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Edição 1 762 - 31 de julho de 2002
Diogo Mainardi

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Nós e os gringos

"Se os dois principais candidatos a
presidente cumprirem suas promessas,
vai aumentar o número de lavadores de
pratos brasileiros
nos Estados Unidos"

É triste o confronto com os Estados Unidos. Eles dominam o mundo, nós obedecemos. Eles ignoram nossa existência, nós procuramos saber tudo a respeito deles. Eles fazem filmes, nós corremos para vê-los. O dinheiro deles vale cada vez mais, o nosso cada vez menos. A bolsa de valores deles desce, a nossa desce ainda mais. Entre Estados Unidos e Brasil, só há igualdade na hora de viajar para o país do outro. Eles nos deixam horas e horas nas filas dos consulados para tirar um visto de entrada, desconfiando de nossa boa-fé e, sobretudo, de nossa declaração de renda. Por desforra, nossos consulados fazem o mesmo com eles. É a chamada reciprocidade. O único problema desse ímpeto de orgulho é que nós precisamos desesperadamente de dólares dos turistas americanos, enquanto eles não precisam de novos imigrantes clandestinos brasileiros. Em matéria de lavadores de pratos, os americanos já podem contar com uma abundância de mexicanos, salvadorenhos e guatemaltecos.

Se levarmos a sério os programas dos candidatos presidenciais brasileiros, essa nossa humilhante vassalagem está prestes a terminar. De agora em diante, enfrentaremos os Estados Unidos de igual para igual. Lula pretende contrapor-se a todos os aspectos da política externa americana. Antes de tudo, o PT é contrário a uma intervenção militar no Iraque, para derrubar a ditadura de Saddam Hussein, assim como foi contrário às intervenções militares na Iugoslávia e no Afeganistão, para derrubar a ditadura de Milosevic e a dos talibãs. O PT também condena o bloqueio econômico dos Estados Unidos contra a ditadura cubana. E considera que o plano de combate às drogas na Colômbia não passa de um expediente americano para "se apropriar de recursos estratégicos, energéticos e de biodiversidade dos países andinos e amazônicos". No lugar da Alca, o PT prefere fortalecer essa potência econômica que é o Mercosul. Porque o primeiro objetivo do governo petista é "reduzir nossa dependência externa". Esperemos que Bush não acrescente o Brasil ao "Eixo do Mal", ao lado de Irã, Iraque e Coréia do Norte.

Ciro Gomes também fala grosso contra os Estados Unidos. Mandou o secretário do Tesouro americano "lavar a boca" antes de criticar a corrupção brasileira. E afirmou que é bom os americanos nem pensarem em elevar as tarifas contra o aço brasileiro, embora o próprio Ciro Gomes pense em imitá-los, aumentando "emergencialmente" os impostos de produtos importados para defender a indústria nacional. Os parceiros preferenciais do Brasil, no governo Ciro Gomes, serão os outros "países continentais marginalizados: China, Índia, Rússia e Indonésia". O que não sabemos é se eles já foram avisados e se concordam em priorizar o Brasil em detrimento de Estados Unidos e Europa. A experiência acumulada por Ciro Gomes na administração de um Estado pujante como o Ceará nos permitirá alongar a dívida com os bancos estrangeiros e crescer 5% ao ano, construindo uma nova "ordem multilateral do mundo". Além disso, seremos uma potência militar, graças à estatização integral da indústria de armamentos. Ou seja, parte da Embraer volta para o controle estatal.

Não li o que José Serra e Garotinho planejam fazer com a política externa, porque neste momento eles parecem fora do páreo. Mas uma coisa é certa: se os dois principais candidatos cumprirem suas promessas, vai aumentar a oferta de lavadores de pratos brasileiros nos Estados Unidos.

 
 
   
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