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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
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Lulalice no País
das Maravilhas

As metas do PT são generosas. Mas
algumas são realizáveis só no campo
da fantasia. Assim como algumas de
Garotinho, Ciro Gomes e também
do tucano José Serra

Mario Sabino


Montagem com fotos de Roberto de Castro-AE/Bruno Stuckert-Folha Imagem e Antonio Milena

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O candidato do PT à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva, divulgou na semana passada as metas de seu programa de governo relativas à expansão de empregos e à melhoria das condições dos trabalhadores. As principais são as seguintes: assegurar que o produto interno bruto cresça em média 5% ao ano, dobrar o salário mínimo no prazo de quatro anos, reduzir a jornada semanal de 44 para quarenta horas (sem redução de salário), gerar 10 milhões de postos de trabalho. É um plano perfeitamente realizável – no País das Maravilhas de Alice, a personagem de Lewis Carroll. Há de se reconhecer que Lula não é o único presidenciável que freqüenta esse território de fantasia. À medida que as eleições se aproximam e a concorrência se acirra, Anthony Garotinho, Ciro Gomes e até José Serra, habitualmente um apóstolo do princípio de realidade, vão ganhando feições parecidas com as dos amigos de Alice: o Chapeleiro Maluco, o Gato Risonho e o Coelho Branco.

Está certo que, em política, a demagogia costuma ser um elogio que o vício presta ao pragmatismo. Dizer a verdade, somente a verdade, equivale a tomar um atalho rumo à impopularidade. "Quase sempre é fácil encontrar a verdade. Difícil é, uma vez encontrada, não fugir dela", teria observado Getúlio Vargas, o patrono do populismo brasileiro. Esse fato da vida torna-se ainda mais evidente em época de eleição, seja aqui ou em latitudes mais frias. Mas não dá para ignorar que a taxa de promessas delirantes ou vácuas da atual campanha anda alta mesmo levando-se em conta os larguíssimos padrões nacionais. Para enfrentarem a situação especialmente delicada por que passa o Brasil, em que se conjugam queda de renda, estagnação produtiva, desemprego crônico e pobreza, os candidatos dão a entender que o Estado dispõe de uma cornucópia salvadora. O preocupante é que, mais do que fazer jogo de cena, eles realmente parecem acreditar que basta pronunciar fórmulas, como "vontade política", "política industrial" ou "desprivatização do Estado" (a mais nova invenção de Lulalice e seus amiguinhos), para que dessa cornucópia transborde um rio de dinheiro capaz de fazer o sertão virar mar.

Tais fórmulas, proferidas em geral com uma gravidade acaciana, são tão efetivas para promover mudanças quanto "abracadabra, leite de cabra, um, dois, três". A verdade de que todos fogem é que, se um sujeito comum administrasse o seu orçamento doméstico como os candidatos pretendem gerir os cofres públicos, mereceria ter a cabeça decepada pela Rainha de Copas, a malvada abilolada do País das Maravilhas. O crescimento do Brasil é emperrado por causa do excesso de governo, e não por falta dele. Cerca de 40% de toda a riqueza produzida no país vai parar nas mãos do Estado, através de impostos diretos e indiretos. Mas, como o Leviatã brasiliense ainda assim continua desdentado (gasta muito mais do que arrecada), ele recorre a empréstimos bancários, pagando juros acachapantes que se tornam referência e encarecem o crédito ao setor produtivo. É possível um país crescer dessa forma?

FGV/CPDOC/Arq. família Vargas
Reprodução Oscar Cabral

"Quase sempre é fácil encontrar a verdade.
Difícil é,
uma vez encontrada, não fugir dela."
Frase atribuída a Getúlio Vargas, o patrono do populismo brasileiro

A Alice do País das Maravilhas tinha um biscoito mágico que a fazia aumentar e diminuir de tamanho. Já que não existe esse tipo de aditivo na vida real, a única maneira de um candidato aumentar a sua estatura, caso seja eleito, é encolhendo o tamanho do Estado. A conseqüência seria uma maior circulação de riquezas e a multiplicação da capacidade de investimento da iniciativa privada – o que resultaria em mais empregos. Os postulantes à Presidência da República, no entanto, querem entrar na História por obra de ficção. Lulalice promete mundos e fundos, mas não diz quem pagará a conta do banquete. O aumento do salário mínimo que está previsto em seu programa acrescentaria 7 bilhões de reais por ano ao rombo da Previdência, um buraco que já anda na casa dos 60 bilhões de reais. Além disso, seus planos de crescimento requerem um cenário internacional tão cor-de-rosa quanto a pantera do desenho animado (veja quadro). O capitalismo de Lulalice, enfim, não dá nem para brincar de Banco Imobiliário.

