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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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A culpa
de cada um

Novos motivos para se sentir culpado
tornam esse sentimento um dos tormentos
da vida moderna. Mas há como aprender
a conviver melhor com ele

Anna Paula Buchalla e Rosana Zakabi

A mulher acaba de conseguir um novo emprego e, mal recebe o primeiro salário, vai às compras e reabastece o guarda-roupa, que andava desfalcado. Sai da loja carregada de sacolas e, junto, vem um recibo de culpa. A mãe passa quase o dia todo fora de casa, fica pouco com os filhos e, antes de colocá-los para dormir, beija-os com a sensação ruim de que precisa fazer alguma coisa para ficar mais junto deles. O executivo esconde informações dos colegas, mente para receber os méritos pelo trabalho da equipe e, como conseqüência, obtém uma bela promoção. Quando se lembra do comportamento no trabalho, vem aquela sensação esquisita de estar fazendo coisa errada. A adolescente inventa uma história para os pais. Diz que vai viajar com a turma e parte para uma inesquecível e romântica viagem a dois. Diverte-se, mas não esconde uma pontinha de remorso. Nos dias de hoje, ninguém, exceto aqueles com personalidade psicopática, está livre do sentimento de culpa. O que inflou esse sentimento ancestral a ponto de transformá-lo num dos tormentos da vida moderna foi o surgimento de uma infinidade de novos motivos para se sentir culpado. VEJA perguntou a uma dezena de consagrados psicanalistas e psicólogos no Brasil e no exterior quais dessas queixas são levadas com maior freqüência a seus consultórios. Veja o resultado da ponderação das respostas no quadro que alinha as principais fontes de remorso da vida moderna.


Renan Cepeda
A SOBREVIVENTE
"Em setembro de 1989, o avião em que eu estava, um Boeing 737-200 da Varig, fez um pouso forçado no meio da selva em Mato Grosso. Dos 53 ocupantes, doze morreram. Ficamos três dias na mata, sem comida nem remédios. Até hoje me culpo por não ter ajudado mais. Lembro-me dos gritos de dor, das pessoas presas nas ferragens. Vi uma senhora pedir socorro, mas como havia o medo de explosão preferi deixar o avião e não voltei para ajudar. Ela também sobreviveu, e a vi no dia seguinte. Foi horrível, passei a sentir remorso por meu egoísmo. Também me senti culpada em relação a meu marido, que vivia dizendo que não agüentava mais minhas viagens constantes a Belém, mas eu era ambiciosa e não lhe dava ouvidos."
Maria de Fátima Nóbrega
45 anos, engenheira

A lista é uma oportunidade de radiografar a crise existencial na sociedade contemporânea. Muito do que hoje provoca dor na consciência nem sequer teria merecido um segundo do pensamento de nossos antepassados. A culpa pelo pecado e o temor a Deus, por exemplo, perderam importância, enquanto o pesar ligado à dedicação insuficiente aos filhos e à família e as relações no trabalho ganharam destaque. Antes, bastava estar de bem com as leis da Igreja para se ver livre das principais fontes de culpa. As rígidas regras de conduta social deixavam pouca margem de manobra e, ao menor sinal de falha, era suficiente se confessar ou rezar. Se as coisas são diferentes agora é porque ocorreu durante o século XX uma grande revolução nos valores e no comportamento sociais. Diferentemente do que reclamam os saudosistas, a humanidade não degenerou do ponto de vista da ética. Os direitos do homem, por exemplo, são uma criação do século XVIII, mas só depois da II Guerra se tornaram prioritários na consciência de um número significativo de países e pessoas. "Os grandes episódios de culpa coletiva, como os decorrentes do genocídio nazista e da Guerra do Vietnã, não teriam ocorrido dois ou três séculos atrás", observa Mayra Rodrigues Gomes, professora de ética na Universidade de São Paulo (USP). A grande diferença com o passado é o homem contemporâneo ter-se tornado livre para fazer o que quer. Com isso, aumentaram as probabilidades de ele incorrer em culpas e dilemas morais.

