Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
Geral Turismo
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
 

Crescem as opções para o congelamento de corpos
O pacote para quem quer provar a vida de mendigo
Fernando de Noronha sofre com o descaso e a sujeira
O que os estilistas brasileiros esperam do mercado externo
Milionários descobrem o paraíso (fiscal) de Bermudas
A gigantesca lula de 250 quilos
Os novos usos do Botox
A culpa na vida moderna

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Mendigo por uns dias

Empresa holandesa tem pacote
especial para
quem quer
experimentar a vida nas ruas

Adriana Negreiros

 
Fotos divulgação
Bart Janssens, o dono da agência, divulgando seu roteiro turístico

A pobreza pode despertar a curiosidade de quem nunca teve de enfrentá-la. Muitos dos turistas que visitam o Rio de Janeiro fazem questão de conhecer os morros e as favelas, por exemplo. Uma agência de turismo holandesa resolveu oferecer a seus clientes algo ainda mais próximo da vida real: por 400 dólares, eles podem viver durante quatro dias nas ruas de Londres, Paris ou Amsterdã como verdadeiros mendigos. Nada de bermudas nem filmes fotográficos na bagagem. Aos turistas só é permitido levar um cobertor, um instrumento musical ou um caderno de desenhos, acessórios que podem ser úteis na hora de pedir esmola. Com o dinheiro que conseguir arrecadar, o viajante deverá comprar sua comida ou, se for o caso, a bebida para se aquecer nas noites mais frias. Os mendigos de primeira viagem dormem ao relento, como seus colegas verdadeiros. Ao fim desse emocionante tour, eles podem desintoxicar-se da experiência passando alguns dias com um tratamento cinco-estrelas em um hotel chique da cidade. Mas, mesmo depois de tanta provação, há quem dispense a segunda parte do programa.

Foi o caso de alguns holandeses que, em junho, brincaram de ser pobres nas ruas de Amsterdã e, mais que satisfeitos, recusaram a esticada num hotel. Eles se espalharam em pequenos grupos pelas ruas da capital. Embora tenha boa dose de realismo, o pacote turístico não deixa de ser um teatrinho. De longe, funcionários da Kamstra Travel, a agência responsável pelo programa, vigiam permanentemente os turistas. Eles tanto podem fazer as fotos de recordação da viagem como estão prontos a intervir caso os falsos mendigos se envolvam em alguma confusão. É esse esquema de segurança que justifica o preço. A programação, porém, não é à prova de risco, segundo os agentes explicam a seus clientes. "Deixamos claro que a experiência pode não dar 100% certo", diz Anneke Bakker, gerente da agência. Por isso, idosos, crianças e adolescentes não são aceitos. "Mas podemos garantir que essa é a melhor e mais segura maneira de saber como vivem os sem-teto e de se envolver num mundo desconhecido mas muito próximo de quem vive nas grandes cidades."


Cliente satisfeito: turista-mendigo nas ruas de Amsterdã

A possibilidade de penetrar no modo de vida dos miseráveis fascina muita gente. Na Alemanha, o escritor Gunter Wallraff deu um mergulho sem precedentes nesse universo ao viver no meio de imigrantes ilegais turcos como se fosse um deles, descobrindo como seus compatriotas humilham essas pessoas e como a sociedade mais rica as atira para atividades insalubres e perigosas, como o trabalho em áreas de alta radiação, em usinas nucleares. Em Cabeça de Turco, Wallraff conta que, como pobre e estrangeiro, não obteve abrigo nem mesmo em paróquias administradas por padres alemães, que se recusaram até a batizá-lo. Em outra experiência, o jornalista francês Marc Boulet viveu um mês como um pária no sistema de castas hindu. Para isso, aprendeu a língua, vestiu-se com roupas surradas e escureceu a pele com uma tintura para cabelo. Na Índia, os intocáveis – nome dado à casta a que ele fingiu pertencer – são tratados como porcos. Quando conseguia algum alimento, ele tinha de comê-lo com os animais. Em seu livro, Na Pele de um Intocável, o jornalista conta ter passado por situações em que chegou a preferir a morte.

Para quem pretende levar a experiência a condições menos extremas, a agência holandesa criou seu programa cerca de um ano atrás. Mas há menos de um mês começaram a aparecer interessados. Segundo os criadores do pacote, são pessoas que já viajaram pelos melhores destinos e procuram roteiros mais emocionantes. As entidades de apoio aos sem-teto acusam a agência de tratar a pobreza como mera excentricidade. Jornais londrinos publicaram artigos com severas críticas à Kamstra Travel. "Temos todo o respeito pelas pessoas que não têm como viver melhor", defende-se a gerente. "Além disso, nossos clientes podem até tornar-se mais sensíveis à vida dessas pessoas." As autoridades londrinas também não gostaram da novidade, e o porta-voz da Scotland Yard já avisou: quem fingir que é mendigo nas ruas de Londres poderá terminar as férias na prisão.


O livro de Boulet: privações

A idéia do pacote partiu do dono da agência. Na juventude, quando estudou em Paris, Bart Janssens enfrentou dificuldades financeiras e chegou a dormir algumas noites nas esquinas. "Viver como um sem-teto pode ser uma experiência muito rica", ele acredita. Apesar do entusiasmo com a própria idéia, Janssens e seus funcionários não pretendem levar ainda mais longe esse mini-reality show do turismo ampliando os roteiros para cidades como Rio de Janeiro, São Paulo ou outras de vasta violência nas ruas. A justificativa é que não há entre os olheiros de sua equipe de segurança nenhum que conheça esses lugares num nível que permita evitar grandes riscos para os turistas.

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS