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Mendigo
por uns dias
Empresa holandesa tem pacote
especial para
quem quer
experimentar a vida nas ruas
Adriana Negreiros
Fotos divulgação
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| Bart
Janssens, o dono da agência, divulgando seu roteiro turístico
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A
pobreza pode despertar a curiosidade de quem nunca teve de enfrentá-la.
Muitos dos turistas que visitam o Rio de Janeiro fazem questão
de conhecer os morros e as favelas, por exemplo. Uma agência de
turismo holandesa resolveu oferecer a seus clientes algo ainda mais próximo
da vida real: por 400 dólares, eles podem viver durante quatro
dias nas ruas de Londres, Paris ou Amsterdã como verdadeiros mendigos.
Nada de bermudas nem filmes fotográficos na bagagem. Aos turistas
só é permitido levar um cobertor, um instrumento musical
ou um caderno de desenhos, acessórios que podem ser úteis
na hora de pedir esmola. Com o dinheiro que conseguir arrecadar, o viajante
deverá comprar sua comida ou, se for o caso, a bebida para se aquecer
nas noites mais frias. Os mendigos de primeira viagem dormem ao relento,
como seus colegas verdadeiros. Ao fim desse emocionante tour, eles podem
desintoxicar-se da experiência passando alguns dias com um tratamento
cinco-estrelas em um hotel chique da cidade. Mas, mesmo depois de tanta
provação, há quem dispense a segunda parte do programa.
Foi o caso de alguns holandeses que, em junho, brincaram de ser pobres
nas ruas de Amsterdã e, mais que satisfeitos, recusaram a esticada
num hotel. Eles se espalharam em pequenos grupos pelas ruas da capital.
Embora tenha boa dose de realismo, o pacote turístico não
deixa de ser um teatrinho. De longe, funcionários da Kamstra Travel,
a agência responsável pelo programa, vigiam permanentemente
os turistas. Eles tanto podem fazer as fotos de recordação
da viagem como estão prontos a intervir caso os falsos mendigos
se envolvam em alguma confusão. É esse esquema de segurança
que justifica o preço. A programação, porém,
não é à prova de risco, segundo os agentes explicam
a seus clientes. "Deixamos claro que a experiência pode não
dar 100% certo", diz Anneke Bakker, gerente da agência. Por isso,
idosos, crianças e adolescentes não são aceitos.
"Mas podemos garantir que essa é a melhor e mais segura maneira
de saber como vivem os sem-teto e de se envolver num mundo desconhecido
mas muito próximo de quem vive nas grandes cidades."
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| Cliente
satisfeito: turista-mendigo nas ruas de Amsterdã |
A
possibilidade de penetrar no modo de vida dos miseráveis fascina
muita gente. Na Alemanha, o escritor Gunter Wallraff deu um mergulho sem
precedentes nesse universo ao viver no meio de imigrantes ilegais turcos
como se fosse um deles, descobrindo como seus compatriotas humilham essas
pessoas e como a sociedade mais rica as atira para atividades insalubres
e perigosas, como o trabalho em áreas de alta radiação,
em usinas nucleares. Em Cabeça de Turco, Wallraff conta
que, como pobre e estrangeiro, não obteve abrigo nem mesmo em paróquias
administradas por padres alemães, que se recusaram até a
batizá-lo. Em outra experiência, o jornalista francês
Marc Boulet viveu um mês como um pária no sistema de castas
hindu. Para isso, aprendeu a língua, vestiu-se com roupas surradas
e escureceu a pele com uma tintura para cabelo. Na Índia, os intocáveis
nome dado à casta a que ele fingiu pertencer são
tratados como porcos. Quando conseguia algum alimento, ele tinha de comê-lo
com os animais. Em seu livro, Na Pele de um Intocável, o
jornalista conta ter passado por situações em que chegou
a preferir a morte.
Para quem pretende levar a experiência a condições
menos extremas, a agência holandesa criou seu programa cerca de
um ano atrás. Mas há menos de um mês começaram
a aparecer interessados. Segundo os criadores do pacote, são pessoas
que já viajaram pelos melhores destinos e procuram roteiros mais
emocionantes. As entidades de apoio aos sem-teto acusam a agência
de tratar a pobreza como mera excentricidade. Jornais londrinos publicaram
artigos com severas críticas à Kamstra Travel. "Temos todo
o respeito pelas pessoas que não têm como viver melhor",
defende-se a gerente. "Além disso, nossos clientes podem até
tornar-se mais sensíveis à vida dessas pessoas." As autoridades
londrinas também não gostaram da novidade, e o porta-voz
da Scotland Yard já avisou: quem fingir que é mendigo nas
ruas de Londres poderá terminar as férias na prisão.
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O
livro de
Boulet: privações
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A
idéia do pacote partiu do dono da agência. Na juventude,
quando estudou em Paris, Bart Janssens enfrentou dificuldades financeiras
e chegou a dormir algumas noites nas esquinas. "Viver como um sem-teto
pode ser uma experiência muito rica", ele acredita. Apesar do entusiasmo
com a própria idéia, Janssens e seus funcionários
não pretendem levar ainda mais longe esse mini-reality show
do turismo ampliando os roteiros para cidades como Rio de Janeiro,
São Paulo ou outras de vasta violência nas ruas. A justificativa
é que não há entre os olheiros de sua equipe de segurança
nenhum que conheça esses lugares num nível que permita evitar
grandes riscos para os turistas.
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