O impacto mais poderoso, no que diz respeito ao sentimento de culpa individual, está relacionado às alterações nas relações familiares. O modelo tradicional, em que o pai centralizava as normas da casa, foi substituído por relações menos rígidas e mais amigáveis. Esse é mais um dado positivo. O problema é que o novo cenário doméstico criou pais com dificuldade para impor limites à prole. Uma das culpas mais sentidas pelos brasileiros decorre do fato de terem dito "não" ou, de modo paradoxal, de não conseguirem dizer "não" aos filhos. Conciliar filhos e carreira é o grande dilema da mulher – e fonte inesgotável de culpa para o sexo feminino. Se ela trabalha, culpa-se por não passar o tempo que deveria com os filhos. Se não trabalha, culpa-se por não ajudar no orçamento familiar. A mudança de comportamento da mulher nos últimos quarenta anos trouxe uma onda adicional de remorso: a busca pelo prazer sexual. Como fazê-lo sem culpa, se tão pouco tempo atrás isso era visto como algo pecaminoso aos olhos da religião e condenável perante a moral da sociedade? A contrapartida da emancipação feminina foi a angústia dos homens. Isso se reflete, em muitos casos, em um excesso de autocrítica, principalmente, em relação ao desempenho sexual. E, é claro, os homens acabam se culpando por isso.


Claudio Rossi
POUCO TEMPO PARA OS FILHOS
"Tenho de administrar minha carreira, meu marido e nossos cinco filhos: três de 8 anos de idade, uma de 10 e outra de 14. Todos os dias, acordo antes das 6 da manhã, despacho todo mundo para a escola e vou para o meu escritório. Dependendo da quantidade de trabalho, não volto para casa antes das 10 da noite. Quando meus filhos já estão dormindo, dói o coração. Nessas horas, fico pensando se vale mesmo a pena levar uma vida tão corrida. Nos fins de semana, fico grudada a eles para compensar minha ausência."
Fernanda Marques
36 anos, arquiteta

A infidelidade ganhou ares de modernidade quando deixou de ser prerrogativa essencialmente masculina – mas continua a ser uma enorme fonte de culpa. Implica, entre outras coisas, ferir os sentimentos do parceiro. A publicitária M.F., de 26 anos, não se perdoa por ter traído o namorado. Com uma viagem de seis meses marcada para a Espanha, ela, antes de embarcar, prometeu a ele que nada mudaria até sua volta. Lá, contudo, se encantou com um espanhol. Ela tentou esconder que estava tendo um caso. Mas, por engano, ela enviou um e-mail ao namorado – e ele descobriu a infidelidade. De volta ao Brasil, o namorado a perdoou, mas não reataram o namoro. Foi difícil esconder a mágoa. "É a coisa de que mais me arrependo de ter feito na vida. Vi como é possível ferir os sentimentos de alguém", lamenta M.F. O e-mail enviado ao destinatário errado pode ser um tipo inconsciente de autopunição. Quem sente culpa muitas vezes encontra meios de punir a si próprio. Há casos, narrados por psicólogos, de pessoas acometidas por sentimentos de culpa avassaladores, que se envolveram intencionalmente em acidentes de trânsito. Historicamente, culpa e punição são as duas faces da moeda. É natural que alguém atingido por uma desgraça – a morte de um filho, a perda de uma colheita, uma doença grave – pergunte, de forma retórica, o que fez para merecer tamanha punição. Como o castigo só existe em razão de um pecado, essa pessoa passa a se sentir culpada e conclui que realmente algum mal ela cometeu para receber tamanha imolação.

