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A culpa
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Renan Cepeda![]() |
| A
SOBREVIVENTE "Em setembro de 1989, o avião em que eu estava, um Boeing 737-200 da Varig, fez um pouso forçado no meio da selva em Mato Grosso. Dos 53 ocupantes, doze morreram. Ficamos três dias na mata, sem comida nem remédios. Até hoje me culpo por não ter ajudado mais. Lembro-me dos gritos de dor, das pessoas presas nas ferragens. Vi uma senhora pedir socorro, mas como havia o medo de explosão preferi deixar o avião e não voltei para ajudar. Ela também sobreviveu, e a vi no dia seguinte. Foi horrível, passei a sentir remorso por meu egoísmo. Também me senti culpada em relação a meu marido, que vivia dizendo que não agüentava mais minhas viagens constantes a Belém, mas eu era ambiciosa e não lhe dava ouvidos." Maria de Fátima Nóbrega 45 anos, engenheira |
A lista é uma oportunidade de radiografar a crise existencial na sociedade contemporânea. Muito do que hoje provoca dor na consciência nem sequer teria merecido um segundo do pensamento de nossos antepassados. A culpa pelo pecado e o temor a Deus, por exemplo, perderam importância, enquanto o pesar ligado à dedicação insuficiente aos filhos e à família e as relações no trabalho ganharam destaque. Antes, bastava estar de bem com as leis da Igreja para se ver livre das principais fontes de culpa. As rígidas regras de conduta social deixavam pouca margem de manobra e, ao menor sinal de falha, era suficiente se confessar ou rezar. Se as coisas são diferentes agora é porque ocorreu durante o século XX uma grande revolução nos valores e no comportamento sociais. Diferentemente do que reclamam os saudosistas, a humanidade não degenerou do ponto de vista da ética. Os direitos do homem, por exemplo, são uma criação do século XVIII, mas só depois da II Guerra se tornaram prioritários na consciência de um número significativo de países e pessoas. "Os grandes episódios de culpa coletiva, como os decorrentes do genocídio nazista e da Guerra do Vietnã, não teriam ocorrido dois ou três séculos atrás", observa Mayra Rodrigues Gomes, professora de ética na Universidade de São Paulo (USP). A grande diferença com o passado é o homem contemporâneo ter-se tornado livre para fazer o que quer. Com isso, aumentaram as probabilidades de ele incorrer em culpas e dilemas morais.
O impacto
mais poderoso, no que diz respeito ao sentimento de culpa individual,
está relacionado às alterações nas relações
familiares. O modelo tradicional, em que o pai centralizava as normas
da casa, foi substituído por relações menos rígidas
e mais amigáveis. Esse é mais um dado positivo. O problema
é que o novo cenário doméstico criou pais com dificuldade
para impor limites à prole. Uma das culpas mais sentidas pelos
brasileiros decorre do fato de terem dito "não" ou, de modo paradoxal,
de não conseguirem dizer "não" aos filhos. Conciliar filhos
e carreira é o grande dilema da mulher e fonte inesgotável
de culpa para o sexo feminino. Se ela trabalha, culpa-se por não
passar o tempo que deveria com os filhos. Se não trabalha, culpa-se
por não ajudar no orçamento familiar. A mudança de
comportamento da mulher nos últimos quarenta anos trouxe uma onda
adicional de remorso: a busca pelo prazer sexual. Como fazê-lo sem
culpa, se tão pouco tempo atrás isso era visto como algo
pecaminoso aos olhos da religião e condenável perante a
moral da sociedade? A contrapartida da emancipação feminina
foi a angústia dos homens. Isso se reflete, em muitos casos, em
um excesso de autocrítica, principalmente, em relação
ao desempenho sexual. E, é claro, os homens acabam se culpando
por isso.
