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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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O império está nu

A queda nas bolsas americanas já
fez sumir uma riqueza de 7 trilhões
de dólares, num momento em que
os EUA enfrentam pela primeira vez
a oposição de alguns fiéis aliados

Eurípedes Alcântara e Raul Juste Lores


Reuters
A bandeira gigante em Wall Street: as fraudes corporativas estão custando caro


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Entrevista com a economista americana Laura Tyson
O colosso americano e o sumiço de 7 trilhões de dólares
Os novos pilares do capitalismo
Nesta edição
O dólar a 3 reais
Na internet
Notícias diárias sobre a economia

Estourou no colo de George W. Bush. A promessa de prosperidade permanente que a internet e a popularização dos computadores trouxeram nos anos 90 se evaporou. Na semana passada, assistia-se nos Estados Unidos a lances do fim de um ciclo econômico dos mais felizes e breves da história do capitalismo. A década de 90, que poderia ser lembrada como o marco zero da "nova economia", acabou ganhando uma reputação mais bizarra. Os analistas dizem que a atual crise de credibilidade produzida por empresários de companhias como a Enron e a WorldCom, que queriam ser mais espertos do que a esperteza, tem muito a ver com o estouro da bolha de euforia, a tal "exuberância irracional" da década passada. Em menos de trinta meses, o valor das ações das empresas dos EUA perdeu um naco de 7 trilhões de dólares, quase o PIB somado de todos os países da União Européia. Alguns dos ídolos empresariais da década passada, aqueles que dividiam as capas das revistas com Tom Cruise e Gwyneth Paltrow, estão sendo processados ou se encontram presos. "Os escândalos corporativos, as volatilidades, o pânico nas bolsas, tudo isso deriva de um único fenômeno, o estouro da bolha dos anos 90", disse a VEJA a professora americana Laura D'Andrea Tyson, que dirige a London Business School.


Bush parece ainda paralisado pela crise. Nem de longe lembra o guerreiro que extraiu de dentro de si mesmo depois dos ataques terroristas de 11 de setembro. Quando se tratou de apagar o incêndio em Wall Street, Bush voltou a ser aquele político vacilante, disléxico e confuso das primeiras semanas na Casa Branca. Enquanto isso, a crise se avoluma. Os erros de umas poucas empresas estão afetando todas as outras e puxando as bolsas para baixo. São tantos os desapontamentos envolvendo principalmente companhias de telecomunicações e de alta tecnologia, as queridinhas da década de 90, que o público comprador de ações nos Estados Unidos começa a desconfiar que boa parte das alegrias que viveu pode ter sido uma grande ilusão coletiva. Como os americanos têm 40% de sua poupança em ações, a sensação de ter sido enganados machuca. A geração atual não seria a primeira a cair na tentação da riqueza fácil. Nem será a última. Os EUA dos anos 90 podem ter vivido uma daquelas "ilusões populares" descritas pela primeira vez há 150 anos pelo historiador escocês Charles Mackay. Em sua obra, ele relata alguns episódios de especulação em que bulbos de tulipa ou pedaços de terra em regiões inóspitas passaram a valer fortunas pela momentânea loucura coletiva dos mercados. Em 1841, o escocês escreveu que "as ambições irreais acabam sempre se transformando em pavores reais". Em certa medida, esse era o clima nas bolsas americanas na semana que passou. Não é para menos. Muita gente ficou um tempão achando a coisa mais normal do mundo que uma livraria virtual, a Amazon. com, pudesse valer em bolsa 43% mais que a maior empresa industrial do mundo, a General Motors, centenária fabricante de carros e caminhões. Hoje se descobre que isso era um exagero de momento. "As pessoas agora querem identificar e punir culpados", afirma Robert Samuelson, colunista da revista noticiosa Newsweek.