A tradição judaico-cristã contém uma parábola perfeita de escolha moral e de culpa. Adão e Eva comem o fruto da Árvore do Conhecimento. Logo descobrem que estão nus e que são responsáveis por decisões que venham a tomar. Não apenas são expulsos do paraíso como também deixam de herança o pecado original, um fardo que exige expiação perpétua da humanidade. Depois de matar o irmão, Abel, Caim não apenas é declarado culpado. Ele é também marcado na face, o que o obriga a exibir até o fim da vida o sinal de sua infâmia. "A primeira verdade que o homem tem na existência é a de que ele vai morrer. Descobre isso entre os 4 e os 5 anos de idade", diz o psicoterapeuta Ari Rehfeld, de São Paulo. "O fato de sabermos que somos finitos faz com que a questão da escolha seja fundamental. E, nesse processo, o indivíduo sempre deixa alguma oportunidade para trás. Isso pode gerar muita culpa." Tudo seria mais simples se as escolhas colocadas diante de cada ser humano fossem sempre entre o bem e o mal. Só umas poucas pessoas chegam a tomar decisões de tal magnitude em algum momento da vida. A maior parte das opções é feita entre vários tons de cinza, o que leva aos limites a ambigüidade moral, pessoal e cultural de cada um. "Numa sociedade livre, a pessoa sempre vai arrepender-se, em maior ou menor grau, de ter feito esta ou aquela escolha", observa Mario Sérgio Cortella, professor do departamento de teologia e ciência da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


Claudio Rossi
QUANDO A MORTE FAZ PARTE DA ROTINA
"Perder um paciente no campo de batalha é uma das experiências mais dolorosas da vida. Há pouco menos de um mês, eu perdi uma paciente de câncer e ainda não me recuperei. E ela morreu me agradecendo. Fica a dor de não conseguir atingir o objetivo a que nos propusemos. Lidar com o doente de câncer é um desafio ainda maior. O tratamento pode se estender por muito tempo e é preciso estar sempre bem para encorajá-lo nessa luta. No fim do dia, tenho dezenas de telefonemas para retornar. Isso faz uma diferença enorme para eles, e só me custa um pouco mais de tempo."
Antonio Carlos Buzaid
diretor executivo do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo

Uma das culpas mais intensas é o ressentimento por coisas que não foram realizadas na hora certa e no momento exato em que deveriam. É freqüente a dor do filho por não ter demonstrado amor ou gratidão aos pais. A maioria só percebe a falta quando um deles adoece ou morre. Como quase sempre é tarde demais para mudar, constitui um tipo de remorso que se carrega para o resto da vida. Uma psicóloga paulista conta o caso do diretor de uma multinacional que recebeu o recado de que o filho tinha telefonado, querendo falar com o pai o mais rápido possível. Como estava atrasado para uma reunião com seus subordinados, ele decidiu não retornar a ligação. Mais tarde descobriu que o filho havia se ferido gravemente ao cair da bicicleta e precisou da ajuda do vizinho para chegar ao hospital. Sempre que se lembra disso, o pai fica estático, sente a boca seca e uma leve queimação no estômago. Pensa no que deveria ter feito e deixou de fazer, e esses pensamentos não lhe saem da cabeça. O remorso que gera impotência e sofrimento é o principal sintoma da culpa. Trata-se de uma das sensações mais insuportáveis que o ser humano pode vivenciar.

Antonio Milena
A ÚLTIMA VEZ QUE VI MEU PAI
"Aos 10 anos tive de tomar a decisão mais difícil de minha vida: escolher entre a vida e a morte. Filha de pais separados, costumava passar as férias com meu pai. Naquele ano de 1940, eu iria ficar quinze dias em Lwow, onde ele vivia com a nova esposa e meu irmãozinho. Os alemães tinham ocupado a Polônia. Um caminhão que transportava os judeus aos guetos estacionou em frente de casa. Quando ia subir com meu pai, um senhor cristão, contratado por minha mãe, veio para levar-me de volta. No meio da confusão, meu pai me disse: 'Eu não posso te dizer quem de nós vai sobreviver, se eu ou sua mãe. Você decide com quem quer ficar'. Optei por ir ao encontro dela. É a última imagem que tenho de meu pai. Ainda guardo o remorso de ter abandonado o barco. Foi o momento mais difícil de minha vida, mais do que os ratos, as torturas, o gueto, o medo de ser fuzilada."
Henrietta Braun, 72 anos,
sobrevivente do holocausto


