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"Muita gente acredita que os embriões devem ser respeitados como um ser humano desenvolvido. Não acredito nisso" |
Em seus dias de estudante, David Baltimore reclamava de que nenhuma aula ou professor conseguia despertar sua vontade pelo campo que lhe daria um Prêmio Nobel, a biologia molecular. Aos 64 anos, os trabalhos de Baltimore são citações obrigatórias em quase todos os estudos fundamentais sobre as engenharias de DNA, clonagem e pesquisas sobre o câncer ou a Aids. Nascido numa família judaica de Nova York, Baltimore tem 600 trabalhos publicados. Foi o criador do renomado Instituto Whitehead para Pesquisas Biomédicas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), presidiu a Universidade Rockefeller e aos 37 anos tornou-se um dos mais novos ganhadores do Prêmio Nobel pela descoberta do processo de interação entre tumores e vírus, pesquisa vital para o avanço do tratamento contra o câncer e a Aids. Nos anos 80, no auge do sucesso, a divulgação do que seria uma fraude envolvendo Baltimore e uma colega do MIT, a pesquisadora brasileira Thereza Imanishi-Kari, quase liquidou sua carreira. Depois de anos de investigação, ambos foram inocentados. Baltimore é hoje presidente do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), uma escola de ensino superior que se orgulha de ter a maior relação de professores Ph.D. por aluno do mundo. De seu escritório em Pasadena, Baltimore falou a VEJA.
Veja O ex-presidente americano Bill Clinton fez recentemente
a seguinte pergunta aos participantes de um congresso sobre Aids: "Como
explicar a um extraterrestre a existência de uma doença que
pode ser prevenida, contra a qual existem remédios, mas que continua
se espalhando rapidamente pelo mundo?" O que o senhor lhe responderia?
Baltimore
Não entendo a razão da questão formulada por Clinton.
Quase todas as doenças podem ser prevenidas, especialmente quando
você sabe como elas proliferam. O problema é se queremos
mesmo nos esforçar o suficiente para preveni-las. No caso da Aids,
esse esforço deve ser enorme, porque envolve também decisões
pessoais e íntimas, sobre as quais a ciência e os governos
têm pouco ou nenhum poder de convencimento.
Veja O que o senhor acha de ainda existir conflito entre
ciência e religião em pleno século XXI?
Baltimore
Não
vejo uma contradição muito forte hoje em dia entre as religiões
e a prática científica. Nos primeiros anos da luta contra
a Aids, a associação estatística clara entre o vírus
HIV e homens homossexuais apresentou um grande problema. Muitas pessoas,
movidas talvez por questões religiosas, acreditavam que não
deveríamos fazer pesquisas sobre Aids porque julgavam a homossexualidade
imoral. Elas achavam perda de tempo buscar a cura de uma doença
que atingia basicamente homossexuais masculinos. Graças a Deus,
hoje não escutamos mais argumentos dessa natureza. Mas, com certeza,
esse modo de pensar foi uma das maiores barreiras iniciais à ampliação
da luta contra essa terrível doença.
Veja O senhor concorda com a idéia de que os países
do Terceiro Mundo podem desrespeitar patentes para baratear o custo de
remédios essenciais?
Baltimore
Esse é um assunto extremamente complicado. Em primeiro lugar, o
processo de descoberta de medicamentos requer enorme investimento financeiro
e esse investimento só pode ser feito se houver retorno
para os investidores. Isso tem várias implicações.
A mais clara é que o custo dos remédios é ascendente.
Eles ficarão cada vez mais caros. Nos Estados Unidos, geralmente
subsidiamos os remédios para pessoas de baixa renda. Esse processo
funciona muito bem. Quando os pacientes desenvolvem resistência
a certos remédios, novos medicamentos surgem, dando aos médicos
a capacidade de continuar combatendo a doença. Em outras partes
do mundo, as pessoas também querem ter acesso a essas drogas, mas
não querem, ou não podem, pagar o custo de seu desenvolvimento.