Claudio Rossi![]() |
| POUCO
TEMPO PARA OS FILHOS "Tenho de administrar minha carreira, meu marido e nossos cinco filhos: três de 8 anos de idade, uma de 10 e outra de 14. Todos os dias, acordo antes das 6 da manhã, despacho todo mundo para a escola e vou para o meu escritório. Dependendo da quantidade de trabalho, não volto para casa antes das 10 da noite. Quando meus filhos já estão dormindo, dói o coração. Nessas horas, fico pensando se vale mesmo a pena levar uma vida tão corrida. Nos fins de semana, fico grudada a eles para compensar minha ausência." Fernanda Marques 36 anos, arquiteta |
A infidelidade ganhou ares de modernidade quando deixou de ser prerrogativa essencialmente masculina mas continua a ser uma enorme fonte de culpa. Implica, entre outras coisas, ferir os sentimentos do parceiro. A publicitária M.F., de 26 anos, não se perdoa por ter traído o namorado. Com uma viagem de seis meses marcada para a Espanha, ela, antes de embarcar, prometeu a ele que nada mudaria até sua volta. Lá, contudo, se encantou com um espanhol. Ela tentou esconder que estava tendo um caso. Mas, por engano, ela enviou um e-mail ao namorado e ele descobriu a infidelidade. De volta ao Brasil, o namorado a perdoou, mas não reataram o namoro. Foi difícil esconder a mágoa. "É a coisa de que mais me arrependo de ter feito na vida. Vi como é possível ferir os sentimentos de alguém", lamenta M.F. O e-mail enviado ao destinatário errado pode ser um tipo inconsciente de autopunição. Quem sente culpa muitas vezes encontra meios de punir a si próprio. Há casos, narrados por psicólogos, de pessoas acometidas por sentimentos de culpa avassaladores, que se envolveram intencionalmente em acidentes de trânsito. Historicamente, culpa e punição são as duas faces da moeda. É natural que alguém atingido por uma desgraça a morte de um filho, a perda de uma colheita, uma doença grave pergunte, de forma retórica, o que fez para merecer tamanha punição. Como o castigo só existe em razão de um pecado, essa pessoa passa a se sentir culpada e conclui que realmente algum mal ela cometeu para receber tamanha imolação.
A tradição
judaico-cristã contém uma parábola perfeita de escolha
moral e de culpa. Adão e Eva comem o fruto da Árvore do
Conhecimento. Logo descobrem que estão nus e que são responsáveis
por decisões que venham a tomar. Não apenas são expulsos
do paraíso como também deixam de herança o pecado
original, um fardo que exige expiação perpétua da
humanidade. Depois de matar o irmão, Abel, Caim não apenas
é declarado culpado. Ele é também marcado na face,
o que o obriga a exibir até o fim da vida o sinal de sua infâmia.
"A primeira verdade que o homem tem na existência é a de
que ele vai morrer. Descobre isso entre os 4 e os 5 anos de idade", diz
o psicoterapeuta Ari Rehfeld, de São Paulo. "O fato de sabermos
que somos finitos faz com que a questão da escolha seja fundamental.
E, nesse processo, o indivíduo sempre deixa alguma oportunidade
para trás. Isso pode gerar muita culpa." Tudo seria mais simples
se as escolhas colocadas diante de cada ser humano fossem sempre entre
o bem e o mal. Só umas poucas pessoas chegam a tomar decisões
de tal magnitude em algum momento da vida. A maior parte das opções
é feita entre vários tons de cinza, o que leva aos limites
a ambigüidade moral, pessoal e cultural de cada um. "Numa sociedade
livre, a pessoa sempre vai arrepender-se, em maior ou menor grau, de ter
feito esta ou aquela escolha", observa Mario Sérgio Cortella, professor
do departamento de teologia e ciência da religião da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo.
Claudio Rossi![]() |
| QUANDO
A MORTE FAZ PARTE DA ROTINA "Perder um paciente no campo de batalha é uma das experiências mais dolorosas da vida. Há pouco menos de um mês, eu perdi uma paciente de câncer e ainda não me recuperei. E ela morreu me agradecendo. Fica a dor de não conseguir atingir o objetivo a que nos propusemos. Lidar com o doente de câncer é um desafio ainda maior. O tratamento pode se estender por muito tempo e é preciso estar sempre bem para encorajá-lo nessa luta. No fim do dia, tenho dezenas de telefonemas para retornar. Isso faz uma diferença enorme para eles, e só me custa um pouco mais de tempo." Antonio Carlos Buzaid diretor executivo do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo |
Uma das culpas
mais intensas é o ressentimento por coisas que não foram
realizadas na hora certa e no momento exato em que deveriam. É
freqüente a dor do filho por não ter demonstrado amor ou gratidão
aos pais. A maioria só percebe a falta quando um deles adoece ou
morre. Como quase sempre é tarde demais para mudar, constitui um
tipo de remorso que se carrega para o resto da vida. Uma psicóloga
paulista conta o caso do diretor de uma multinacional que recebeu o recado
de que o filho tinha telefonado, querendo falar com o pai o mais rápido
possível. Como estava atrasado para uma reunião com seus
subordinados, ele decidiu não retornar a ligação.
