defendem suas opiniões, reclamam e, às vezes, são ouvidas. Por muito imperfeita que seja a nossa democracia, o governo não pode ignorar as demandas e aflições dos eleitores.

Mas, para que o sistema funcione, é preciso que uma proporção bastante substancial da população não tenha opiniões sem pé nem cabeça e saiba decidir entre o certo e o errado, entre o verdadeiro e o inventado. Não pode ser vítima de embustes grosseiros nem crédula diante de evidência frágil. Tem de ter a dúvida sistemática que Descartes já pregava no século XVII: não se tome como verdade o que não pode ser demonstrado como tal.

E tem de saber em quem acreditar. Os que estão em posição de ter seus escritos lidos por muitos têm uma responsabilidade maior. Não podem trair seus leitores, sob pena de gerar um agnosticismo pernicioso. Nesse particular, pequei, ao subestimar o perigo de que me acreditassem ao pé da letra, em vez de se divertirem com a brincadeira.

Mas o incidente permite algumas reflexões. Nossa sociedade tem de preparar melhor as pessoas para que elas não tomem o falso por verdadeiro. É missão do ensino burilar a competência para julgar o que é lido e entendido. É uma arte e uma técnica que se tornaram vitais na democracia. No caso, não é apenas a sintaxe do ensaio, mas a análise do que está dito, diante de um conhecimento mais amplo acerca do que pode acontecer e do que é inverossímil.

Pessoas cultas têm esse bom julgamento. Na verdade, ser culto é isso – não confundamos cultura com acúmulo de informação nem com erudição. Ser culto é ter lido e refletido o bastante para perceber que tais coisas não podem acontecer. Hoteleiros e arquitetos não se constituem em sociedades fechadas. E tanto falta luz nos hotéis multinacionais como na pousada da roça. Portanto, são impossíveis quaisquer reuniões, secretas ou não, com supostos conspiradores. E o Movimento dos Sem-Luz não poderia passar de uma alegoria.

Termino, portanto, com minhas desculpas pela brincadeira mal interpretada, mas aproveitando para reforçar o Movimento por uma Educação Melhor (MEM). Será também brincadeira?

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)

 

 
 
   
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