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O império está nuA queda
nas bolsas americanas já
Eurípedes Alcântara e Raul Juste Lores
Estourou no colo de George W. Bush. A promessa de prosperidade permanente que a internet e a popularização dos computadores trouxeram nos anos 90 se evaporou. Na semana passada, assistia-se nos Estados Unidos a lances do fim de um ciclo econômico dos mais felizes e breves da história do capitalismo. A década de 90, que poderia ser lembrada como o marco zero da "nova economia", acabou ganhando uma reputação mais bizarra. Os analistas dizem que a atual crise de credibilidade produzida por empresários de companhias como a Enron e a WorldCom, que queriam ser mais espertos do que a esperteza, tem muito a ver com o estouro da bolha de euforia, a tal "exuberância irracional" da década passada. Em menos de trinta meses, o valor das ações das empresas dos EUA perdeu um naco de 7 trilhões de dólares, quase o PIB somado de todos os países da União Européia. Alguns dos ídolos empresariais da década passada, aqueles que dividiam as capas das revistas com Tom Cruise e Gwyneth Paltrow, estão sendo processados ou se encontram presos. "Os escândalos corporativos, as volatilidades, o pânico nas bolsas, tudo isso deriva de um único fenômeno, o estouro da bolha dos anos 90", disse a VEJA a professora americana Laura D'Andrea Tyson, que dirige a London Business School.
Na quarta-feira,
ao cabo de uma operação orquestrada pela Casa Branca, pelo
Congresso e pelas autoridades financeiras e policiais, o mercado de ações
sofreu um choque positivo. O governo anunciou novas medidas regulatórias
dos mercados e a polícia prendeu John Rigas, o fundador e principal
acionista da companhia de telecomunicações Adelphia, que,
no fim de uma falência fraudulenta, deixou um mico de 40 bilhões
de dólares nas mãos de seus investidores. A bolsa subiu
mais de 6% em um único dia, depois de duas semanas em que só
andou no azul uma única vez. Foi um suspiro apenas. A semana acabou
com os índices que medem a variação das ações
em baixas históricas. O temor agora é de a quebra das bolsas
transbordar para a economia real americana. Seria um complicador. Teoricamente,
isso é provável. As experiências anteriores de crises
nas bolsas mostram que, para cada dólar que o investidor americano
perde em ações, ele deixa de gastar 6 centavos nas lojas.
É um movimento defensivo. Puro instinto. Como a soma das perdas
na bolsa passa de 7 trilhões de dólares, os economistas
calculam que o povo mais consumista da Terra vai poupar algumas centenas
de bilhões que poderiam aquecer a economia. Por enquanto, a maioria
das empresas americanas vem se saindo relativamente bem. A inflação
está sob controle, e a previsão de crescimento do PIB é
de 3,75%. Ela foi feita por Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco
central americano.
A onda de choque seguinte pegou as empresas de telecomunicações dos dois lados do Atlântico, como a francesa Vivendi e a americana WorldCom, que entrou em concordata deixando a descoberto dívidas com bancos e fornecedores que somam 40 bilhões de dólares. Na fase mais recente, a crise contaminou as ações das grandes empresas da economia real. O valor de mercado da General Electric despencou de 500 bilhões de dólares para algo em torno de 220 bilhões na semana passada, uma perda de 56%. A Intel, fabricante de seis em cada dez chips de computador, valia um terço. As ações da Disney, que parecia tão distante da nova economia quanto Patópolis da realidade brasileira, valiam na semana passada meros 38% do que chegaram a custar no auge do mercado acionário, o mês de março de 2000. O valor da Coca-Cola caiu pela metade. "A maioria dessas empresas certamente vai recuperar-se mas sua maneira de operar internamente e fora nunca mais será a mesma", diz o economista Martin Feldstein, da Universidade Harvard. Muito do que parecia qualidade nos anos 90 agora parece pecado. Os analistas acham que chegou ao fim o domínio dos CEOs, os principais executivos das companhias, do tipo papai-sabe-tudo. "A governança corporativa, ou seja, a transparência nas decisões, era considerada coisa de frescos nos anos 90. Agora ficou séria", observa Feldstein. Enquanto não se encontra uma saída, os economistas temem que a crise salte das bolsas para as ruas. "Os Estados Unidos estão enfrentando uma corrida contra o tempo. Se não corrigirem logo seus