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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Os Sertões e o
caso Tim Lopes

O bárbaro assassinato do jornalista
da Globo, à luz de um clássico
centenário da literatura brasileira

O leitor quer conhecer o substrato histórico, social e moral do caso de Tim Lopes, o jornalista da TV Globo barbaramente assassinado num morro carioca? Leia Os Sertões, de Euclides da Cunha. Está tudo lá. Os Sertões está fazendo 100 anos. Foi publicado em 1902, cinco anos depois do fim do episódio que lhe serve de tema, a Guerra de Canudos. Nem seria preciso dizer, mas diga-se: o livro continua um monumento. É um monumento literário e também um monumento de reflexão sobre esse tema sempre intrigante chamado Brasil. Para ilustrar o ponto que nos interessa, tomemos os parágrafos, lá pelo fim do livro, em que o autor descreve a sorte que mereciam os seguidores de Antônio Conselheiro ao cair nas mãos do Exército. Canudos, cercada sem remissão pela tropa repressora, agonizava. Ainda resistia, como resistiu até o último suspiro, mas sem esperança. Seus defensores, quando não eram abatidos em combate, eram capturados aos montes.

E então, que lhes acontecia? Procurava-se um recanto mais encoberto e... Os soldados começavam por impor ao preso um viva à República, poucas vezes satisfeito. Seguia-se o pior. "Agarravam a vítima pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço", descreve Euclides; "e, francamente exposta a garganta, degolavam-na." Podia ocorrer que os assassinos não tivessem paciência para todas as preliminares. "O processo era então mais expedito: varavam a vítima a facão. Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido."

Euclides da Cunha, neste ponto, está no auge da indignação. "Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada", escreve. Ele mostra como os supostos agentes da civilização, encarregados pelo Estado de levar a lei a sertanejos tidos como selvagens, acabaram se transmudando em agentes da barbárie. O hábito de degolar o inimigo não figura em exclusivo no conflito de Canudos. Está presente em outros episódios da história do Brasil. Em Canudos, mostra-se ainda mais cruel quando se tem em conta que corria entre os seguidores de Conselheiro a crença de que a morte pela faca impedia que a alma fosse para o céu. Os soldados sabiam disso. Por isso mesmo, para aterrorizar o inimigo não só com a morte, mas com a própria interdição da salvação, dedicavam-se a ela com volúpia.

Nos tempos que correm a crueldade está em voga. Não só se seqüestra e mata, mas se tortura e mutila. Tim Lopes resume essa tendência. Ele não só foi torturado, mas morto por um golpe de espada a trespassar-lhe o ventre, como se fazia em Canudos quando se estava com preguiça de degolar. Os Sertões – este o primeiro ponto em que o grande livro ilumina o recente caso do jornalista – mostra que a crueldade insana tem raízes antigas. Certo, no episódio citado da Guerra de Canudos são os agentes do Estado que a praticam, enquanto nos casos recentes são bandidos privados. Isso só prova que a bandidagem não inova. Apenas copia, ou reproduz, ou espelha, padrões longamente estabelecidos nas melhores esferas do Estado e da sociedade.

Mas não é apenas nesse ponto que Os Sertões tangencia o caso Tim Lopes. Há também outro, resumido na frase que o gênio de Euclides da Cunha forjou para explicar por que os militares que combateram em Canudos não apenas agiam na certeza da impunidade como não temiam o juízo do futuro: "A História não iria até lá". O sertão era demasiado pobre e distante, demasiado inglório, para merecer a atenção da posteridade. "O sertão é o homizio", acrescentou Euclides. Escreveu ainda: "Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntese; era um hiato; era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão de serras, ninguém mais pecava".

Eis um conceito, este de que "a História não iria até lá" que comporta larga aplicação. Vale não só para o juízo do futuro, mas mesmo do presente. Há crimes cometidos na certeza de que estão imunes não só à História, mas ao mero registro dos contemporâneos. Nos porões da ditadura, reinava a certeza de que a História não chegaria lá. Em certas delegacias de polícia, hoje e sempre, opera-se com esse pressuposto. Isto quanto aos agentes do Estado. Quanto à bandidagem privada, os morros cariocas exemplificam por excelência um rincão onde a História não chega. Assim como o sertão, na descrição de Euclides, o morro é um homizio. Ele está no alto, não num vale como Canudos, mas também é um parêntese, um hiato, um vácuo. Não existe.

Com isso voltamos a Tim Lopes. Aliás, não a ele próprio. Tim Lopes era conhecido e tinha boas conexões. Por isso mesmo, a ele a História não tardou a chegar. Mas, quando lhe procuravam o corpo, foram encontradas as ossadas de muitas outras vítimas. A quem teriam pertencido? Quem teria a coragem de reclamá-las? Neste caso, sim, o morro era o perfeito homizio. Se a História chegou ao depósito de ossos, foi por acaso. Se um dia identificar seus donos, será outro acaso – mas, admita-se, muito remoto, muito improvável.

   
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