Mais tarde descobriu que o filho havia se ferido gravemente ao cair da
bicicleta e precisou da ajuda do vizinho para chegar ao hospital. Sempre
que se lembra disso, o pai fica estático, sente a boca seca e uma
leve queimação no estômago. Pensa no que deveria ter
feito e deixou de fazer, e esses pensamentos não lhe saem da cabeça.
O remorso que gera impotência e sofrimento é o principal
sintoma da culpa. Trata-se de uma das sensações mais insuportáveis
que o ser humano pode vivenciar.
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Antonio Milena
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| A
ÚLTIMA VEZ QUE VI MEU PAI "Aos 10 anos tive de tomar a decisão mais difícil de minha vida: escolher entre a vida e a morte. Filha de pais separados, costumava passar as férias com meu pai. Naquele ano de 1940, eu iria ficar quinze dias em Lwow, onde ele vivia com a nova esposa e meu irmãozinho. Os alemães tinham ocupado a Polônia. Um caminhão que transportava os judeus aos guetos estacionou em frente de casa. Quando ia subir com meu pai, um senhor cristão, contratado por minha mãe, veio para levar-me de volta. No meio da confusão, meu pai me disse: 'Eu não posso te dizer quem de nós vai sobreviver, se eu ou sua mãe. Você decide com quem quer ficar'. Optei por ir ao encontro dela. É a última imagem que tenho de meu pai. Ainda guardo o remorso de ter abandonado o barco. Foi o momento mais difícil de minha vida, mais do que os ratos, as torturas, o gueto, o medo de ser fuzilada." Henrietta Braun, 72 anos, sobrevivente do holocausto |
Sentimentos como inveja, raiva e medo de falhar (no sexo, no trabalho
e na vida familiar) lideram o ranking de remorsos modernos. Surgem, principalmente,
em situações cotidianas, em que é preciso competir.
O mercado de trabalho exige posturas e atitudes que muitas vezes ferem
os princípios éticos. Quem nunca sentiu uma pontinha de
inveja do colega que acaba de ser promovido? Ou, então, não
se culpou por não ter correspondido às expectativas do chefe?
O dia-a-dia nos escritórios é cada vez mais sufocante. O
funcionário nunca está plenamente satisfeito e sempre acha
que poderia ter tido desempenho melhor. Além disso, principalmente
no caso dos homens, é comum sentir-se cobrado pela sociedade ou
pela própria família por não ter o carro do ano,
a casa na praia ou aquela cobertura dos sonhos da mulher. A incapacidade
de aceitar as próprias falhas também gera culpa. Ela é
de tal forma uma tortura que a pessoa tende a jogar a responsabilidade
pelo erro sobre alguém à mão, um colega, o chefe,
o subordinado. Um problema freqüente nos escritórios é
a dificuldade em manter o controle emocional em situações
de stress algo condenável pelo manual de boas maneiras das
grandes corporações. Que atire a primeira pedra quem nunca
perdeu a cabeça por um motivo irrelevante e se arrependeu depois.
Uma nova
angústia ganhou força no mundo: a culpa pela desinformação.
Homens e mulheres se martirizam porque não assistiram ao noticiário
de televisão, não devoraram as notícias "importantes"
dos jornais, não estão a par dos acontecimentos que influem
na economia, não leram o livro tão comentado pelos colegas
de escritório. Sofrem por não conseguir assimilar tudo o
que é produzido de novo em sua área de atuação
profissional. Nem poderiam digerir tudo. Atualmente existem cerca de 3
bilhões de páginas disponíveis na internet. Só
uma edição de um jornal como o New York Times contém
mais informação do que uma pessoa comum poderia receber
durante toda a vida na Inglaterra do século XVII. "Com o nível
de exigência da sociedade atual, o indivíduo tem a sensação
de que nunca sabe o suficiente", diz a psicanalista baiana Urania Tourinho
Peres. "Na maioria das vezes, acha que o colega conhece mais do que ele
e acaba se culpando por isso."