Sentimentos como inveja, raiva e medo de falhar (no sexo, no trabalho e na vida familiar) lideram o ranking de remorsos modernos. Surgem, principalmente, em situações cotidianas, em que é preciso competir. O mercado de trabalho exige posturas e atitudes que muitas vezes ferem os princípios éticos. Quem nunca sentiu uma pontinha de inveja do colega que acaba de ser promovido? Ou, então, não se culpou por não ter correspondido às expectativas do chefe? O dia-a-dia nos escritórios é cada vez mais sufocante. O funcionário nunca está plenamente satisfeito e sempre acha que poderia ter tido desempenho melhor. Além disso, principalmente no caso dos homens, é comum sentir-se cobrado pela sociedade ou pela própria família por não ter o carro do ano, a casa na praia ou aquela cobertura dos sonhos da mulher. A incapacidade de aceitar as próprias falhas também gera culpa. Ela é de tal forma uma tortura que a pessoa tende a jogar a responsabilidade pelo erro sobre alguém à mão, um colega, o chefe, o subordinado. Um problema freqüente nos escritórios é a dificuldade em manter o controle emocional em situações de stress – algo condenável pelo manual de boas maneiras das grandes corporações. Que atire a primeira pedra quem nunca perdeu a cabeça por um motivo irrelevante e se arrependeu depois.

Uma nova angústia ganhou força no mundo: a culpa pela desinformação. Homens e mulheres se martirizam porque não assistiram ao noticiário de televisão, não devoraram as notícias "importantes" dos jornais, não estão a par dos acontecimentos que influem na economia, não leram o livro tão comentado pelos colegas de escritório. Sofrem por não conseguir assimilar tudo o que é produzido de novo em sua área de atuação profissional. Nem poderiam digerir tudo. Atualmente existem cerca de 3 bilhões de páginas disponíveis na internet. Só uma edição de um jornal como o New York Times contém mais informação do que uma pessoa comum poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII. "Com o nível de exigência da sociedade atual, o indivíduo tem a sensação de que nunca sabe o suficiente", diz a psicanalista baiana Urania Tourinho Peres. "Na maioria das vezes, acha que o colega conhece mais do que ele e acaba se culpando por isso."


Claudio Rossi
DOENÇA PASSADA DE MÃE PARA FILHO
"Sou portadora de um gene que causa uma doença degenerativa grave, a distrofia muscular. Ela afeta apenas os filhos homens e vai atrofiando os principais músculos do corpo. Sem saber, passei o problema para dois de meus filhos. Renato, o mais velho, morreu aos 19 anos. Só tomei conhecimento do problema quando eles eram pequenos. Percebi que Renato tinha os movimentos lentos para um garoto de sua idade. Ao levá-lo a uma consulta, ouvi do médico o diagnóstico e uma sentença de culpa: 'A senhora não deveria ter se casado, muito menos ter tido filhos'. Foi brutal. Eu e meu marido ficamos arrasados. Ele me confortou dizendo que não poderíamos imaginar que isso aconteceria. Foi um alívio ouvir isso dele. Hoje nos dedicamos completamente ao André."
Ayaka Suegama, 55 anos,
mãe de André, de 16, vítima de distrofia muscular

Comer demais é outra razão para sofrimento mental atualmente. Numa sociedade em que a beleza é fundamental, homens e mulheres que querem perder peso a qualquer custo se mortificam por não resistir a um sanduíche cheio de camadas, bem guarnecido com maionese e amparado por gordas fatias de pão macio. De chocolate e doces nem é preciso falar. A comilança também tortura, porque a alimentação está diretamente associada a uma vida saudável. Os dois principais distúrbios psiquiátricos ligados à culpa por não possuir o corpo ideal, a bulimia (apetite insaciável seguido de vômito) e a anorexia (repulsa a alimentos), eram raríssimos dez anos atrás. Hoje são freqüentes nos consultórios médicos. Os maiores pecados da advogada paulistana Simone Jardim, de 30 anos, são assaltar a geladeira entre as refeições e sempre ter um pacote de bolachas ou uma barra de chocolate a tiracolo. "Tenho compulsão por comer, e isso me traz muita culpa", conta ela, que tem 1,65 metro e 57 quilos. "Passo o dia ansiosa, pensando em queimar gordura nas aulas de ginástica."

