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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Seleção
brasileira de estrangeiros
Eles vestirão
a camisa amarela e cantarão o Hino, mas
para eles o Brasil é uma realidade distante
Fred veio em seu próprio carro, desde a França, deslizando pelas
magníficas estradas européias. O grupo de Milão Kaká,
Cafu, Dida chegou junto, também de carro, ao cabo de um confortável
passeio de 200 e tantos quilômetros. Ronaldo desembarcou de jatinho. Ele
tinha viajado com a namorada para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e,
como de lá seria complicado voltar a tempo em avião de carreira,
alugou um. Outros vieram do Brasil, país ao qual por vezes lhes ocorre
dar um pulo, entre um compromisso e outro. O ponto de encontro era Weggis, à
beira do Lago de Lucerna, na Suíça. Era a seleção
brasileira reunindo-se para a Copa da Alemanha. Mas, se se quiser interpretar
como um clube de milionários atendendo ao chamado para sua reunião
quadrienal, também se estará certo.
A nossa será possivelmente a seleção mais bem paga na Alemanha.
Nunca um Brasil tão rico se apresentou a uma Copa do Mundo. Mas, fora detalhes
como vestir a camisa amarela e cantar o Hino..., é o Brasil
mesmo o que eles representam? Seus componentes são brasileiros, mas vivem
a uma distância segura do PCC. Notícias de mensalão e de máfia
das ambulâncias chegam a eles como ecos de um outro mundo. Não por
acaso, o grupo se reuniu na Suíça, onde se pode estacionar o carro
sem trancar as portas e nunca se registrou um caso de bala perdida. Ali se hospedou
no Park Hotel Weggis, sediado numa nobre edificação do século
XIX, e fechado para atendê-lo com exclusividade. O ambiente belle époque
é o da Montanha Mágica, de Thomas Mann, sem a tuberculose.
Os milhões que hoje em dia giram em volta
da seleção brasileira ilustram a evolução do futebol,
em tempos de capitalismo e meios de comunicação globalizados. Em
sua época, Pelé amealhou fortuna que equivaleria à de um
craque de segunda linha hoje. Mas não é bem a riqueza o que empresta
um caráter único à seleção de 2006. É
antes sua característica de legião estrangeira. Em 2002, dos 23
convocados para a Copa do Japão e da Coréia, os jogadores que atuavam
no Brasil ainda eram maioria treze contra dez. Já estávamos
numa fase de exportação maciça de craques, mas ainda assim,
e ainda que por pouco, os de casa eram maioria.
Entre os 23 de agora, só dois jogam no Brasil, Rogério Ceni e Ricardinho.
Os outros 21 são profissionais acostumados a outras línguas e a
outros códigos. Num programa recente, o canal SporTV exibiu Kaká
a circular por Milão, conduzindo seu carro e mostrando a cidade para o
repórter, a seu lado. A certa altura ele pára diante do Convento
de Santa Maria delle Grazie e explica: "É aqui que fica o Cenacolo".
Ele disse "Cenacolo", como os italianos, e não "Santa Ceia",
como os brasileiros se refeririam à célebre obra de Leonardo da
Vinci. Mais adiante, num restaurante, Kaká explicou que todos os cardápios
sugerem uma entrada, depois um primo piatto, depois um secondo,
mas que não se é obrigado a comer tanto. Por toda parte ele era
saudado efusivamente. Movimentava-se pela cidade com a desenvoltura de quem nasceu
lá. A fuga dos jogadores brasileiros para
o exterior decorre de circunstâncias em parte inevitáveis e em parte
evitáveis. A parte inevitável é a atração de
mercados futebolísticos milionários como os da Espanha, Itália,
Inglaterra e Alemanha. Mas há bons jogadores brasileiros atuando até
na Ucrânia e na Turquia. Isso tem a ver com a parte evitável. Se
o futebol brasileiro fosse mais bem administrado, e mais honestamente, os clubes
teriam força para defender seus jogadores, pelo menos, do assédio
turco ou ucraniano. A soma dos fatores inevitáveis com os evitáveis
empurrou o país para a condição de exportador de matéria-prima.
Da mesma forma como nos tempos coloniais éramos exportadores de cana-de-açúcar
ou de ouro, hoje somos de futebolistas. O Brasil regrediu gostosamente à
condição colonial claro que com grandes lucros para muita
gente, senão não seria assim. Os
jogadores são produtos dessa situação. Os mais festejados,
como os da seleção, cercados de atenções e do conforto
que a boa remuneração proporciona, acabam por se dar tão
bem no novo ambiente que o antigo fica lhes parecendo um castigo. Ronaldo já
avisou que ao deixar o futebol continuará a viver na Europa. Ele se acostumou,
e não agüentaria mais morar no Brasil.
Nada contra, nem ao dinheiro que ganham, nem ao modo de vida. O dinheiro eles
têm mais é que ganhar mesmo, estrelas de primeira grandeza de um
espetáculo de massa que são. Quanto ao modo de vida, nada mais justo
do que, para usar o mais simples dos argumentos, querer viver em lugares onde
se circula à noite sem medo e se pode deixar a mãe em casa sem o
risco de ela ser seqüestrada, como aconteceu com a mãe de Robinho
em Santos. Mas que é estranho ter uma trupe de exilados como seleção,
isso é. Eles cantarão o Hino Nacional e serão saudados
com bandeiras verde-amarelas, mas para eles o Brasil é uma realidade distante,
sem muito a ver com as questões do dia-a-dia. |