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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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O dólar a 3 reais

A moeda americana subiu dez vezes
mais que a inflação e assusta governo,
empresas e consumidores

Lucila Soares

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Na semana passada, a cotação do dólar rompeu a barreira dos 3 reais. O motivo da disparada é a combinação explosiva de dois ou três ingredientes. Há a desconfiança em relação ao Brasil nos mercados internacionais, a crise nas bolsas dos Estados Unidos e, por fim, a incerteza sobre as próximas eleições para presidente. "O preço do dólar é 2,70. Tudo acima disso é fruto da aversão ao risco provocada pelo clima eleitoral", diz o economista Carlos Geraldo Langoni, que foi presidente do Banco Central. Na semana passada, a insegurança em relação ao resultado das urnas aumentou com as pesquisas que indicaram um possível segundo turno disputado entre dois oposicionistas, Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, e o petista Luís Inácio Lula da Silva. Desde o início de maio, quando começou a escalada, o dólar subiu 25%. É quase dez vezes a inflação acumulada no ano.

Com o dólar a 3 reais, a economia real vai sofrer um impacto. Os preços no atacado tendem a subir a um patamar tal que nem toda a competição nas lojas e o ritmo já recessivo da economia podem impedir o repasse para o bolso do consumidor. Traduzindo, os preços podem subir nas lojas e nos supermercados e a inflação deve estourar as metas do governo. "A situação é grave, mas não somos a Argentina de 2001", diz o economista Paulo Nogueira Batista Jr., professor da Fundação Getúlio Vargas. A conseqüência menos visível no cotidiano dos brasileiros talvez seja a mais grave para o país. É o previsível aumento da dívida interna do governo, que tem entre 20% e 25% de seu total atrelado ao dólar. A relação entre a dívida líquida e o produto interno bruto – que reflete a capacidade de um país de honrar seus compromissos – já chega perto de 60%. É uma situação financeira que detona uma cadeia de incômodos. Para começo de conversa, o risco Brasil aumenta, porque esse é um indicador da falta de confiança dos investidores. Na sexta-feira, o risco Brasil chegou a 1.965 pontos, um patamar reservado a países que estão prestes a dar o calote ou já em plena moratória – casos de Argentina e Nigéria, os únicos que as agências avaliadoras de risco consideravam mais perigosos que o Brasil.

"Não adianta reclamar. Essas agências agem no interesse de seus clientes. O ganha-pão deles é dar alertas. Mas temos de admitir que, se o Banco Central coloca os juros em 18,5%, a segunda maior taxa de juro real do mundo, é porque ele próprio está enxergando riscos no Brasil", diz um banqueiro de investimentos. De toda forma, igualar Brasil a Nigéria e Argentina é um contra-senso. Em sua visita ao Brasil na semana passada, Anne Krueger, a segunda pessoa mais poderosa do Fundo Monetário Internacional (FMI), deixou claro que o país terá ajuda no momento em que pedir. Já a Argentina e a Nigéria são recebidas com frieza e seus pedidos de acordo são tratados com desconfiança. Em momentos de grande turbulência, como o atual, a realidade econômica dá lugar a avaliações subjetivas. E o momento é de pânico nos Estados Unidos e de aversão a toda e qualquer forma de risco por parte dos investidores. O que prevalece, portanto, é a expectativa. Um exemplo numérico é o chamado risco Brasil. Por toda e qualquer medição ou comparação de indicadores que se faça, esse índice de risco, na avaliação de especialistas, não deveria ultrapassar 700 pontos, seu valor histórico. O índice está acima dos 1.900 pontos. Logo, algo como 1.200 pontos se deve ao clima eleitoral e à aversão ao risco dos estrangeiros.

Se o medo é exagerado, seus efeitos são palpáveis. As empresas que têm dívidas em dólar são as mais prejudicadas. E boa parte delas tem, porque nos últimos anos era mais negócio contrair empréstimos no exterior que pagar os juros cobrados internamente no Brasil. Em dois meses, viram seu débito em dólar crescer 25% sem que sua receita aumentasse 1 real sequer. A maioria contratou hedge (proteção) cambial, mas muitas não o fizeram para o total da dívida. É o caso da Varig, que tem hedge para apenas 60% de seus compromissos de 1,9 bilhão de reais. Segundo pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), realizada há duas semanas, 85% das 415 empresas entrevistadas – inclusive as exportadoras – estão enfrentando redução da margem de lucro e cortando custos. "Existe um pensamento simplista de que as exportadoras só ganham em épocas de dólar elevado. Mas elas também têm de investir, comprar equipamentos, tomar financiamentos, e isso afeta seu desempenho", diz a economista Clarice Messer, da Fiesp.