Acredite: a culpa é parte essencial da natureza humana. Os cientistas neodarwinistas, que tentam explicar o nascimento dos sentimentos humanos à luz da evolução, colocam-na no centro do processo de humanização, na Idade do Gelo. Durante esse período, quando a humanidade esteve confinada numa área geográfica pequena e com recursos escassos, se teriam desenvolvido as regras básicas de convivência familiar. Em especial, a condenação do incesto, mecanismo de repressão que, na opinião desses cientistas, só se tornou possível com o desenvolvimento do sentimento de culpa (que para eles é também a base do culto aos mortos e da própria idéia de imortalidade e de religiosidade). A psicanálise, que tenta entender o funcionamento da mente humana, concorda em que a culpa é essencial para estabelecer limites e possibilitar o convívio em sociedade. O remorso é a única forma de fazer alguém aceitar a ética e a moral impostas pela cultura de cada povo. O austríaco Sigmund Freud, pai da psicanálise, sustentava que a culpa surge nos primeiros anos de vida, quando a criança sente remorso por ter ciúme do pai, que monopoliza as atenções da mãe. É o chamado complexo de Édipo. No desenvolvimento normal do indivíduo, esse conflito está na base da formação de uma personalidade capaz de limitar os impulsos instintivos. Num grau exacerbado, que depende da história de cada pessoa, vira complexo de culpa e torna-se fonte de angústias terríveis.


Antonio Milena
O PESO DE SER O CHEFE
"Um dos momentos mais difíceis para uma pessoa que ocupa cargo de chefia é na hora de demitir alguém. Já tive de dispensar pessoas que haviam se tornado minhas amigas fora do ambiente de trabalho. Tive de ser firme e profissional, mas não foi nada fácil. Nunca é. Quando isso acontece, sempre fico remoendo pensamentos, imaginando se tomei a decisão certa, se era a hora apropriada. Sempre procuro alertar o funcionário diretamente quando ele não está desempenhando bem o seu papel dentro da empresa. É uma forma de me sentir menos culpada se tiver de demiti-lo depois."
Silvana Case
43 anos, vice-presidente executiva do Grupo Catho

Sentir culpa não é necessariamente ruim nem doentio. "O que cada um faz com seus sentimentos é que pode transformar-se em doença", afirma Geraldo Massaro, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Existem as sensações de culpa naturais, como infringir uma regra social ou moral. Negar ajuda a um amigo, por exemplo. Muitos brasileiros sentem-se perturbados por desrespeitar regras religiosas. No caso de católicos, trata-se dos sete pecados capitais – inveja, luxúria, soberba, gula, avareza, preguiça e ira. Mas há pessoas que têm tendência a se sentir culpadas o tempo todo. Qualquer problema é remetido a uma culpa maior, inconsciente. Em outras palavras, transforma-se em neurose. É perfeitamente possível que uma pessoa provoque acidentalmente uma morte e não se sinta responsável por isso. Já outra que não tenha a menor parcela de responsabilidade em um acidente, pelo simples fato de ter escapado com vida, pode sentir-se culpada. Esse fenômeno é observado sobretudo em sobreviventes de grandes tragédias que os colocaram no limite entre a vida e a morte. Ao resistirem, torturam-se por acreditar que poderiam ter feito mais para ajudar quem não sobreviveu. Ou, então, questionam-se todo o tempo sobre o porquê de estar vivos enquanto tantos outros não tiveram a mesma sorte. São sentimentos que dependem da história e dos valores éticos e morais de cada indivíduo.

