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Um terrível
mundo novo
Sombria
e vertiginosa, a ficção
Minority Report mostra que
Spielberg está cada vez melhor

Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| Dois
policiais com mochilas voadoras prendem Cruise, seu exchefe:
os atores voaram de verdade |

Veja também |
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Definido
por Steven Spielberg como um exercício de "realismo futurista",
Minority Report A Nova Lei (Minority Report,
Estados Unidos, 2002) é um testemunho sobre os benefícios
da maturidade, especialmente quando ela chega para um cineasta que mantém
um apetite juvenil pelo seu trabalho. O filme, que estréia nesta
sextafeira no país, é tão vigoroso quanto os
primeiros trabalhos de Spielberg, mas muito mais audacioso e sombrio que
qualquer outra coisa que ele tenha feito até aqui incluindo
A Lista de Schindler e A.I. Inteligência Artificial.
É uma prova de que o diretor não faz gênero quando
afirma que já teve sucesso suficiente para durar três encarnações
e, portanto, não é mais presa daquela compulsão de
agradar à platéia a qualquer custo. Tudo o que a ação
do filme tem de vertiginoso, ela tem também de provocativo e complexo
algo quase inexistente na produção da alta temporada
de Hollywood.
Minority
Report é adaptado de um conto do americano Philip K. Dick (veja
quadro), cuja ficção deu origem também
a Blade Runner e O Vingador do Futuro. O filme se passa
em 2054, quando a unidade policial intitulada "PréCrime",
chefiada por John Anderton (Tom Cruise, na sua primeira parceria com Spielberg),
completa seis anos de testes bemsucedidos na capital americana.
Partindo das antevisões de três paranormais resultantes de
uma mutação genética induzida, os policiais sabem
exatamente quais homicídios serão cometidos, quem serão
seus autores e qual a identidade das vítimas. Em 100% dos casos,
conseguem prender os assassinos antes que eles matem. A demonstração
prática desse método é o centro da fabulosa seqüência
inicial. Mergulhados num tanque cheio com uma espécie de líquido
amniótico, os paranormais chamados "precogs",
numa abreviatura de précognitivos são atormentados
pelas suas visões de mortes. A cada espasmo desses, um aparelho
grava duas bolas de madeira, semelhantes às de bilhar: uma com
o nome do assassino, outra com o da vítima. Bolas marrons equivalem
a crimes premeditados, enquanto as vermelhas assinalam atos passionais,
que requerem máxima urgência. Ao mesmo tempo, as imagens
que os precogs vêem são transmitidas para os policiais, que
tentam organizálas numa tela, como um quebracabeça,
antes de partir para interromper o crime em progresso. Spielberg traduz
esse processo angustiante e estranho com aquela que cada vez mais é
a sua marca registrada: uma concepção visual tão
meticulosa e palpável que é como se esse mundo futuro estivesse
sendo documentado, e não imaginado.
Do ponto
de vista do combate à violência, o PréCrime
é um avanço sem precedentes. Mas ele contém questões
morais espinhosas. Em nome da segurança, é preciso abrir
mão da privacidade e da liberdade em níveis estarrecedores.
Nesse mundo criado por Dick e Spielberg, todos os cidadãos estão
sujeitos a scans de retina a cada passo. Os outdoors mandam mensagens
personalizadas aos passantes, as lojas cumprimentam os fregueses pelo
nome e sugerem itens do seu agrado, os carros sabem quem os está
dirigindo e, em caso de violação de alguma regra, tomam
a iniciativa de conduzir o motorista à polícia. Mais assustador
ainda é o fato de o Estado se outorgar o direito de prender uma
pessoa e neutralizála intelectualmente sem que ela tenha,
de fato, cometido seu crime. Todo o sistema depende de um único
ponto: a infalibilidade dos precogs. É para verificála
que o Departamento de Justiça envia um emissário à
divisão, o exseminarista e burocrata obstinado Witwer (o
irlandês Colin Farrell). Witwer parece trazer cartas marcadas na
manga. Sua missão, julga Lamar Burgess (Max von Sydow), o fundador
do PréCrime, é desacreditar o programa. Anderton tem
de vigiálo, e ele tem de vigiar Anderton tarefa que
ganha força de lei quando os precogs têm uma visão
na qual o próprio chefe do PréCrime aparece assassinando
um homem que ele nem ao menos conhece. Anderton passa, então, a
ser o alvo do sistema que ele engendrou e no qual sempre confiou de forma
absoluta.