AP
Bush com militares: a força não é opção para quem quer liderar o mundo

Na quarta-feira, ao cabo de uma operação orquestrada pela Casa Branca, pelo Congresso e pelas autoridades financeiras e policiais, o mercado de ações sofreu um choque positivo. O governo anunciou novas medidas regulatórias dos mercados e a polícia prendeu John Rigas, o fundador e principal acionista da companhia de telecomunicações Adelphia, que, no fim de uma falência fraudulenta, deixou um mico de 40 bilhões de dólares nas mãos de seus investidores. A bolsa subiu mais de 6% em um único dia, depois de duas semanas em que só andou no azul uma única vez. Foi um suspiro apenas. A semana acabou com os índices que medem a variação das ações em baixas históricas. O temor agora é de a quebra das bolsas transbordar para a economia real americana. Seria um complicador. Teoricamente, isso é provável. As experiências anteriores de crises nas bolsas mostram que, para cada dólar que o investidor americano perde em ações, ele deixa de gastar 6 centavos nas lojas. É um movimento defensivo. Puro instinto. Como a soma das perdas na bolsa passa de 7 trilhões de dólares, os economistas calculam que o povo mais consumista da Terra vai poupar algumas centenas de bilhões que poderiam aquecer a economia. Por enquanto, a maioria das empresas americanas vem se saindo relativamente bem. A inflação está sob controle, e a previsão de crescimento do PIB é de 3,75%. Ela foi feita por Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco central americano.

AP
John Rigas, fundador da empresa Adelphia: sua prisão levantou as bolsas


A ascensão e o declínio do modelo das empresas digitais dos anos 90, as pontocom, constituem uma história das mais interessantes. Não apenas pelo fato de a maré de prosperidade que elas geraram ter subido tão alto e despencado tão cedo. Os estudiosos dizem que, comparativamente com a década que passou, a geração do pós-guerra nos Estados Unidos experimentou uma escalada bem mais satisfatória nos índices de qualidade de vida. Os anos 90 foram intrigantes por outros motivos. Reviveu-se neles aquele período heróico dos primeiros anos do século americano, quando os chamados "barões ladrões", como Andrew Carnegie, John Rockefeller e Jay Gould, construíram suas fortunas e as lendas em torno deles. Os anos 90 foram dominados por reputações semelhantes de empreendedorismo. Antes de serem pegos com lápis e borracha alterando balanços, chefes de empresa como Ken Lay, da Enron, e Bernie Ebbers, da WorldCom, eram tidos apenas como empresários agressivos. E espertos. Eles tinham entendido a lógica da nova economia e adaptado suas empresas a ela. Por essa razão, o estopim da crise foi a morte das pontocom. A previsão de Larry Ellison, fundador da fabricante de software Oracle, de que apenas uma em cada 1.000 empresas sobreviveria no Vale do Silício, parecia exagerada há apenas dois anos. Bem, sobrou uma em cada 4.000.

A onda de choque seguinte pegou as empresas de telecomunicações dos dois lados do Atlântico, como a francesa Vivendi e a americana WorldCom, que entrou em concordata deixando a descoberto dívidas com bancos e fornecedores que somam 40 bilhões de dólares. Na fase mais recente, a crise contaminou as ações das grandes empresas da economia real. O valor de mercado da General Electric despencou de 500 bilhões de dólares para algo em torno de 220 bilhões na semana passada, uma perda de 56%. A Intel, fabricante de seis em cada dez chips de computador, valia um terço. As ações da Disney, que parecia tão distante da nova economia quanto Patópolis da realidade brasileira, valiam na semana passada meros 38% do que chegaram a custar no auge do mercado acionário, o mês de março de 2000. O valor da Coca-Cola caiu pela metade. "A maioria dessas empresas certamente vai recuperar-se mas sua maneira de operar internamente e fora nunca mais será a mesma", diz o economista Martin Feldstein, da Universidade Harvard. Muito do que parecia qualidade nos anos 90 agora parece pecado. Os analistas acham que chegou ao fim o domínio dos CEOs, os principais executivos das companhias, do tipo papai-sabe-tudo. "A governança corporativa, ou seja, a transparência nas decisões, era considerada coisa de frescos nos anos 90. Agora ficou séria", observa Feldstein.

