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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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A esperança congelada

Há opções cada vez mais baratas
para apostar na ressurreição

Fotos Reuters
Lemler e os tanques gelados: cinqüenta corpos


Ted Williams, um dos maiores jogadores de beisebol de todos os tempos, tornou-se no começo do mês o 50º e mais célebre integrante de uma mórbida comunidade: a de corpos congelados em nitrogênio líquido nos laboratórios da empresa Alcor, no Estado americano do Arizona. Williams morreu de ataque cardíaco aos 83 anos e a decisão de congelá-lo, tomada por dois de seus filhos, rendia uma polêmica familiar na semana passada. Uma terceira herdeira, Bobby-Jo Williams Ferrell, briga com os irmãos, alegando que o pai expressou o desejo de ser cremado. A discussão fez o mundo retomar a atenção para essas exóticas experiências científicas que vêm sendo montadas desde a década de 60, sem que se saiba ainda se pelo menos um dos casos poderá ter um, digamos, final feliz.

Em outros quatro laboratórios ao redor do mundo, há dezenas de corpos também mergulhados em nitrogênio, de cabeça para baixo, à temperatura de 196 graus negativos, à espera da ressurreição. A criogenia propõe que esses cadáveres sejam reavivados quando duas condições tiverem sido alcançadas. A primeira seria a cura da doença que vitimou cada uma dessas pessoas. A segunda é a descoberta de uma técnica segura para o descongelamento. Embora o processo de reanimação da vida depois da suspensão dela a baixíssimas temperaturas já seja um sucesso no caso de células reprodutivas e até de embriões, ninguém tem a menor idéia de como isso seria feito com o corpo inteiro de um ser humano sem que houvesse danos letais a vários órgãos, entre eles o cérebro. Em alguns casos, por meio de planos econômicos, houve pessoas que optaram por manter apenas a cabeça congelada, numa situação que as obrigará a esperar até o dia em que se domine também uma técnica para implante dessa parte num outro corpo.

Há pelo menos 1.000 pessoas vivas inscritas nos planos de congelamento post mortem, assegura Jerry Lemler, presidente do Alcor, o maior laboratório do ramo. Os negócios nesse setor andam prósperos depois de um período difícil. Nos últimos anos, várias empresas faliram e cerca de quarenta defuntos criogenizados tiveram seu sonho de reanimação sepultado junto com seu corpo. Agora, chama a atenção a árdua concorrência baseada em preços. O Alcor cobra 120.000 dólares – ou perto de 350.000 reais – pela operação. Outras companhias pedem apenas um quarto dessa quantia para garantir uma vaga nos tanques de nitrogênio. Normalmente, os candidatos à eternidade fazem um seguro beneficiando a empresa criogênica como garantia do negócio e pagam taxas em torno de 300 dólares por ano para sustentar as apólices e renovar a opção de congelamento.

Ted Williams: divergências na família sobre o congelamento e a cremação

Os aparelhos criogênicos foram desenvolvidos em pesquisas com sangue, esperma e até alimentos. Também servem para armazenar hidrogênio na forma líquida. Daí à especulação sobre a ressurreição foi apenas um passo. A técnica da criogenia só pode ser aplicada em pessoas consideradas legalmente mortas. Em muitos casos isso acontece ao se decretar a morte cerebral, quando coração e outros órgãos ainda estão em condições de funcionar – como nos casos de retirada de partes do corpo para transplante. Os inscritos ganham um bracelete e um colar com seus dados de identidade e a informação de que devem ser levados para o laboratório de criogenia assim que morrerem. "Os especialistas estimam que num prazo de vinte a 100 anos já estaremos fazendo os primeiros descongelamentos", costuma garantir Jerry Lemler. "Nós nos comprometemos a conservar o corpo pelo tempo que for necessário."

   
 
   
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