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| Colin
Farrell, como Witwer, que chega para investigar o Pré-Crime:
um futuro com raízes no presente |
Nos primeiros
100 de seus 145 minutos, Minority Report é uma ficção
científica brilhante. Spielberg dosou com extrema parcimônia
os efeitos digitais aos quais é obrigado a recorrer e, quando os
usa, o faz de forma arrasadora a exemplo das vistas urbanas, em
que os carros correm a toda a velocidade por pistas verticais, junto às
paredes dos edifícios, e da cena em que aranhas mecânicas
invadem um cortiço para examinar a retina dos seus ocupantes. Sempre
que possível, o diretor procurou construir essa Washington futura
no sentido mais convencional da palavra. A seqüência em que
Cruise e seus perseguidores se movimentam por um emaranhado de becos usando
mochilas voadoras foi feita exatamente como as imagens sugerem
construindo um equipamento capaz de funcionar e pendurandoo nas
costas dos atores. No mais das vezes, os efeitos simplesmente se confundem
com o tecido do filme como as plantas meio animalescas que emolduram
uma cena magnífica entre Cruise e a veterana Lois Smith, criadora
dos precogs, ou a sordidez de uma sala de cirurgia clandestina na qual
Anderton substitui seus olhos por outros. No centro de Minority Report
está o que se pode chamar de um certo malestar da civilização,
tão mais assustador por ter suas raízes já bem fincadas
no presente. Não há nada mais perturbador no filme do que
os olhos quase transparentes da precog Agatha (a inglesa Samantha Morton)
ou do que a vigilância absoluta a que seus personagens estão
sujeitos.
Norteado
por esses pontos, Spielberg elabora sua escalada de ação
com uma ferocidade e uma ousadia que atestam a influência que Stanley
Kubrick e seu A.I. Inteligência Artificial tiveram
sobre ele. Não é só do estilo de Kubrick a
simetria, as cores atenuadas, as tomadas quase coreográficas
que ele assimilou um bocado. É também de seus temas e da
maneira um tanto mais descarnada de tratálos. É uma
surpresa constatar que, aos 55 anos, o diretor que foi tido como o infantilizador
do cinema parece estar iniciando uma nova vida, na qual se mostra muito
mais eficaz e criativo como um idealizador de distopias do que de utopias.
Mas, como é natural nesses momentos de transição,
há barreiras que ainda não foram vencidas. E elas se fazem
notar, de maneira muito incômoda, na última meia hora de
filme. Nela, o diretor faz uma troca abrupta da ficção
científica por um mistério policial previsível e
que nada acrescenta ao cenário que havia sido construído
até ali. Pelo contrário, subtrai dele e tira sua força.
Fica evidente que Spielberg, cedendo a impulsos antigos, pegou um desvio
de rota a fim de chegar a um desfecho menos soturno do que aquele que
se anunciava. "Se há uma parte de mim em que eu gostaria de
injetar Botox, é no meu sentimentalismo. Sei que sou um sujeito
sentimental. Mas estou tentando dar um jeito nisso", disse o diretor
recentemente à revista Entertainment Weekly. Tratase
de um esforço em franco progresso, como mostra Minority Report.
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O
verdadeiro "precog"
Poucos
autores de ficção científica foram adaptados para o cinema com tanto
sucesso quanto o americano Philip K. Dick. Além de Minority Report,
Blade Runner, de Ridley Scott, e O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven,
surgiram de contos seus. São todos ótimos exemplos da filiação de
Dick a uma vertente mais metafísica, e menos tecnológica, desse
gênero literário e também da habilidade singular do escritor
para tocar em temas que, pouco a pouco, começam a ganhar de fato
a relevância que atribuíra a eles em seu futuro imaginário. No caso
de Minority Report rodado antes dos atentados de 11 de setembro
, são quase sinistras as associações com a atual campanha
da Presidência americana para limitar as liberdades civis em troca
de maior agilidade para prender suspeitos de terrorismo. Dick talvez
tivesse apreciado a coincidência. Morto em 1982, aos 53 anos, ele
detestava e temia tudo o que lembrasse autoridade. Abandonado pelo
pai aos 5 anos, passou a infância vagando pela América da Depressão
com uma mãe fria e paupérrima. Desenvolveu agorafobia, vertigem
e, suspeita-se, esquizofrenia. Adepto da contracultura, dizia ter
tomado algumas centenas de comprimidos alucinógenos numa mesma semana.
Fosse por razões químicas ou mentais, Dick era ele próprio uma espécie
de precog: alguém capaz de antever aquilo que de pior o futuro pode
reservar.
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