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Perfil
exclusivo dos votantes mostra
que a eleição de outubro será decidida
por quem ganha pouco, não paga
imposto e vê muita televisão

Alexandre
Secco e Luís Henrique Amaral

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Dos primórdios
de nossa história eleitoral até os dias atuais, o eleitorado
brasileiro passou por mudanças profundas. Durante cinqüenta
anos, entre 1880 e 1930, a massa de eleitores correspondeu a apenas 6%
da população do país. Hoje, com mais de 115 milhões
de pessoas aptas ao voto, o eleitorado equivale a 70% da população.
É um crescimento monumental, que jamais foi acompanhado de uma
radiografia nítida dos votantes. Na semana passada, VEJA concluiu
uma pesquisa que consumiu cinco semanas de trabalho e cruzou sete fontes
de dados estatísticos, sociais, econômicos, comportamentais
e de opinião e, com isso, chegou-se a um retrato exclusivo
sobre quem é o eleitor brasileiro, o que faz e o que pensa. O trabalho
permite descobrir quem, afinal, vai decidir a eleição presidencial
de outubro próximo. O extrato mais numeroso, que responde por 80%
dos votantes, é composto de brasileiros que se situam entre a classe
média baixa e os pobres. Juntos, eles somam 93 milhões de
pessoas, um contingente maior que a maioria das democracias do mundo.
Na prática, são esses 93 milhões de eleitores de
posses, educação e horizontes modestos que decidirão
quem ocupará o Palácio do Planalto até 2006.
Antonio Milena
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| O
eleitorado cada vez mais jovem e urbano: abstenção em queda |
Esses eleitores
compõem um conjunto heterogêneo, mas exibem características
comuns. Eles têm renda mensal entre 200 e 1 000 reais. Pouquíssimos
pagam imposto de renda, metade nunca lê jornais nem revistas e quase
todos têm a televisão como principal, se não única,
fonte de informação. "Eles é que decidem a eleição.
Os outros grupos sociais são praticamente coadjuvantes", afirma
o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), autor de um estudo detalhado
sobre a história do voto no Brasil. Além dessas características,
é relevante observar que, neste momento, uma parcela expressiva
desse eleitorado decisivo diz que não está satisfeita com
a vida que leva uma sugestão de que esses insatisfeitos
tenderão a dar preferência a candidatos que proponham mudanças.
Até agora, Luís Inácio Lula da Silva, do PT, é
o concorrente mais bem cotado nesse eleitorado. O petista lidera em todas
as faixas, com preferência de 32% dos eleitores da classe média
baixa, 36% dos emergentes e 37% dos pobres. Há um dado, porém,
que não permite projeções certeiras: entre esses
93 milhões de eleitores, 77 milhões já têm
candidato, mas a metade deles não está segura da opção
e admite mudar de idéia até o dia da eleição.
Em mais um
sinal das marcadas diferenças internas da sociedade brasileira,
o outro contingente de eleitores é sensivelmente distinto. Compondo
as classes alta e média, são 23 milhões de votantes,
que respondem por 20% do eleitorado do país. Entre eles, 7 milhões
pagam imposto de renda, pelo menos 15 milhões lêem jornais
e revistas habitualmente e 3 milhões fizeram ou estão fazendo
um curso superior, ou seja, 13% detalhe que marca uma diferença
fundamental com os eleitores do extrato mais baixo. Entre a massa de 93
milhões de eleitores mais humildes, outros 3 milhões estão
ou estiveram numa faculdade, apenas 3%. O contingente de contribuintes
também faz uma diferença sensível. Entre o núcleo
mais numeroso do eleitorado, quase ninguém paga imposto de renda.
Entre os eleitores das classes mais abastadas, esse número é
expressivo e isso, naturalmente, provoca uma postura diversa diante
do governo e, sobretudo, define um nível distinto de cobrança
sobre o destino do dinheiro que, saindo do bolso privado do cidadão,
vira público ao entrar no Erário. O que chama a atenção
no eleitorado mais abastado é o solene desprezo devotado ao candidato
Anthony Garotinho. Só 2% dizem votar no ex-governador do Rio.