Não existe alguém que nunca tenha sentido remorso uma vez na vida, seja porque brigou com o chefe e foi demitido, seja porque deixou de visitar a mãe quando ela mais precisava de sua companhia. "Uma pessoa pode não se arrepender de fatos isolados, como a profissão que escolheu, a casa que comprou", analisa Sonia Eva Tucherman, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. "Mas, quando o assunto envolve sentimentos e relacionamentos interpessoais, isso é impossível." A culpa ultrapassa os limites da normalidade e torna-se uma doença quando as lembranças do que se fez, ou ainda do que se poderia ter feito, ficam remoendo incessantemente os pensamentos. É uma espécie de tortura mental. O atormentado passa a ter comportamento melancólico, isola-se dos amigos e da família e, em casos extremos, tenta o suicídio. "É um paradoxo mas, quanto mais fechada e pacata é uma pessoa, mais culpa ela carrega", observa o psicanalista Oscar Cesarotto. Quando ultrapassa os limites e se torna exagerada, a culpa é devastadora. Mantém o indivíduo amarrado ao passado, corrói a qualidade de vida do presente e o impede de fazer planos e se lançar ao futuro.

Apenas os psicopatas, aqueles com sérios distúrbios de caráter, são capazes de infringir regras sem sentir o mínimo arrependimento por isso. Não há consenso entre os médicos sobre as razões dessa ausência de um sentimento tão essencial. Especula-se sobre falha genética, bioquímica e até sobre traumas sofridos na infância. Dados da Organização Mundial de Saúde mostram que 1% da população mundial é portadora do distúrbio. Ou seja, uma em cada 100 pessoas é capaz de causar o mal sem ter um pingo de remorso. Não há remédio comprovado para o sentimento de culpa, e isso é o que o torna um dos problemas de tratamento mais difícil nos consultórios médicos. No máximo, consegue-se aliviar seus efeitos. Não há receita para conviver bem com a culpa exceto aprender a passar a limpo os problemas e a aceitar o remorso. Outra forma de se livrar dela é a prática religiosa, de eficácia comprovada há séculos. Na época em que os portugueses chegaram ao Brasil, prevalecia a certeza de que a culpa só seria expiada por meio da fé. Esse pensamento perdeu importância no século XIX, quando a fé passou a rivalizar com a ciência – para os intelectuais da época, a ciência significava a verdade e a religião, a ignorância.

Ocorre que, nos dias de hoje, o confessionário, como forma de expiar culpas, faz falta ao homem contemporâneo. "Em algumas situações, o terapeuta cumpre a função de padre e ouve a confissão da pessoa", disse a VEJA James Hollis, diretor do Centro de Estudos Jung de Houston, nos Estados Unidos, dedicado a estudos terapêuticos. "Mas ele não age como um representante divino e não pode oferecer graça nem perdão." Talvez a ausência de um bom antídoto ao mais antigo dos males da alma seja a explicação aceitável para o sucesso dos cultos coletivos comuns nas congregações evangélicas e no Movimento de Renovação Carismática, da Igreja Católica, em que o fiel busca a redenção ao pedi-la diretamente a Deus. "Ao contrário do que se imaginava, o mundo moderno abriu um vazio que só a prática religiosa tem sido capaz de preencher", avalia o professor Mario Sérgio Cortella. Não é à toa que tanta gente ainda encontra na religião conforto para sua culpa.

 

Com reportagem de Daniel Hessel Teich,
José Eduardo Barella, Natasha Madov e Ricardo Mendonça

 

MEA-CULPA

As principais fontes de remorso das pessoas

FALTA DE TEMPO PARA A FAMÍLIA: o homem se ressente de se dedicar pouco à mulher e aos filhos. A mulher que trabalha sente remorso por deixar os filhos em casa.

PAIS QUE NÃO IMPÕEM LIMITES: os pais culpam-se por não saber dizer não e por não estabelecer regras rígidas para os filhos.

INFIDELIDADE: homens e mulheres se condenam por infringir as regras morais e pela traição ao parceiro.

NÃO CORRESPONDER ÀS CONDIÇÕES FINANCEIRAS EXIGIDAS: é um tormento não poder dar à família os bens materiais que se gostaria de dar. O oposto, ou seja, ter mais que os outros, também gera remorso.

SEXO: não satisfazer o parceiro é motivo de angústia para homens e mulheres. O homossexualismo é outra fonte de culpa.

COMPETIÇÃO NO TRABALHO: muitos se cobram por nunca atingir as metas da empresa. Também sentem remorso por disputar com colegas promoção e benefícios.