As mirabolâncias de Anthony Garotinho, então, são dignas do Chapeleiro Maluco. Ele diz que, se eleito, reajustará o salário mínimo para 280 reais já em maio de 2003. Isso representaria um custo adicional para a Previdência de quase 13,5 bilhões de reais. Apenas cinco projetos sociais de seu programa – criação de 4,2 milhões de bolsas de 250 reais para jovens, construção de 300 restaurantes populares, Sopa Familiar, Cheque-Cidadania e distribuição de cestas básicas – significariam um gasto no primeiro ano de governo superior a 14 bilhões de reais, mais de 50% do que já despende o Estado com a sua rede de proteção social. Nem o divino Espírito Santo sabe dizer de onde sairia a dinheirama para operar um milagre desses.

O caso de Ciro Gomes é mais complicado. Suas propostas por vezes são tão difíceis de ser apreendidas quanto o Gato Risonho. Em seu programa de governo, ele descarta o calote da dívida externa. Mas no livro Um Desafio Chamado Brasil deixa entrever que pretende "controlar seletivamente a remessa de divisas pertencentes a brasileiros para o estrangeiro". Em bom inglês, o nome disso é... calote. E não é preciso ter feito curso de extensão em Harvard para saber que país caloteiro não recebe investimento, não consegue refinanciar suas dívidas e afunda na estagnação econômica. Assim como os outros candidatos, com exceção de Serra, Ciro não admite a hipótese de um Banco Central independente, condição que o mercado julga essencial para a manutenção da estabilidade monetária. Ciro acredita que o BC, da forma como está constituído, elege "os interesses financeiros sobre os produtivos", e que isso é ruim. Em bom inglês, outra vez, a coisa pode ser traduzida pela frase: crescimento econômico só ocorre se houver inflação. Ele nega, no entanto, que suas intenções sejam inflacionárias. O Gato Risonho é desse jeito: uma contradição em termos.

Por fim, José Serra. Com a sua queda nas pesquisas de intenção de voto, o tucano está mais atarantado do que o eternamente atrasado Coelho Branco. Colocou um pé no País das Maravilhas ao propalar que, se eleito, construirá 6 milhões de casas populares. É uma enormidade – e em mais de um sentido. Para tanto, o governo teria de gastar mais de 93 bilhões de reais nos próximos quatro anos, uma média de 23 bilhões de reais ao ano. É o equivalente ao déficit nacional em conta corrente, que Serra considera a razão da política de juros altos do Banco Central e o principal entrave ao crescimento do Brasil. Serra disse isso na TV, mas já voltou atrás. Bem atrás.

 

Colaboraram Felipe Patury
e Monica Weinberg

 

O sonho de Lulalice

A distância que separa as metas econômico-sociais propostas por Lula da dura realidade

Salário mínimo

A proposta do PT: Aumentar o salário mínimo em média 20% a cada ano de governo

A visão realista: O aumento do salário mínimo tem impacto direto sobre o valor de benefícios previdenciários atrelados a ele, como as aposentadorias. A Previdência, que já pena com um rombo de 60 bilhões de reais por ano, teria um acréscimo anual na folha de despesas de cerca de 7 bilhões de reais

 

Emprego

A proposta do PT: Criar 10 milhões de postos de trabalho na economia formal

A visão realista: O Brasil tem hoje 28 milhões de empregos formais e a proposta significa um aumento de 35% desse total. Ainda que o país crescesse a taxas de 5% ao ano, não daria para atingir tal meta. Para cada 1% de crescimento do PIB, 400 000 empregos são criados, mas três de cada quatro desses postos de trabalho são informais

 

Jornada de trabalho

A proposta do PT: Reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição de salário

A visão realista: Menos horas de trabalho pelo mesmo salário é igual a aumento. No papel é bonito, mas pode ter conseqüências negativas sobre o nível de emprego formal. Isso porque, cada vez que uma lei eleva o preço das contratações, a tendência é que diminua o número de postos de trabalho com carteira assinada

 

Crescimento

A proposta do PT: Aumentar o produto interno bruto (PIB) a uma taxa média de 5% ao ano, até 2006

A visão realista: Para que o Brasil cresça num ritmo duas vezes maior que o atual e durante tanto tempo, não pode haver nenhuma crise internacional, a recuperação da Argentina tem de ser milagrosa e os investimentos estrangeiros no país precisam atingir patamares impossíveis a curto prazo. Além disso, é fundamental que o setor privado nacional aumente substancialmente seus investimentos – de 19% para 24% do PIB. É otimismo demais


 
 
   
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