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Procura-se um lugar ao sol

Essa turma sabe: desfilar fora é
perder dinheiro
apostando no futuro

Silvia Rogar

 
Fotos Sasha Hochstetter

Amir Slama, da Rosa Chá
Onde vai desfilar: Nova York
Apostas para o verão: combinações de cores "brasileiras", como verde e rosa. Biquínis e maiôs valorizando o busto

Walter Rodrigues
Onde vai desfilar: Paris
Apostas para o verão: vestidos esvoaçantes de cores suaves (areia, rosa) e acessórios metálicos


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Reportagem de 24/10/2001: "Praia inflacionada"
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Nas duas últimas semanas, o mundinho ferveu: os dois maiores shows de moda do Brasil, a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio, reuniram 61 marcas e suas apostas para o próximo verão. Foi um exército de modelos, vips na platéia, flashes espocando e um generoso investimento total de 7,5 milhões de reais. Para cinco estilistas, a maratona continua: Carlos Miele (M. Officer), Amir Slama (Rosa Chá), Alexandre Herchcovitch, Walter Rodrigues e Fause Haten vão arrumar as malas e seguir para as tradicionais e visadíssimas passarelas do Hemisfério Norte. São todos reincidentes em desfiles internacionais. Todos, até agora, perderam dinheiro. Se insistem, é porque vêem na brecha para o exterior uma chance como nunca houve de fincar o salto brasileiro em mercados ricos – e, no futuro, fechar bons negócios.

A curiosidade pela moda nacional cresceu como nunca nos anos 90, puxada pelo furacão Gisele Bündchen. Paralelamente, a moda se organizou no Brasil, apoiada por empresas e associações do setor. Mas, como os estilistas estão aprendendo a duras plumas, entrar para valer no mercado internacional é tarefa árdua. Depois de passar por um crivo rigoroso para integrar os desfiles, ainda têm de arcar com custos altíssimos. Um desfile que no Brasil custa em torno de 80.000 reais no exterior chega a 100.000 dólares, ou quase 300.000 reais. Fechada a conta da viagem e dos desfiles (à custa, diga-se, de muitos patrocínios), o estilista ainda tem de atrair a imprensa especializada, compradores e vips para rechear a primeira fila – isso numa agenda de desfiles que inclui nomões como Dior, Armani e Calvin Klein. Espera-se que essa trabalheira toda contribua para alavancar a minguada parcela brasileira – mero 0,14% – no total da exportação têxtil mundial. "Acho que temos boas chances de crescer a médio prazo", acredita Carlos Ferreirinha, consultor para negócios de moda da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). A meta da entidade é elevar as exportações nacionais de 1,3 bilhão para 4 bilhões de dólares até 2007. Para que isso ocorra, é fundamental que os estilistas consigam estabelecer um pé lá fora.

 

Carlos Miele, da M. Officer
Onde vai desfilar: Nova York
Apostas para o verão: jeans em trabalhos artesanais, como patchwork e fuxico. As cores mais fortes são branco e azul

Dos cinco que vão promover desfiles no exterior, três apostam na tal brasilidade para atrair atenções. Amir Slama criou para a Rosa Chá uma coleção cheia de verde, papagaios, palmeiras e trilha sonora que tem até trecho do Hino Nacional. Sua marca, que vai desfilar pela segunda vez em Nova York, no ano passado exportou 40.000 peças, ou 9% da produção. Muito contribuiu sua ultra-insistente campanha junto às revistas-bíblias da moda: hoje em dia, não há editorial de verão que não conte com um biquininho Rosa Chá. A marca tem 130 pontos-de-venda em outros países e no segundo semestre vai inaugurar uma distribuidora na Europa e uma franquia em Miami. Os preços são estratosféricos – um biquíni que aqui sai por 60 reais pode chegar a 120 libras (555 reais) nas lojas de luxo da Inglaterra. O ganho, por enquanto, só cobre os custos, mas tudo bem. "Hoje, vejo meus biquínis em lugares a que nunca imaginei chegar", comemora Slama.

Carregando na bagagem muitos decotes, fendas, transparências e uma bailarina-pombagira vestida de penas vermelhas, a M. Officer de Miele também desfila em Nova York, para onde ele resolveu se transferir depois de embasbacar Londres (armou um altar a Iemanjá dentro de uma igreja) no começo do ano. Tem planos inclusive de abrir uma galeria em Manhattan até o fim do ano. Os vestidos de sua coleção são vendidos por até 10.000 dólares fora do Brasil, mas Miele faz coro com os colegas: lucro, ainda não viu. Walter Rodrigues também não. Para tentar ganhar mais espaço, este último trocou o estilo nipônico de seu desfile de outono-inverno (mostrado em São Paulo e em Paris, dobradinha que repete agora) por uma linha muito mais sensual, com base em pesquisa sobre como o Brasil é visto na França. "Eles sabem que nosso design tem decotes, volumes e bom trabalho com cores", diz.

 

Alexandre Herchcovitch
Onde vai desfilar: Paris
Apostas para o verão: mistura de cores formando uma espécie de patchwork

Fause Haten
Onde vai desfilar: Milão

Apostas para o verão: calças com bolsos utilitários, jeans com trabalho de tecido nobre, cintura baixa

Dá para desfilar lá fora sem samba, candomblé e pele de fora? Sandie Bontout, compradora da Galeries Lafayette, de Paris, que acompanhou os desfiles de São Paulo, acha importante que os designers brasileiros mantenham sua identidade. "Mas, se fizerem uma moda totalmente brasileira, não vão conseguir aceitação. Eles precisam entender melhor o que o mundo quer", diz. Alexandre Herchcovitch, o mais experiente do grupo em passarelas internacionais (em outubro fará seu oitavo desfile fora, o terceiro em Paris), arrepia-se com a ênfase no côté tupiniquim. "Estilista para dar certo precisa ser bom, independentemente da nacionalidade", alfineta. Pode ser, mas que neste momento ser brasileiro abre salas de desfile, abre – algumas inéditas. Em setembro, Fause Haten será o primeiro estilista daqui a se apresentar na semana de moda de Milão, na Itália. Fause também já emplacou Nova York e lá se iniciou na difícil arte da exportação. Aprendeu, por exemplo, a lidar com impostos (certa vez, pagou 1.500 dólares em taxas num pedido de 900 dólares) e a evitar muita mistura de materiais nas roupas (o que facilita a classificação na hora de preencher a papelada burocrática). Agora espera que sua nova coleção, inspirada no visual dos skatistas, marque ao menos de leve seu nome na Europa.

   
 
   
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