Querem apenas que as drogas sejam doadas. Esse esquema pode funcionar
por um tempo, mas não indefinidamente. Atualmente, os EUA estão
subsidiando o resto do mundo, ao pagar os altos custos das pesquisas e
distribuir os medicamentos por um preço bem mais baixo em outros
países. Acredito que essa não seja uma situação
viável no longo prazo. Se os laboratórios americanos cruzarem
os braços e abandonarem a criação de drogas para
substituir aquelas que perdem poder curativo, então não
vejo quem possa fabricá-las.
Veja O programa governamental brasileiro contra a Aids, que
combina medidas preventivas e negociação de preços
com os laboratórios farmacêuticos, tem sido elogiado em todo
o mundo. O senhor conhece o programa brasileiro?
Baltimore
Um
pouco. Nunca estive no Brasil. Mas li na imprensa, especialmente o que
foi divulgado durante o 14º Congresso Internacional de Aids, realizado
recentemente em Barcelona. Parece que o programa brasileiro tem sido bem-sucedido,
e isso é maravilhoso. Gostaria de saber ainda mais sobre o grau
de sucesso na prevenção da doença no Brasil. Prevenir
doenças é o aspecto determinante no longo prazo. Ainda temos
a aprender sobre como as pessoas reagem aos programas de prevenção
e como elas podem ser mais facilmente convencidas a se proteger.
Veja O programa infantil de televisão Vila Sésamo
está criando uma personagem do sexo feminino aparentemente saudável,
mas portadora do vírus HIV. Essa versão irá ao ar
somente na África do Sul, mas diversos políticos dos Estados
Unidos se manifestaram radicalmente contra a idéia...
Baltimore
Sério? Não entendo por quê. Uma das melhores maneiras
de fazer isso é por meio de um personagem de televisão.
A iniciativa do Vila Sésamo é fantástica.
É impressionante que os políticos americanos estejam reclamando
dela.
Veja Os políticos querem controlar a ciência
quando se metem na questão da clonagem, por exemplo?
Baltimore
A clonagem é um processo controverso porque é feita com
a manipulação de células de embrião. Muitas
pessoas são contra o uso de embriões em pesquisa. Acreditam
que devem ser respeitados da mesma forma que um ser humano já completamente
desenvolvido. Não acredito nisso. Mas quem acredita não
quer ver células de embrião sendo usadas em laboratórios,
em hipótese alguma. O Congresso americano tentou entrar nesse debate
científico, mas se viu incapaz de tomar uma decisão. Desde
então os políticos têm silenciado sobre a questão.
Veja Do ponto de vista científico, a clonagem é
um grande feito? Que benefícios ela pode trazer?
Baltimore
A "clonagem terapêutica" é, a meu ver, o objetivo mais atraente.
Com ela será possível produzir células diferenciadas
de qualquer órgão do corpo humano, partindo das células
indiferenciadas chamadas "células-tronco" embrionárias.
Isso permitirá produzir órgãos ou parte deles com
material genético da própria pessoa, evitando os danos que
costumam provocar as rejeições nos transplantes atuais.
Posso vislumbrar alguns desenvolvimentos muito úteis para indivíduos
que sofrem de uma variedade de doenças. O processo será
valioso também quando se tratar de investigar doenças. Poderíamos
clonar células de pessoas que têm determinadas doenças
genéticas, e isso nos ajudaria a entender os principais fundamentos
dessas moléstias.
Veja De tanto ver falsas promessas de tratamento contra o
câncer, as pessoas estão muito descrentes. Há razões
para otimismo na luta contra o câncer?
Baltimore
No curto prazo, costumo dizer que sou pessimista. O câncer não
é uma doença única. O câncer é uma série
de doenças diferentes. Cada um tem uma natureza distinta e tem
de ser tratado separadamente. Então, não acredito que alguma
vez teremos um tratamento único eficaz para todos os tipos de câncer.
Acho que será mais provável vermos muitas maneiras de lidar
com os diferentes tipos da doença que, juntas, podem trazer
enorme progresso no controle do câncer. Mas nenhuma delas será
considerada uma forma de cura.
Veja A abordagem do professor Judah Folkman, de Harvard,
que consiste em matar o tumor de fome, impedindo quimicamente a formação
de vasos sanguíneos a sua volta, é uma esperança
real?
Baltimore
Essa abordagem, chamada de antiangiogênese, é ainda largamente
uma incógnita. Ela não foi devidamente testada. Os experimentos
com animais são interessantes, mas ainda temos um longo caminho
a percorrer antes de sermos capazes de dizer que essa é a via mais
promissora para combater a doença.
