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O
paraíso (fiscal) perfeito
Sem
impostos nem crimes, Bermudas
atrai milionários e multinacionais
As praias são pequenas como as de Búzios, e o límpido
azul da água lembra o mar de Fernando de Noronha. A temperatura
oscila entre 20 graus no inverno e 30 no verão, e o
lugar, de tão arborizado e florido, parece um grande jardim. Bermudas,
um conjunto de 150 recifes, ilhotas e ilhas no Caribe governado pela Inglaterra,
é, acima de tudo, um paraíso para estrangeiros que querem
fugir ao Fisco no próprio país. O lugar é chamado
de "Triângulo das Bermudas dos Impostos" no Congresso dos Estados
Unidos, onde tramita uma lei para tentar impedir que empresas americanas
transfiram sua sede para lá, de modo a escapar aos tributos. Com
apenas 53 quilômetros quadrados e 65.000 habitantes, o lugar é
sede de 14.500 empresas estrangeiras, muitas delas gigantescas multinacionais.
Nas ruas de Hamilton, a capital, podem-se encontrar representantes de
75% das 100 maiores companhias americanas e das 100 maiores européias.
Junto com Londres e Nova York, é um dos grandes pólos do
setor de seguros.
Um tripé sustenta a boa vida em Bermudas. O primeiro é a
isenção de imposto de renda e qualquer taxa de movimentação
de dinheiro. O segundo é a competência dos contadores locais,
cuja tradição é jamais comentar os negócios
alheios. O terceiro ponto é a ausência de pobres. A renda
per capita de Bermudas é de 33.000 dólares, igual à
da Suíça, mas a distribuição é ainda
melhor. Sete em cada dez habitantes são de classe média
ou ricos. O orçamento do governo é folgado o suficiente
para que possa investir 12,5 milhões de dólares em cada
quilômetro quadrado do território. Se não bastasse
tudo isso, Bermudas é uma espécie de clube fechado para
milionários. A lei restringe o número de domicílios
pertencentes a estrangeiros. Para comprar uma casa, quem vem do exterior
tem de entrar numa lista de espera. Tentar achar uma barbada é
perda de tempo. Os estrangeiros podem adquirir apenas as residências
mais caras. Os valores das mansões antes dos impostos, que são
altos, variam entre 2,5 milhões e 20 milhões de dólares.
Quem consegue estabelecer-se vive num paraíso. O tráfego
é tranqüilo e as armas de fogo são proibidas. Nem a
polícia as usa. Não precisa. Há mais de oito policiais
por quilômetro quadrado. A concentração de campos
de golpe está entre as maiores do mundo. Tudo isso a apenas duas
horas de vôo de Nova York. O esplendor do arquipélago seduziu
o bilionário Michael Bloomberg, atual prefeito de Nova York, que
pagou 10,5 milhões de dólares por uma casa no Tuckers's
Town, o bairro mais caro do arquipélago. Tem por vizinho outro
bilionário, o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que
pagou 10 milhões de dólares por sua mansão. O ator
Michael Douglas e sua mulher, Catherine Zeta-Jones, contentaram-se com
uma residência de 2,5 milhões de dólares. "A discrição
das pessoas é um de nossos diferenciais", disse a VEJA Kendra Mello,
gerente da Coldwell Banker JW Bermuda Realty, uma das maiores imobiliárias
do arquipélago.
Há outras diferenças. A bermuda, por exemplo, a maior contribuição
do arquipélago à moda mundial. Sua invenção
não se deve ao espírito esportivo, mas ao conservadorismo.
Preocupados com os shorts cada vez mais curtos nas décadas de 30
e 40, os moradores criaram a conservadora bermuda, que chega até
a altura dos joelhos. Ainda hoje muitos restaurantes exigem o uso do terno
e da gravata à noite. Roupas de banho, tops decotados e shorts
são permitidos apenas nas praias. Andar de pés descalços
ou sem camisa é contravenção e dá multa. Isso
vale até para as áreas comuns dos hotéis. De modo
bem diferente das outras ilhas caribenhas, Bermudas é chique, conservadora
e cara. O custo de vida é duas vezes mais alto que na Inglaterra.
Não existem lanchonetes McDonald's, as cabines de telefone são
vermelhas como as antigas de Londres, os juízes usam peruca e o
chá da tarde é uma regra. Para evitar congestionamentos,
só se permite um automóvel por domicílio.
O arquipélago recebe 360.000 turistas por ano, que contribuem com
28% do produto interno bruto. Mas os preços salgados e o ambiente
conservador são suficientes para afastar os turistas mais jovens,
aqueles que bebem muito, fazem barulho e gastam o mínimo possível.
A única coisa que tem atrapalhado o sono do governo autônomo
de Bermudas é a movimentação no Congresso dos Estados
Unidos, onde deputados e senadores estudam fórmulas para evitar
o êxodo de empresas para paraísos fiscais. No começo
deste mês, uma comissão do Senado votou de forma unânime,
algo raro na política americana, um projeto que, se aprovado pelos
demais congressistas, será um golpe duro. As multinacionais americanas
com sede em paraísos fiscais não poderão participar
de concorrências federais. Há outros projetos de mesmo calibre.
Como o setor financeiro responde por mais de 60% do PIB do arquipélago,
é compreensível que as autoridades de Bermudas estejam preocupadas.
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