Enquanto não se encontra uma saída, os economistas temem que a crise salte das bolsas para as ruas. "Os Estados Unidos estão enfrentando uma corrida contra o tempo. Se não corrigirem logo seus problemas, a crise pode se alastrar. Se chegar aos bancos, a coisa fica mais séria", disse a VEJA o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade Princeton. O temor maior é que os Estados Unidos entrem num ciclo recessivo. Seria ruim para o mundo todo. Os americanos compram hoje dos outros países 1,3 trilhão de dólares. Isso equivale a um quarto de todas as exportações mundiais. Significa que, de cada quatro contêineres embarcados em qualquer porto do mundo, um toma o rumo dos Estados Unidos. "As pessoas deveriam torcer muito mais para uma reforma pacífica do sistema que por sua derrocada", diz Scheinkman.

Uma análise mais serena da crise atual aponta para uma forte possibilidade de o sistema acionar seu mecanismo autolimpante, como já fez no passado. "Ambição e ganância são elementos centrais do capitalismo. Sem eles o sistema não funciona. Ocorre que durante todo o governo Clinton e no de George W. Bush não houve fiscalização e os excessos acabaram numa crise", diz Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue, entidade que se empenha em manter abertos os canais de comunicação entre os Estados Unidos e seus parceiros do continente. Hakim não acredita que a crise deságüe no declínio do sistema americano ou em sua substituição pelo modelo europeu ou asiático, ambos com grande participação do Estado na economia. "Acho que teremos muito mais regras a curto prazo, mas quando o sistema recuperar a confiança ele voltará a ser forte", diz Hakim.

O império americano vive um mau momento. Depois de atraírem uma onda de simpatia mundial como vítima dos atentados terroristas de 11 de setembro, os Estados Unidos agora estão alienando aliados históricos, que se sentem fortes o bastante para contradizer o amigo poderoso. Seria assim se a crise econômica não o tivesse enfraquecido? Teria sido diferente. "Com a economia em crise, os Estados Unidos são um superpoder solitário, sem poder verdadeiro, um líder mundial que ninguém mais quer imitar", constata Immanuel Wallerstein, professor da Universidade Yale. Ele diz que, de um poder central, os Estados Unidos tendem a se tornar uma potência interdependente. "O melhor a fazer é aceitar esse novo status quo", afirma o professor de Yale. "A força militar continuará sendo a carta mais forte dos Estados Unidos, mas é melhor não usá-la."

A revista inglesa The Economist escreveu na edição da semana passada que George W. Bush perdeu um pouco o rumo. Ele anda mais arrogante do que é costume nos ocupantes da Casa Branca. Não atendeu a uma ligação do presidente Fernando Henrique Cardoso, que pretendia reclamar de uma declaração desastrosa de Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Também esnobou Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra, que procurava obter mais informações sobre a decisão americana de invadir o Iraque para derrubar Saddam Hussein. Japão e Coréia, dois dos mais fiéis aliados dos americanos, decidiram não apoiar a investida de Bush no Iraque. No campo econômico, o protecionismo à agricultura e ao aço está arranhando a imagem de defensor do livre-comércio que os Estados Unidos cultivaram. "O governo americano precisa preocupar-se com o nível de ressentimento que o comportamento agressivo e unilateral pode disseminar entre seus maiores aliados", escreveu o professor Stephen Brooks, do departamento de governo da Dartmouth College, na última edição da revista Foreign Affairs. "A influência é mais valiosa para os interesses americanos que o poder." A ascendência de um país sobre os vizinhos e de uma potência sobre o mundo é diretamente proporcional à sua riqueza. O estilo de vida americano, propagado por Hollywood e pelo rock, não se tornaria tão universalmente aceito se não representasse uma sociedade vencedora no campo material. Por essa razão, quando o mundo percebe na crise atual da economia americana uma fragilidade do sistema, sua influência tende a diminuir. Bush não enxerga, mas o império pode estar nu, como o rei da fábula.

