
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Os
Sertões e o
caso Tim Lopes
O
bárbaro assassinato
do
jornalista
da
Globo, à
luz de um clássico
centenário
da
literatura brasileira
O leitor quer conhecer o substrato histórico, social e moral do
caso de Tim Lopes, o jornalista da TV Globo barbaramente assassinado num
morro carioca? Leia Os Sertões, de Euclides da Cunha. Está
tudo lá. Os Sertões está fazendo 100 anos.
Foi publicado em 1902, cinco anos depois do fim do episódio que
lhe serve de tema, a Guerra de Canudos. Nem seria preciso dizer, mas diga-se:
o livro continua um monumento. É um monumento literário
e também um monumento de reflexão sobre esse tema sempre
intrigante chamado Brasil. Para ilustrar o ponto que nos interessa, tomemos
os parágrafos, lá pelo fim do livro, em que o autor descreve
a sorte que mereciam os seguidores de Antônio Conselheiro ao cair
nas mãos do Exército. Canudos, cercada sem remissão
pela tropa repressora, agonizava. Ainda resistia, como resistiu até
o último suspiro, mas sem esperança. Seus defensores, quando
não eram abatidos em combate, eram capturados aos montes.
E então, que lhes acontecia? Procurava-se um recanto mais encoberto
e... Os soldados começavam por impor ao preso um viva à
República, poucas vezes satisfeito. Seguia-se o pior. "Agarravam
a vítima pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe
o pescoço", descreve Euclides; "e, francamente exposta a garganta,
degolavam-na." Podia ocorrer que os assassinos não tivessem paciência
para todas as preliminares. "O processo era então mais expedito:
varavam a vítima a facão. Um golpe único, entrando
pelo baixo ventre. Um destripamento rápido."
Euclides da Cunha, neste ponto, está no auge da indignação.
"Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada", escreve. Ele
mostra como os supostos agentes da civilização, encarregados
pelo Estado de levar a lei a sertanejos tidos como selvagens, acabaram
se transmudando em agentes da barbárie. O hábito de degolar
o inimigo não figura em exclusivo no conflito de Canudos. Está
presente em outros episódios da história do Brasil. Em Canudos,
mostra-se ainda mais cruel quando se tem em conta que corria entre os
seguidores de Conselheiro a crença de que a morte pela faca impedia
que a alma fosse para o céu. Os soldados sabiam disso. Por isso
mesmo, para aterrorizar o inimigo não só com a morte, mas
com a própria interdição da salvação,
dedicavam-se a ela com volúpia.
Nos tempos que correm a crueldade está em voga. Não só
se seqüestra e mata, mas se tortura e mutila. Tim Lopes resume essa
tendência. Ele não só foi torturado, mas morto por
um golpe de espada a trespassar-lhe o ventre, como se fazia em Canudos
quando se estava com preguiça de degolar. Os Sertões
este o primeiro ponto em que o grande livro ilumina o recente caso
do jornalista mostra que a crueldade insana tem raízes antigas.
Certo, no episódio citado da Guerra de Canudos são os agentes
do Estado que a praticam, enquanto nos casos recentes são bandidos
privados. Isso só prova que a bandidagem não inova. Apenas
copia, ou reproduz, ou espelha, padrões longamente estabelecidos
nas melhores esferas do Estado e da sociedade.
Mas não é apenas nesse ponto que Os Sertões
tangencia o caso Tim Lopes. Há também outro, resumido na
frase que o gênio de Euclides da Cunha forjou para explicar por
que os militares que combateram em Canudos não apenas agiam na
certeza da impunidade como não temiam o juízo do futuro:
"A História não iria até lá". O sertão
era demasiado pobre e distante, demasiado inglório, para merecer
a atenção da posteridade. "O sertão é o homizio",
acrescentou Euclides. Escreveu ainda: "Canudos tinha muito apropriadamente,
em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntese; era um hiato;
era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão
de serras, ninguém mais pecava".
Eis um conceito, este de que "a História não iria até
lá" que comporta larga aplicação. Vale não
só para o juízo do futuro, mas mesmo do presente. Há
crimes cometidos na certeza de que estão imunes não só
à História, mas ao mero registro dos contemporâneos.
Nos porões da ditadura, reinava a certeza de que a História
não chegaria lá. Em certas delegacias de polícia,
hoje e sempre, opera-se com esse pressuposto. Isto quanto aos agentes
do Estado. Quanto à bandidagem privada, os morros cariocas exemplificam
por excelência um rincão onde a História não
chega. Assim como o sertão, na descrição de Euclides,
o morro é um homizio. Ele está no alto, não num vale
como Canudos, mas também é um parêntese, um hiato,
um vácuo. Não existe.
Com isso voltamos a Tim Lopes. Aliás, não a ele próprio.
Tim Lopes era conhecido e tinha boas conexões. Por isso mesmo,
a ele a História não tardou a chegar. Mas, quando lhe procuravam
o corpo, foram encontradas as ossadas de muitas outras vítimas.
A quem teriam pertencido? Quem teria a coragem de reclamá-las?
Neste caso, sim, o morro era o perfeito homizio. Se a História
chegou ao depósito de ossos, foi por acaso. Se um dia identificar
seus donos, será outro acaso mas, admita-se, muito remoto,
muito improvável.
|
|
 |
|
 |

|
 |