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Procura-se
um lugar ao sol
Essa
turma sabe: desfilar fora é
perder dinheiro
apostando no futuro

Silvia Rogar

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Nas
duas últimas semanas, o mundinho ferveu: os dois maiores shows
de moda do Brasil, a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio, reuniram
61 marcas e suas apostas para o próximo verão. Foi um exército
de modelos, vips na platéia, flashes espocando e um generoso investimento
total de 7,5 milhões de reais. Para cinco estilistas, a maratona
continua: Carlos Miele (M. Officer), Amir Slama (Rosa Chá), Alexandre
Herchcovitch, Walter Rodrigues e Fause Haten vão arrumar as malas
e seguir para as tradicionais e visadíssimas passarelas do Hemisfério
Norte. São todos reincidentes em desfiles internacionais. Todos,
até agora, perderam dinheiro. Se insistem, é porque vêem
na brecha para o exterior uma chance como nunca houve de fincar o salto
brasileiro em mercados ricos e, no futuro, fechar bons negócios.
A
curiosidade pela moda nacional cresceu como nunca nos anos 90, puxada
pelo furacão Gisele Bündchen. Paralelamente, a moda se organizou
no Brasil, apoiada por empresas e associações do setor.
Mas, como os estilistas estão aprendendo a duras plumas, entrar
para valer no mercado internacional é tarefa árdua. Depois
de passar por um crivo rigoroso para integrar os desfiles, ainda têm
de arcar com custos altíssimos. Um desfile que no Brasil custa
em torno de 80.000 reais no exterior chega a 100.000 dólares, ou
quase 300.000 reais. Fechada a conta da viagem e dos desfiles (à
custa, diga-se, de muitos patrocínios), o estilista ainda tem de
atrair a imprensa especializada, compradores e vips para rechear a primeira
fila isso numa agenda de desfiles que inclui nomões como
Dior, Armani e Calvin Klein. Espera-se que essa trabalheira toda contribua
para alavancar a minguada parcela brasileira mero 0,14%
no total da exportação têxtil mundial. "Acho que temos
boas chances de crescer a médio prazo", acredita Carlos Ferreirinha,
consultor para negócios de moda da Associação Brasileira
da Indústria Têxtil (Abit). A meta da entidade é elevar
as exportações nacionais de 1,3 bilhão para 4 bilhões
de dólares até 2007. Para que isso ocorra, é fundamental
que os estilistas consigam estabelecer um pé lá fora.
Dos
cinco que vão promover desfiles no exterior, três apostam
na tal brasilidade para atrair atenções. Amir Slama criou
para a Rosa Chá uma coleção cheia de verde, papagaios,
palmeiras e trilha sonora que tem até trecho do Hino Nacional.
Sua marca, que vai desfilar pela segunda vez em Nova York, no ano passado
exportou 40.000 peças, ou 9% da produção. Muito contribuiu
sua ultra-insistente campanha junto às revistas-bíblias
da moda: hoje em dia, não há editorial de verão que
não conte com um biquininho Rosa Chá. A marca tem 130 pontos-de-venda
em outros países e no segundo semestre vai inaugurar uma distribuidora
na Europa e uma franquia em Miami. Os preços são estratosféricos
um biquíni que aqui sai por 60 reais pode chegar a 120 libras
(555 reais) nas lojas de luxo da Inglaterra. O ganho, por enquanto, só
cobre os custos, mas tudo bem. "Hoje, vejo meus biquínis em lugares
a que nunca imaginei chegar", comemora Slama.
Carregando
na bagagem muitos decotes, fendas, transparências e uma bailarina-pombagira
vestida de penas vermelhas, a M. Officer de Miele também desfila
em Nova York, para onde ele resolveu se transferir depois de embasbacar
Londres (armou um altar a Iemanjá dentro de uma igreja) no começo
do ano. Tem planos inclusive de abrir uma galeria em Manhattan até
o fim do ano. Os vestidos de sua coleção são vendidos
por até 10.000 dólares fora do Brasil, mas Miele faz coro
com os colegas: lucro, ainda não viu. Walter Rodrigues também
não. Para tentar ganhar mais espaço, este último
trocou o estilo nipônico de seu desfile de outono-inverno (mostrado
em São Paulo e em Paris, dobradinha que repete agora) por uma linha
muito mais sensual, com base em pesquisa sobre como o Brasil é
visto na França. "Eles sabem que nosso design tem decotes, volumes
e bom trabalho com cores", diz.
Dá
para desfilar lá fora sem samba, candomblé e pele de fora?
Sandie Bontout, compradora da Galeries Lafayette, de Paris, que acompanhou
os desfiles de São Paulo, acha importante que os designers brasileiros
mantenham sua identidade. "Mas, se fizerem uma moda totalmente brasileira,
não vão conseguir aceitação. Eles precisam
entender melhor o que o mundo quer", diz. Alexandre Herchcovitch, o mais
experiente do grupo em passarelas internacionais (em outubro fará
seu oitavo desfile fora, o terceiro em Paris), arrepia-se com a ênfase
no côté tupiniquim. "Estilista para dar certo precisa ser
bom, independentemente da nacionalidade", alfineta. Pode ser, mas que
neste momento ser brasileiro abre salas de desfile, abre algumas
inéditas. Em setembro, Fause Haten será o primeiro estilista
daqui a se apresentar na semana de moda de Milão, na Itália.
Fause também já emplacou Nova York e lá se iniciou
na difícil arte da exportação. Aprendeu, por exemplo,
a lidar com impostos (certa vez, pagou 1.500 dólares em taxas num
pedido de 900 dólares) e a evitar muita mistura de materiais nas
roupas (o que facilita a classificação na hora de preencher
a papelada burocrática). Agora espera que sua nova coleção,
inspirada no visual dos skatistas, marque ao menos de leve seu nome na
Europa.
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