O economista Cláudio Adilson Gonçalez, da MCM Consultores, confirma. Muitos de seus clientes do setor de exportação estão enfrentando sérios problemas para obter financiamento. O mesmo ocorre, com conseqüências ainda mais avassaladoras, nas empresas com forte dependência de componentes importados, como os fabricantes de computador, que esperam alta de custos de até 20%. Além de pagar mais caro pelo que compram no exterior, estão tendo dificuldade para conseguir crédito. Cerca de 30% das importações são financiadas em prazo de até um ano. "Agora, quem está no fim do prazo tem de pagar o que deve e ainda importar praticamente à vista. Os prazos encolheram de doze para dois meses", diz Gonçalez.

Internamente, as expectativas também começam a desempenhar um papel mais importante que os fatos. "O risco político das eleições não se soma simplesmente ao risco da crise externa. O que acontece é uma multiplicação que extrapola o razoável", resume o ex-ministro Marcílio Marques Moreira, consultor da Merrill Lynch. E isso tem aplicação para o governo, para empresas e para as pessoas comuns. "Apesar de termos receitas em reais, nossa percepção de custo é em dólar. Por isso todo mundo vê risco numa alta acentuada do câmbio", explica o economista Edmar Bacha, consultor do BBA e ex-presidente do BNDES. Essa percepção de risco fez a economia real pisar no freio a partir de maio, quando começou a escalada do câmbio. Empresas se protegeram, decisões de investimento foram adiadas e o crédito ao consumidor ficou mais difícil.

Ainda que possa haver grandes solavancos econômicos nos próximos meses, a médio prazo o dólar não deverá sustentar-se nesse patamar. Essa é a opinião unânime de dez especialistas ouvidos por VEJA. "A moeda na faixa de 2,50 estaria num preço mais adequado", avalia o economista Roberto Giannetti da Fonseca, ex-diretor da Câmara de Comércio Exterior. Uma das evidências disso é que o impacto do câmbio sobre a inflação ainda é pequeno. Outro indício é o comportamento do mercado futuro de câmbio. Na sexta-feira, a cotação para o fim de agosto mostrava 1 dólar abaixo de 3 reais. Além disso, a perspectiva de acordo com o Fundo Monetário Internacional reduz muito o risco de um descontrole total da economia. Não só porque influi positivamente no nível de confiança dos investidores como porque dá mais fôlego ao Banco Central para, se for necessário, injetar dólares na economia em quantidades ainda maiores que os 50 milhões por dia que vêm sendo destinados, em média, para segurar as cotações.

O problema é que, no regime de câmbio flutuante, é impossível fazer previsões capazes de acalmar os mercados. "Nesse regime, só há uma certeza científica: a de que o câmbio flutua", diz, com a ironia de sempre, o deputado Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, que não teme cotações "no infinito", mas não descarta a possibilidade de novos repiques. Curiosamente, a imprevisibilidade que decorre do regime flutuante tem uma vantagem. Quando a economia acende luz vermelha, o dólar absorve a expectativa negativa, enquanto num regime de câmbio controlado a única arma para controlar a situação é aumentar a taxa de juros – um remédio de efeitos colaterais recessivos. Na opinião de alguns analistas, a alta do dólar pode até, no médio prazo, ser benéfica para o país. "Podemos mudar as contas externas do país, aumentando as exportações e importando muito menos. Isso pode ser um poderoso estímulo à reativação econômica", diz Edmar Bacha.

Essa avaliação positiva, entretanto, tem um horizonte de médio prazo. Ao longo deste segundo semestre, o ambiente certamente continuará conturbado, e as eleições introduzem um elemento a mais de insegurança. Nessa situação, é preciso cuidado redobrado ao escolher em que investir. O principal conselho dos especialistas é deixar as aplicações de risco para os profissionais (veja quadro abaixo). "É hora de ser conservador e ponderado", diz o economista-chefe do Lloyds TSB, Odair Abate. Quem optar pelo dólar, por sua vez, deve levar em conta que é uma boa escolha para quem aposta no caos – é um dinheiro imune a guinadas de política econômica. Mas, com cotações nesse patamar, o horizonte de obter algum ganho expressivo é distante e, no curto prazo, a perda é quase inevitável.

 

Com reportagem de Adriana Carvalho

 




 

 
 
   
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