problemas, a crise pode se alastrar. Se chegar aos bancos, a coisa fica mais séria", disse a VEJA o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade Princeton. O temor maior é que os Estados Unidos entrem num ciclo recessivo. Seria ruim para o mundo todo. Os americanos compram hoje dos outros países 1,3 trilhão de dólares. Isso equivale a um quarto de todas as exportações mundiais. Significa que, de cada quatro contêineres embarcados em qualquer porto do mundo, um toma o rumo dos Estados Unidos. "As pessoas deveriam torcer muito mais para uma reforma pacífica do sistema que por sua derrocada", diz Scheinkman. Uma análise mais serena da crise atual aponta para uma forte possibilidade de o sistema acionar seu mecanismo autolimpante, como já fez no passado. "Ambição e ganância são elementos centrais do capitalismo. Sem eles o sistema não funciona. Ocorre que durante todo o governo Clinton e no de George W. Bush não houve fiscalização e os excessos acabaram numa crise", diz Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue, entidade que se empenha em manter abertos os canais de comunicação entre os Estados Unidos e seus parceiros do continente. Hakim não acredita que a crise deságüe no declínio do sistema americano ou em sua substituição pelo modelo europeu ou asiático, ambos com grande participação do Estado na economia. "Acho que teremos muito mais regras a curto prazo, mas quando o sistema recuperar a confiança ele voltará a ser forte", diz Hakim. O império americano vive um mau momento. Depois de atraírem uma onda de simpatia mundial como vítima dos atentados terroristas de 11 de setembro, os Estados Unidos agora estão alienando aliados históricos, que se sentem fortes o bastante para contradizer o amigo poderoso. Seria assim se a crise econômica não o tivesse enfraquecido? Teria sido diferente. "Com a economia em crise, os Estados Unidos são um superpoder solitário, sem poder verdadeiro, um líder mundial que ninguém mais quer imitar", constata Immanuel Wallerstein, professor da Universidade Yale. Ele diz que, de um poder central, os Estados Unidos tendem a se tornar uma potência interdependente. "O melhor a fazer é aceitar esse novo status quo", afirma o professor de Yale. "A força militar continuará sendo a carta mais forte dos Estados Unidos, mas é melhor não usá-la." A revista inglesa The Economist escreveu na edição da semana passada que George W. Bush perdeu um pouco o rumo. Ele anda mais arrogante do que é costume nos ocupantes da Casa Branca. Não atendeu a uma ligação do presidente Fernando Henrique Cardoso, que pretendia reclamar de uma declaração desastrosa de Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Também esnobou Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra, que procurava obter mais informações sobre a decisão americana de invadir o Iraque para derrubar Saddam Hussein. Japão e Coréia, dois dos mais fiéis aliados dos americanos, decidiram não apoiar a investida de Bush no Iraque. No campo econômico, o protecionismo à agricultura e ao aço está arranhando a imagem de defensor do livre-comércio que os Estados Unidos cultivaram. "O governo americano precisa preocupar-se com o nível de ressentimento que o comportamento agressivo e unilateral pode disseminar entre seus maiores aliados", escreveu o professor Stephen Brooks, do departamento de governo da Dartmouth College, na última edição da revista Foreign Affairs. "A influência é mais valiosa para os interesses americanos que o poder." A ascendência de um país sobre os vizinhos e de uma potência sobre o mundo é diretamente proporcional à sua riqueza. O estilo de vida americano, propagado por Hollywood e pelo rock, não se tornaria tão universalmente aceito se não representasse uma sociedade vencedora no campo material. Por essa razão, quando o mundo percebe na crise atual da economia americana uma fragilidade do sistema, sua influência tende a diminuir. Bush não enxerga, mas o império pode estar nu, como o rei da fábula. Com reportagem de Adriana Carvalho
VEJA
O modelo americano de capitalismo está passando
por sua pior crise em décadas. Como foi possível chegar
a uma situação tão desastrosa? VEJA
A crise atual pode ser comparada ao crash das bolsas em
1929? VEJA
A senhora acredita que venham por aí mais escândalos
de fraudes? VEJA
Vai ser mais difícil retomar o crescimento daqui
para a frente? |
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