Claudio Rossi![]() |
| DOENÇA
PASSADA DE MÃE PARA FILHO "Sou portadora de um gene que causa uma doença degenerativa grave, a distrofia muscular. Ela afeta apenas os filhos homens e vai atrofiando os principais músculos do corpo. Sem saber, passei o problema para dois de meus filhos. Renato, o mais velho, morreu aos 19 anos. Só tomei conhecimento do problema quando eles eram pequenos. Percebi que Renato tinha os movimentos lentos para um garoto de sua idade. Ao levá-lo a uma consulta, ouvi do médico o diagnóstico e uma sentença de culpa: 'A senhora não deveria ter se casado, muito menos ter tido filhos'. Foi brutal. Eu e meu marido ficamos arrasados. Ele me confortou dizendo que não poderíamos imaginar que isso aconteceria. Foi um alívio ouvir isso dele. Hoje nos dedicamos completamente ao André." Ayaka Suegama, 55 anos, mãe de André, de 16, vítima de distrofia muscular |
Comer demais é outra razão para sofrimento mental atualmente. Numa sociedade em que a beleza é fundamental, homens e mulheres que querem perder peso a qualquer custo se mortificam por não resistir a um sanduíche cheio de camadas, bem guarnecido com maionese e amparado por gordas fatias de pão macio. De chocolate e doces nem é preciso falar. A comilança também tortura, porque a alimentação está diretamente associada a uma vida saudável. Os dois principais distúrbios psiquiátricos ligados à culpa por não possuir o corpo ideal, a bulimia (apetite insaciável seguido de vômito) e a anorexia (repulsa a alimentos), eram raríssimos dez anos atrás. Hoje são freqüentes nos consultórios médicos. Os maiores pecados da advogada paulistana Simone Jardim, de 30 anos, são assaltar a geladeira entre as refeições e sempre ter um pacote de bolachas ou uma barra de chocolate a tiracolo. "Tenho compulsão por comer, e isso me traz muita culpa", conta ela, que tem 1,65 metro e 57 quilos. "Passo o dia ansiosa, pensando em queimar gordura nas aulas de ginástica."
Acredite:
a culpa é parte essencial da natureza humana. Os cientistas neodarwinistas,
que tentam explicar o nascimento dos sentimentos humanos à luz
da evolução, colocam-na no centro do processo de humanização,
na Idade do Gelo. Durante esse período, quando a humanidade esteve
confinada numa área geográfica pequena e com recursos escassos,
se teriam desenvolvido as regras básicas de convivência familiar.
Em especial, a condenação do incesto, mecanismo de repressão
que, na opinião desses cientistas, só se tornou possível
com o desenvolvimento do sentimento de culpa (que para eles é também
a base do culto aos mortos e da própria idéia de imortalidade
e de religiosidade). A psicanálise, que tenta entender o funcionamento
da mente humana, concorda em que a culpa é essencial para estabelecer
limites e possibilitar o convívio em sociedade. O remorso é
a única forma de fazer alguém aceitar a ética e a
moral impostas pela cultura de cada povo. O austríaco Sigmund Freud,
pai da psicanálise, sustentava que a culpa surge nos primeiros
anos de vida, quando a criança sente remorso por ter ciúme
do pai, que monopoliza as atenções da mãe. É
o chamado complexo de Édipo. No desenvolvimento normal do indivíduo,
esse conflito está na base da formação de uma personalidade
capaz de limitar os impulsos instintivos. Num grau exacerbado, que depende
da história de cada pessoa, vira complexo de culpa e torna-se fonte
de angústias terríveis.
Antonio Milena![]() |
| O
PESO DE SER O CHEFE "Um dos momentos mais difíceis para uma pessoa que ocupa cargo de chefia é na hora de demitir alguém. Já tive de dispensar pessoas que haviam se tornado minhas amigas fora do ambiente de trabalho. Tive de ser firme e profissional, mas não foi nada fácil. Nunca é. Quando isso acontece, sempre fico remoendo pensamentos, imaginando se tomei a decisão certa, se era a hora apropriada. Sempre procuro alertar o funcionário diretamente quando ele não está desempenhando bem o seu papel dentro da empresa. É uma forma de me sentir menos culpada se tiver de demiti-lo depois." Silvana Case 43 anos, vice-presidente executiva do Grupo Catho |
Sentir culpa não é necessariamente ruim nem doentio. "O que cada um faz com seus sentimentos é que pode transformar-se em doença", afirma Geraldo Massaro, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Existem as sensações de culpa naturais, como infringir uma regra social ou moral. Negar ajuda a um amigo, por exemplo. Muitos brasileiros sentem-se perturbados por desrespeitar regras religiosas. No caso de católicos, trata-se dos sete pecados capitais inveja, luxúria, soberba, gula, avareza, preguiça e ira. Mas há pessoas que têm tendência a se sentir culpadas o tempo todo. Qualquer problema é remetido a uma culpa maior, inconsciente. Em outras palavras, transforma-se em neurose. É perfeitamente possível que uma pessoa provoque acidentalmente uma morte e não se sinta responsável por isso. Já outra que não tenha a menor parcela de responsabilidade em um acidente, pelo simples fato de ter escapado com vida, pode sentir-se culpada. Esse fenômeno é observado sobretudo em sobreviventes de grandes tragédias que os colocaram no limite entre a vida e a morte. Ao resistirem, torturam-se por acreditar que poderiam ter feito mais para ajudar quem não sobreviveu. Ou, então, questionam-se todo o tempo sobre o porquê de estar vivos enquanto tantos outros não tiveram a mesma sorte. São sentimentos que dependem da história e dos valores éticos e morais de cada indivíduo.