Com reportagem de Adriana Carvalho

 

Entrevista

"É preciso aumentar
a fiscalização"

A economista americana diz que
o estouro da bolha da internet
foi o estopim da crise


Berkeleys Haas Scholl of Bussiness
Laura Tyson: não vai haver mais demissões, mas a criação de novos empregos deve ser afetada


Aos 55 anos, Laura D'Andrea Tyson é uma das mais influentes personalidades da economia em todo o mundo. Consultora econômica do ex-presidente Bill Clinton em seu primeiro mandato, foi a mulher que ocupou o mais alto cargo na Casa Branca. Neste ano, ela quebrou novos tabus ao assumir a reitoria de uma das mais tradicionais escolas de negócios do planeta, a London Business School, que nunca tivera em 37 anos de funcionamento uma mulher sequer em seu quadro de professores. De seu escritório em Londres, Laura Tyson falou à repórter de VEJA Adriana Carvalho.

VEJA – O modelo americano de capitalismo está passando por sua pior crise em décadas. Como foi possível chegar a uma situação tão desastrosa?
Tyson –
Boa parte do problema se deve ainda ao estouro da bolha econômica dos anos 90. Só agora nos demos conta daquilo que Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco central americano, chamou de "exuberância irracional". Vivemos um longo período em que investidores, peritos em contabilidade, advogados, jornalistas, homens de negócios e o público em geral esperavam das empresas um retorno financeiro muito elevado e irreal. Essas expectativas irracionais colocaram enorme pressão sobre as empresas para que atingissem as metas desejadas. Não há como culpar apenas os líderes. Na verdade, a bolha criou um ambiente para que todos os indivíduos se comportassem de maneira cada vez mais arriscada e agressiva.

VEJA – A crise atual pode ser comparada ao crash das bolsas em 1929?
Tyson –
Há semelhanças e diferenças importantes entre as duas crises. Falemos primeiro sobre as semelhanças. Os anos 20 foram um período de revolução tecnológica, o mercado de capitais tinha bastante liquidez, a cultura das bolsas de valores ganhou espaço e cada vez mais investidores entraram no mercado. Além disso, o preço das ações em relação ao que as companhias de fato valiam também estava fora da realidade. As ações estavam sobrevalorizadas. Então, certamente há similaridades. Quando se examinam as diferenças, é possível ver que as conseqüências agora não devem ser tão nefastas. Hoje existe um sistema de proteção do mercado muito maior, para evitar que a crise financeira crie uma nova depressão. Em 1929 tivemos também um evento simbólico da crise, a chamada Quinta-Feira Negra. Mas logo se soube que ela não era um fato isolado. Foi a reverberação de outros acontecimentos. Hoje vemos o reflexo da quebra em massa das empresas virtuais, as pontocom, o que abalou a confiança dos investidores. Quando as pontocom entraram em colapso, os efeitos nas companhias de telecomunicações foram muito duros, porque elas apostaram bastante na oferta de serviços ligados à alta tecnologia. Uma vez que as empresas de internet e tecnologia estavam em baixa, a demanda por serviços especiais de telecomunicações, os mais rentáveis para as companhias, caiu também. Isso levou as empresas desse setor a uma situação de caixa péssima.

VEJA – A senhora acredita que venham por aí mais escândalos de fraudes?
Tyson –
Gostaria de dizer que não concordo com o termo "fraude", que está sendo usado para classificar esses escândalos. Os casos que ocorreram ainda não foram julgados, e não se provou a culpa das companhias. É preciso esclarecer muitas questões antes que se faça um julgamento final. Será necessário estabelecer com clareza se os padrões atuais de contabilidade são intrinsecamente errados ou se são bons mas foram violados. Isso é vital. De toda forma, será preciso aumentar a fiscalização sobre as empresas de auditoria. Está sendo até discutida a criação de um órgão regulador, como a SEC (que fiscaliza o mercado financeiro), para a indústria da contabilidade.

VEJA – Vai ser mais difícil retomar o crescimento daqui para a frente?
Tyson –
A visão neste momento é de que a economia americana continuará se recuperando lentamente, mas não vai cair em recessão. Como ela tem influência sobre o mundo, não acho que vá haver mais demissões, mas a criação de novos empregos deve ser afetada.



 
 

 

 

 

   
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