É
natural que num país com uma paisagem social tão desigual
como o Brasil, e com um eleitorado tão vasto, as diferenças
fossem acentuadas. Na Europa e nos Estados Unidos, donos de um eleitorado
mais homogêneo, calcula-se que 90% dos votantes pagam imposto de
renda um porcentual infinitamente superior ao brasileiro, onde
apenas 6% do eleitorado é contribuinte direto. Esse quadro, por
si só, define uma moldura muito diferente a respeito da postura
de cada faixa no que toca ao destino que é dado ao dinheiro arrecadado
por meio de impostos. Há outras diferenças abissais. Entre
os eleitores mais afluentes praticamente não existe analfabetismo,
e, no contingente economicamente mais desfavorecido, a taxa de analfabetismo
supera os 10%. Os mais pobres, para citar outra diferença importante,
colhem suas informações principalmente na televisão,
que tem sido cada vez mais fonte de entretenimento que propriamente fonte
de informação. Mais: entre os eleitores da chamada "classe
A", 75% se dizem satisfeitos com a vida que levam. Já entre os
eleitores pobres, 36% dizem o contrário, que estão insatisfeitos.
Apesar das
diferenças marcadas, na classe A e entre os pobres, os dois pólos
mais distantes da massa de eleitores, Lula aparece como o candidato preferido
em ambos os segmentos. Tanto num como noutro, observa-se, também,
uma forte inclinação a votar no candidato que venha a ser
indicado por Fernando Henrique Cardoso, num sinal de que a popularidade
do presidente, ou o nível de respeito que atingiu, não distingue
classes. Essas, no entanto, são semelhanças superficiais,
ou casuais. Até agora, Lula está na dianteira da preferência
eleitoral de todas as classes, seguido, pela ordem, por Ciro Gomes e José
Serra sendo que sua maior fatia se concentra entre o eleitorado
classificado como pobre. Se se confirmar a lógica de que a massa
menos favorecida, do ponto de vista socioeconômico, é quem
definirá a eleição, a situação está,
neste momento, extremamente favorável a Lula e, em seguida, a Ciro
Gomes. Nesse quadro, Serra tem chances limitadas.
O novo perfil
do eleitorado parece não ter sido absorvido pelos políticos.
A formação de chapas que contemplam o propalado "equilíbrio
regional", com um candidato do Sudeste e outro do Nordeste, ainda é
muito valorizada pelos partidos mas a geografia humana do país
mostra que se trata de uma preocupação desfocada, apenas
um vício, talvez herdado do rodízio de paulistas e mineiros
na República Velha, que atribuiu à política um valor
regional que não faz mais sentido nos dias de hoje. As migrações
internas, associadas ao intenso processo de urbanização
do país, tornaram menos nítido esse tipo de divisão
geográfica, e, em seu lugar, surgiu outro cenário mais relevante
e ainda não captado pela antena dos marqueteiros: a divisão
entre o Brasil das metrópoles e o Brasil das cidades pequenas.
Existem 35 milhões de eleitores pobres na periferia das grandes
cidades, mais do que há em todo o interior da Região Nordeste
mas ninguém apresenta propostas específicas para
esse contingente, que, embora desorganizado, é uma potência
numérica em termos de quantidade de votos
Além
de diverso e desigual, o eleitorado brasileiro é notável
pelo interesse que demonstra nas eleições. Nos dois últimos
pleitos, cerca de oito em cada dez eleitores foram às urnas
uma taxa superior à média de outras democracias nas quais
o voto, como no Brasil, também é obrigatório. Existe
outro dado relevante. Desde o restabelecimento da democracia, em 1985,
o país realizou dez eleições e um plebiscito nacional.
Isso significa que quase 70% dos eleitores que votarão em outubro
próximo já votaram mais de três vezes para presidente
da República. "O eleitor não é mais um neófito",
diz o professor Jairo Nicolau, do Iuperj. Ou seja: o eleitorado brasileiro
é interessado e está deixando cada vez mais de ser amador.
Está aprendendo a votar a cada eleição que passa.
Parece que conhece mais os políticos do que é conhecido
por eles.
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