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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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A situação piorou para ele

Serra cai mais nas pesquisas, e analistas
já dizem que, nas próximas rodadas,
o tucano poderá aparecer em quarto lugar

Mauricio Lima e Sandra Brasil

 
Joedson Alves/AE
Serra e Rita reúnem quinze governadores aliados em Brasília: evitando defecções


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O retrato do eleitor

Desde que deixou o Ministério da Saúde, em fevereiro passado, para candidatar-se a presidente da República, o tucano José Serra nunca viveu um momento tão ruim. Na época, Serra tinha 7% nas pesquisas de opinião, mas vinha fazendo uma trajetória ascendente, chegando no início de junho a 19% das intenções de voto, seu ponto mais alto. De lá para cá, no entanto, o tucano tem caído a cada semana que passa. São quedas pequenas, quase nunca superiores a 2 pontos porcentuais, mas constantes, o que indica um padrão negativo. Na semana passada, segundo o Ibope, Serra caiu de novo, ficando com 13%, e se encontra tecnicamente empatado com o ex-governador Anthony Garotinho, do PSB. Isso significa que a campanha mais cara, a de Serra, está num patamar semelhante ao da mais pobre, a de Garotinho – e tão pobre, de dinheiro e de apoios, que o candidato não passa um dia sem ser alvo de especulações de que está prestes a renunciar ao projeto presidencial. "Não será surpresa se, na próxima pesquisa, o Serra aparecer em quarto lugar, atrás de Garotinho", especula o dono de um dos maiores institutos de pesquisa do país.


Os analistas entendem que, apesar das conversas sobre desistência, Garotinho tem um eleitorado fiel, que o impede de desabar muito nas pesquisas. Embora sua candidatura apresente pouca consistência política (alguns de seus aliados já defendem publicamente sua renúncia), Garotinho tem cerca de 30% do eleitorado do Rio de Janeiro, onde construiu sua carreira, e uma parcela do público evangélico, que o candidato costuma cortejar fazendo discursos de Bíblia na mão. Com essa massa cativa, Garotinho garante cerca de 10% da preferência nos levantamentos de intenção de voto. Esse número pode oscilar um pouco, subindo ou descendo, mas tende a não ficar muito abaixo disso. No caso de José Serra, as indicações são de que, por enquanto, ele ainda não conquistou a mesma rede de segurança, ou seja, uma parte significativa do eleitorado com forte fidelidade a seu nome e a seu programa. "Nossas pesquisas mostram que Serra ainda não conseguiu passar ao eleitorado outra qualidade além daquela de ter sido bom ministro da Saúde. E isso não é suficiente", diz um analista de outro instituto.

Para piorar ainda mais a situação de Serra, sua queda nas pesquisas vem acompanhada de uma ascensão vertiginosa de Ciro Gomes, do PPS. Nas últimas cinco semanas, desde que começou sua arrancada, Ciro já subiu 15 pontos porcentuais – o que equivale a uma multidão de mais de 17 milhões de votos. Com 26% de preferência na última pesquisa do Ibope, Ciro está isolado em segundo lugar e começa a oferecer uma ameaça à liderança de Luís Inácio Lula da Silva, do PT, que permanece com 33%. Nas simulações de segundo turno realizadas pelo Ibope, Ciro consegue uma vitória sobre Lula, com a vantagem de 7 pontos. Nas pesquisas anteriores, os dois já apareciam tecnicamente empatados no caso de um segundo turno, mas essa é a primeira vez nesta eleição que um candidato consegue superar o petista com uma dianteira superior à margem de erro. O quadro atual, naturalmente, não é definitivo, mas tem provocado movimentos intensos nos bastidores dos comitês – especialmente no de José Serra.

Como reflexo da perda de musculatura nas pesquisas, o tucano está começando a enfrentar o dilema de perder palanques nos Estados. Considerando que todo político tem um extraordinário instinto de sobrevivência, alguns de seus aliados já demonstram certa ansiedade e começam a olhar para os lados à procura de alternativa – e, em geral, os olhares têm pousado sobre a candidatura de Ciro Gomes. Isso está acontecendo, em graus variados, em mais de dez Estados. "Agora é a hora de namorar homem", diz um dos mais influentes membros da campanha de Serra. "Temos de cortejar os políticos que tenham hoje uma postura ambígua em relação à campanha e manter os nossos", completa. A montagem de palanques estaduais, embora possa parecer uma preocupação paroquial, é um dado fundamental na campanha de um presidenciável. Os políticos que concorrem a deputado, senador e governador formam uma eficiente rede de atração de votos para o presidenciável – e perder palanques nos Estados, em geral, é uma péssima notícia.

 
Patricia Santos/Folha Imagem
Lula, em campanha: liderança no eleitorado já começa a ser ameaçada por Ciro

Na semana passada, o comitê de Serra tentou espantar a possibilidade de defecções. Em Brasília, reuniu em torno de uma mesa quinze governadores aliados num encontro sobejamente fotografado. Foi uma forma de demonstrar força política, mas também de evitar que alguns se desgarrem do ninho tucano. Os governadores foram informados de que o Palácio do Planalto pretende protegê-los dos cortes no Orçamento da União, tentando preservar seus nacos de verba – um assunto que costuma encantar qualquer político no exercício de cargo executivo. Em troca, os governadores prometeram trabalhar para elevar em pelo menos 10% a preferência por Serra em seus Estados até o início do horário eleitoral gratuito, que estréia em 20 de agosto. Num sinal eloqüente de descompasso, há Estados em que o governador é candidato e tem mais da metade dos votos – mas Serra, nesse mesmo eleitorado, não consegue chegar a 20%.