Não existe alguém que nunca tenha sentido remorso uma vez na vida, seja porque brigou com o chefe e foi demitido, seja porque deixou de visitar a mãe quando ela mais precisava de sua companhia. "Uma pessoa pode não se arrepender de fatos isolados, como a profissão que escolheu, a casa que comprou", analisa Sonia Eva Tucherman, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. "Mas, quando o assunto envolve sentimentos e relacionamentos interpessoais, isso é impossível." A culpa ultrapassa os limites da normalidade e torna-se uma doença quando as lembranças do que se fez, ou ainda do que se poderia ter feito, ficam remoendo incessantemente os pensamentos. É uma espécie de tortura mental. O atormentado passa a ter comportamento melancólico, isola-se dos amigos e da família e, em casos extremos, tenta o suicídio. "É um paradoxo mas, quanto mais fechada e pacata é uma pessoa, mais culpa ela carrega", observa o psicanalista Oscar Cesarotto. Quando ultrapassa os limites e se torna exagerada, a culpa é devastadora. Mantém o indivíduo amarrado ao passado, corrói a qualidade de vida do presente e o impede de fazer planos e se lançar ao futuro.
Apenas os psicopatas, aqueles com sérios distúrbios de caráter, são capazes de infringir regras sem sentir o mínimo arrependimento por isso. Não há consenso entre os médicos sobre as razões dessa ausência de um sentimento tão essencial. Especula-se sobre falha genética, bioquímica e até sobre traumas sofridos na infância. Dados da Organização Mundial de Saúde mostram que 1% da população mundial é portadora do distúrbio. Ou seja, uma em cada 100 pessoas é capaz de causar o mal sem ter um pingo de remorso. Não há remédio comprovado para o sentimento de culpa, e isso é o que o torna um dos problemas de tratamento mais difícil nos consultórios médicos. No máximo, consegue-se aliviar seus efeitos. Não há receita para conviver bem com a culpa exceto aprender a passar a limpo os problemas e a aceitar o remorso. Outra forma de se livrar dela é a prática religiosa, de eficácia comprovada há séculos. Na época em que os portugueses chegaram ao Brasil, prevalecia a certeza de que a culpa só seria expiada por meio da fé. Esse pensamento perdeu importância no século XIX, quando a fé passou a rivalizar com a ciência para os intelectuais da época, a ciência significava a verdade e a religião, a ignorância.
Ocorre que, nos dias de hoje, o confessionário, como forma de expiar culpas, faz falta ao homem contemporâneo. "Em algumas situações, o terapeuta cumpre a função de padre e ouve a confissão da pessoa", disse a VEJA James Hollis, diretor do Centro de Estudos Jung de Houston, nos Estados Unidos, dedicado a estudos terapêuticos. "Mas ele não age como um representante divino e não pode oferecer graça nem perdão." Talvez a ausência de um bom antídoto ao mais antigo dos males da alma seja a explicação aceitável para o sucesso dos cultos coletivos comuns nas congregações evangélicas e no Movimento de Renovação Carismática, da Igreja Católica, em que o fiel busca a redenção ao pedi-la diretamente a Deus. "Ao contrário do que se imaginava, o mundo moderno abriu um vazio que só a prática religiosa tem sido capaz de preencher", avalia o professor Mario Sérgio Cortella. Não é à toa que tanta gente ainda encontra na religião conforto para sua culpa.
Com
reportagem de
Daniel Hessel Teich,
José Eduardo Barella, Natasha Madov e Ricardo Mendonça
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As principais fontes de remorso das pessoas
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HOMENS E MULHERES As principais culpas deles... |
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possível conviver melhor com |
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