A CULPA DO SOBREVIVENTE: pessoas que saem vivas de um acidente, provocado ou não por elas, costumam carregar o peso da impotência por não ter evitado a tragédia.

PRINCÍPIOS RELIGIOSOS: infringir regras da própria religião perturba os fiéis. Um exemplo clássico são os sete pecados capitais da Igreja Católica: inveja, luxúria, soberba, gula, avareza, preguiça e ira.

CULPA PELO QUE NÃO FEZ: o mais comum é o filho ressentir-se de não ter demonstrado amor pelos pais, principalmente quando um deles adoece ou morre.

 

HOMENS E MULHERES

As principais culpas deles...

NÃO ATENDER ÀS EXPECTATIVAS FEMININAS: a culpa por não satisfazer sexualmente a parceira, devido a problemas de ejaculação precoce e impotência, é típica do homem moderno. No Brasil, esse dilema atinge 62% dos homens.

FRACASSAR COMO PAI DE FAMÍLIA: impor limites sempre foi prerrogativa da figura paterna. Como as relações hoje são mais liberais, esse papel pulverizou-se. Embora sejam mais companheiros dos filhos, os pais ressentem-se da falta de pulso firme.

CONVIVER POUCO COM OS FILHOS: como trabalha demais, o homem culpa-se por não acompanhar o crescimento e o desenvolvimento dos filhos.

NÃO APROVEITAR A VIDA: essa é uma sensação tipicamente masculina. O homem sempre acha que se casou cedo demais e que poderia ter viajado e passeado mais ou ter praticado por mais tempo aquele esporte ou hobby que adora.

NÃO TER APROVAÇÃO PATERNA: em geral, os filhos homens identificam-se de tal forma com a figura do pai que buscam a todo custo corresponder às expectativas dele. Quando não conseguem, sentem-se fracassados.


...E as delas

MATERNIDADE: ter ou não ter filhos é a questão-chave na vida de uma mulher. Ela pode sentir-se culpada por trabalhar fora, ficar pouco tempo com os filhos e não educá-los como deveria. Não tê-los pode ser ainda pior: dá idéia de fracasso ou de egoísmo.

TRABALHO: mulheres que trabalham fora culpam-se por não cuidar como deveriam da casa, o que inclui os afazeres domésticos. Já a dona-de-casa se ressente de não colaborar com o orçamento doméstico. E teme um dia ser cobrada por isso.

PRAZER SEXUAL: muitas mulheres sentem remorso por querer satisfazer-se em uma relação sexual. Ou porque tiveram uma educação rígida ou por questões religiosas.

RELACIONAMENTO AFETIVO: ela sente-se responsável pelo fracasso de uma união. Mesmo não sendo a vilã, culpa-se por achar que poderia ter feito mais. Ou, então, atribui a si o erro de não ter percebido a tempo que o relacionamento estava naufragando.

SENTIR-SE ATRAÍDA POR OUTRO HOMEM: muitas se sentem culpadas pelo simples fato de desejar ou ser desejadas por outro homem que não seu companheiro. Mesmo que isso não passe da esfera da fantasia.

 

É possível conviver melhor com
o sentimento de culpa

ACEITAR AS PRÓPRIAS FALHAS: admitir os erros é o primeiro passo para se livrar da culpa.

INICIAR UM PERÍODO DE LUTO: cultivar a tristeza por um período é melhor que fingir que nada aconteceu. A dor pode ganhar proporções enormes, mas tende a diminuir com o tempo.

SUBSTITUIR AS PERDAS: se você se sente culpado por um fracasso, identifique as falhas e procure evitá-las da próxima vez.

MUDAR OBJETIVOS: nem todos os desejos podem ser realizados. Procure redirecionar seu foco.

PEDIR PERDÃO: desculpar-se com quem você prejudicou ajuda a aliviar a consciência. Perdoar a si próprio é tão importante quanto perdoar os outros.

APOIAR-SE NA FÉ: a religião ainda é a fonte mais conhecida de expiação de culpa.

PROCURAR AJUDA: psicólogos e psicanalistas auxiliam a identificar as raízes da angústia e a conviver com ela.



   
 
   
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