A estratégia tucana inclui até uma participação mais ativa do presidente Fernando Henrique. Discretamente, ele atacou em duas frentes. Deixou vazar a informação de que, num eventual segundo turno entre Ciro e Lula, votaria no petista. Trata-se de uma manobra astuta, que não pretende credenciar Lula, mas, sobretudo, desqualificar Ciro, na medida em que ajuda a dinamitar a idéia de que o candidato da Frente Trabalhista poderia aglutinar setores governistas caso encarnasse a figura do anti-Lula. O presidente também segurou apoios que ameaçavam migrar. Na reunião dos governadores, Fernando Henrique garantiu a presença de Espiridião Amin, de Santa Catarina, que andava um pouco afastado. O presidente preocupou-se, ainda, em atrair o deputado Aécio Neves, que concorre ao governo de Minas com um palanque eclético e aberto, inclusive, à presença de Ciro Gomes. Depois da conversa com o presidente, Aécio mudou um pouco seu discurso e chegou até a levar o PPB mineiro para uma visita de cortesia ao Palácio do Planalto para dissuadi-lo de apoiar Ciro. O único desgarrado que não receberá acenos, por enquanto, é o governador tucano Tasso Jereissati, do Ceará, que tem apoiado Ciro cada vez mais abertamente.

Nos últimos dias, no entanto, tornou-se evidente que a grande esperança dos tucanos repousa no horário eleitoral gratuito, no qual Serra terá uma exposição fantástica. Ele aparecerá uma hora por semana até o fim da campanha, o dobro do tempo de seus adversários mais diretos. Isso lhe garantirá uma presença no vídeo digna dos maiores lançamentos publicitários da história da televisão brasileira. Já está acertado que o programa de estréia terá a presença do presidente Fernando Henrique. Isso porque boa parte do eleitorado ainda ignora que Serra é o candidato oficial. De acordo com a pesquisa do Ibope, entre os eleitores que aprovam o governo Fernando Henrique, a maior parte vota em Ciro Gomes – e não em José Serra. Além do horário eleitoral gratuito, Serra veiculará pelo menos 225 comerciais de trinta segundos em cada emissora de televisão. No fim, fará 1.125 aparições, contra 600 de Lula e 400 de Ciro. Com tamanha exposição, é natural que os tucanos confiem numa recuperação do candidato. Há, porém, um dado a considerar sobre os efeitos do horário eleitoral gratuito. Em eleições passadas, o tempo de televisão costumava ser usado para apresentar o candidato, enquanto o duelo de propostas e a troca de críticas só apareciam nos programas seguintes. Agora, será diferente. Como a campanha começou cedo, a fase de apresentação dos candidatos já parece superada. "O horário eleitoral começará mais quente", diz a socióloga Fátima Pacheco Jordão, que trabalha com pesquisas políticas há três décadas. "Já deve começar com críticas aos adversários e com nível elevado de argumentação. Não basta dizer: vou fazer. Vai precisar deixar claro o 'como' fazer", completa.

O eleitor está mais consciente e dá sinais também de otimismo. Na semana passada, VEJA ouviu pesquisadores para saber quais as qualidades mais evidentes que ele enxerga em cada candidato. Desse levantamento, conclui-se que os eleitores nunca se sentiram tão bem servidos de bons candidatos. De quatro qualidades que considera fundamentais para um presidente da República – caráter, seriedade, honestidade e inteligência –, o eleitor acha que três candidatos reúnem todas elas. São eles: Lula, Ciro e Serra. A socióloga Maria Tereza Monteiro, dona do instituto de pesquisas Retrato, empresa que estuda o comportamento dos eleitores há quinze anos, diz que tem tido essa mesma percepção em seus trabalhos. Em 1989, resume ela, o eleitor procurava um "salvador da pátria", que encontrou em Fernando Collor. Em 1994, queria o combate férreo à inflação, personificado em Fernando Henrique como autor do Plano Real. Em 1998, o eleitor desejava manter a estabilidade e entendeu que deveria dar um crédito ao presidente, reelegendo-o. Agora, os eleitores querem escolher alguém que tenha capacidade de manter os avanços dos dois governos de FHC e produzir outros, especialmente na área social. O dilema – doce dilema – é que o eleitor acha que há mais de um candidato capaz de fazê-lo.

 
Ana Araujo
Nelio Rodrigues
Wilton Junior/AE
O deputado Aécio Neves, candidato a governador em Minas Gerais, teve uma conversa com FHC. À saída, adotou discurso mais favorável à candidatura do tucano José Serra FHC, atuando nos bastidores, levou o governador de Santa Catarina, Espiridião Amin, a comparecer à reunião com Serra em Brasília. Amin estava afastado da campanha tucana O presidente acha que, nesta hora, é preferível deixar o governador do Ceará, Tasso Jereissati, atuando em aliança com Ciro. Talvez mais tarde o tucanato o traga de volta

 
 
   
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