Veja O fato de sua mãe ter sofrido de câncer
serviu de estímulo para pesquisar ainda mais sobre a doença?
Baltimore
Quando ela adoeceu, eu já tinha recebido o Prêmio Nobel por
pesquisas relacionadas com o câncer e outras doenças. Por
isso, a doença dela não me trouxe nenhuma sensação
de culpa de não ter feito o melhor possível por ela e por
outros doentes. Meu maior estímulo são meus interesses intelectuais,
e não meus interesses pessoais ou emocionais.
Veja A biologia molecular também é vista pelas
pessoas leigas como um campo de pesquisa que prometeu mais resultados
que os efetivamente conseguidos, não?
Baltimore
Por muitos anos, as pessoas chamaram a atenção para o fato
de que a biotecnologia estaria absorvendo uma quantia enorme de investimento
sem produzir muitos remédios. Mas acho que paramos de escutar isso.
Existem tantos remédios que chegam às prateleiras e tantos
outros em fase de testes que acredito que veremos a revolução
da biotecnologia florescer. Os produtos já obtidos pela biotecnologia
são bastante úteis. Do ponto de vista empresarial, a biotecnologia
tem um desempenho bem mais satisfatório que as empresas de internet
e alta tecnologia. A biotecnologia perdeu valor em bolsa, mas produziu
muita coisa boa para a saúde das pessoas.
Veja Como é ganhar um Prêmio Nobel aos 37 anos?
Baltimore
Embora estivesse trabalhando na área científica havia muito
tempo e não me considerasse assim tão jovem, foi surpreendente.
Hoje, olhando para trás, acho que eu era, de fato, muito jovem.
Acredito que o importante é não fazer sua vida girar em
torno do Nobel. O que importa é dar continuidade ao que você
julga importante pesquisar. A ciência sempre foi tremendamente central
em minha vida. Penso que é um dos mais nobres empreendimentos no
qual podemos nos engajar. Publiquei muito mais pesquisas científicas
depois de ganhar o Prêmio Nobel que antes.
Veja Seu biógrafo, Shane Crotty, escreveu que o senhor
pesquisa mais por curiosidade e não com o objetivo de beneficiar
a humanidade...
Baltimore
Isso é a pura verdade. Essa é uma das razões pelas
quais gosto da Caltech. Há muitas pessoas aqui que têm esse
mesmo sentimento pela ciência. Elas estudam não pelos resultados
práticos, mas porque querem compreender como o mundo funciona.
Veja O senhor apoiou muito sua colega brasileira Thereza
Imanishi-Kari quando foram acusados de fraudar determinados resultados
de pesquisas. Como o caso da fraude afetou sua carreira?
Baltimore
Esse episódio fez parte de minha vida por dez anos. Tive de lidar
com isso diariamente. Ao mesmo tempo, tive de filtrar os problemas, para
ter a capacidade de fazer o que realmente me interessava. Isso testou,
mais uma vez, meu compromisso com as coisas com as quais me preocupo.
Um fato desses é capaz de absorver toda a sua vida, porém
me recusei a deixar que isso ocorresse. Eu poderia realizar algo muito
mais produtivo, mas tinha de gastar meu tempo brigando no Congresso americano,
enfrentando pessoas muito poderosas, para salvar minha reputação
e também a de Thereza. Como ela é brasileira, na época
houve muito interesse sobre o caso no Brasil. Ela hoje leva uma vida relativamente
normal lecionando na Universidade de Tufts, em Boston. Leia
a reportagem de 1996 sobre o caso.
Veja
No www.longbets.org,
internautas fazem previsões e apostas sobre o futuro da ciência.
Que podemos esperar, digamos, dentro de 25 ou cinqüenta anos?
Baltimore
Diria que saberemos como lidar com o câncer muito melhor do que
sabemos hoje. Não diria que haverá uma cura médica,
mas as pessoas estarão vivendo com a doença de uma forma
bem mais tranqüila do que hoje. Gostaria muito de poder dizer que
teremos uma vacina contra a Aids, mas tem sido tão difícil
que não tenho certeza absoluta disso.
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