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Ponto
de vista: Lya Luft
Vamos fazer de conta
"Num devaneio breve, viajei para
o país do sonho e botei na cabeça
o meu boné. O boné do otimismo"
Atômica Studio
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Tanto nos queixamos da atual situação do Brasil, geração
incrédula e confusa que nos tornamos, que de repente, numa
reunião de amigos, divertida e feliz, paramos e indagamos:
Por que estamos tão
descontraídos e contentes? Porque ficamos quase duas horas
sem nos queixar do caos em que estamos metidos até o pescoço,
ainda por cima acusados, como sociedade, dos males que nos atormentam.
Então hoje, cansada de
viagens, palestras e entrevistas, notícias ruins e realidades
péssimas, tiro férias. Boto na cabeça um boné
de esperança e declaro trégua a mim mesma. O Brasil
está ótimo, a situação da saúde
pública quase perfeita, vergonha na cara cobrindo todas as
caras, corruptos punidos, lei rigorosa para todos, e esperança
nos animando. Ninguém propõe que a bagunça,
a corrupção impune, o desrespeito e a roubalheira
além da assustadora violência são
culpa da "sociedade branca", a sociedade "rica". Logo vão
acusar a sociedade preta e pobre. Ou quem sabe os índios,
ou quem sabe os agricultores não os assaltantes do
MST, mas os produtores de alimento, insultados, explorados, humilhados.
Obrigados a movimentos e protestos no país inteiro, a fim
de chamar atenção para o seu desespero.
Aliás, se pudesse, eu
mesma me sentaria sobre um trator daqueles, em inútil desespero
porque o governo acha que um bonezinho gaiato é bem mais
divertido do que escutar quem produz nosso alimento. Para que alimento?
Para que, aliás, comer? Para que estudar? Para que ser honesto
e se sacrificar? A bandidagem nos comanda, os direitos humanos não
se preocupam com meu amigo assaltado, minha amiga ameaçada,
meu vizinho seqüestrado. Preocupam-se com os seqüestradores,
os assaltantes, os assassinos. Estão bem-vestidos, bem alimentados,
distraem-se como convém, são respeitados?
Faço de conta que estou
assistindo, aqui no meu lugar em minha cidade, à posse do
presidente da Itália, que acompanhei dias atrás: a
dignidade, a serenidade, a experiência de um estadista honrado
de 81 anos, famoso advogado, inspirando respeito e homenagens (sóbrias,
nenhuma pompa, nenhum espalhafato) até dos adversários
políticos. Faço de conta que isso aconteceu no meu
país, e a gente sentindo no peito o velho orgulho de crianças
quando no pátio da escola hasteavam a bandeira e a gente
cantava o hino. Faço de conta, aliás, que meu país
é, todo ele, feito uma cidade que conheci recentemente: Goiânia,
que me surpreendeu como poucas coisas nos últimos anos. Bonita,
limpa, organizada, alamedas de palmeiras e vários parques,
com a gente mais acolhedora que já vi. Não percebi
ainda nela o medo estampado no rosto dos moradores de outras cidades
grandes. Faço de conta que meu país é o terraço
de meu apartamento: nem novo nem luxuoso, mas aconchegante, com
uma vista de chorar de tão bonita. Brinquei com meus netos
pequenos um dia, dizendo que comprei aquela paisagem, e o menorzinho
olhou, olhou, e perguntou entusiasmado:
E por onde a gente desce
para brincar?
Pois hoje estou tão sonhadora
quanto aquele menino, e tão otimista quanto as autoridades
que dizem que estamos ótimos, apenas somos uns ingratos,
pois, se algo vai mal por acaso, é culpa de quem veio antes.
Aqui, agora, não se sabe de nada, não se explica nada.
Nem de onde vieram nem para onde foram os bilhões roubados,
que poderiam ter tornado realidade o que eu agora sonho.
Faço de conta que tudo
é farra, minha alma já está na Copa, assim
ignoro que a cidade se debate na insegurança, o estado na
pobreza, o país na esculhambação geral e nós
na desesperança. Ou melhor: esperança a gente tem.
Porque em alguns meses vamos todos empunhar a nossa melhor arma
e com ela fazer a verdadeira revolução: sem sangue,
sem morte, sem violência. A revolução pelo voto.
Mas para isso temos de ser esclarecidos, informados, e não
resignados nem acomodados. Faço, façamos, de conta
que o país está em alta: estará se, entre os
políticos que nos envergonham tão dolorosamente, for
eleito alguém digno, firme. Ele tem, desde já, meu
voto, minha confiança, meu aplauso. Meu entusiasmo
meio precário nestes últimos meses.
Nesse devaneio breve (durante
o qual somos guiados por autoridades com autoridade, políticos
dignos, em cidades seguras, campos produtivos e em paz, filhos em
escolas de alto nível e universidades bem aparelhadas, narcotráfico
e PCC controlados), viajei para o país do sonho e botei na
cabeça o meu boné. Não o do MST, mas o do otimismo.
Agora, vamos desembarcar do sonho e encarar os fatos e as perguntas
reais. Que fatos? Que perguntas? Não sei se quero saber as
respostas. Talvez precise de um boné de coragem.
Lya Luft é escritora
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