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Música
A nova onda do tango
O dramático gênero argentino namora
com a eletrônica e quer se globalizar

Sérgio Martins
Divulgação
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| Tanghetto: hits da música pop vertidos para
a linguagem do tango |
O tango argentino já teve
algumas ondas de globalização. Foi assim nos anos
10, quando as primeiras orquestras visitaram Paris, e nos anos 20,
com o cantor Carlos Gardel. Foi assim nos 70, quando o instrumentista
Astor Piazzolla levou sua música a grandes salas de concerto,
inclusive eruditas. Atualmente, uma nova arena internacional se
abre para ele: a das festas de música eletrônica. O
fenômeno tem parentesco com o que já ocorreu com outros
gêneros tradicionais de países "periféricos".
A bossa nova brasileira, por exemplo, também namora o computador.
Mas a força e a velocidade com que o tango eletrônico
se espalha são surpreendentes. O maior sucesso, por enquanto,
é o do grupo Gotan Project, formado pelo guitarrista argentino
Eduardo Makaroff, pelo suíço Christoph Müller
e pelo francês Philippe Solal, que manejam teclados e programações
eletrônicas. Seu primeiro disco, La Revancha del Tango
(2001), vendeu mais de 1 milhão de cópias ao redor
do mundo. Eles acabam de lançar um novo trabalho, Lunático.
O nome do disco é o mesmo de um cavalo de corrida que
foi de Carlos Gardel; os arranjos foram feitos por Gustavo Beytelmann,
antigo colaborador de Piazzolla. Na cola do Gotan Project emergem
grupos radicados na Argentina, como o Tanghetto e o Bajofondo, e
inusitadas bandas suecas, polonesas ou croatas.
O Tanghetto é um dos grupos
argentinos com maior potencial para fazer uma carreira de sucesso.
Ele tem na formação o guitarrista Diego Velázquez
e o tecladista Max Masri, que estudou com Virgilio Expósito,
uma lenda do ritmo argentino. No ano passado, o duo criou versão
de uma música do New Order, ícone eletrônico,
para a trilha de La Mujer de Mi Hermano, do cineasta peruano
Ricardo de Montreuil. As releituras abriram as portas para turnês
pela Europa e pelos Estados Unidos. O Bajofondo é um projeto
coletivo comandado por Gustavo Santaolalla, ganhador do Oscar de
melhor trilha sonora por O Segredo de Brokeback Mountain.
Ele mistura o som dramático do bandoneón (o
acordeão argentino) com ruídos eletrônicos,
mas há quem julgue que seu espírito é ortodoxo.
"Ele faz tango como se faria quarenta anos atrás", espeta
Christoph Müller, do Gotan Project.
O tango é ainda mais central
para a cultura argentina do que o samba para a brasileira. A prova
disso está na assiduidade com que os escritores do país
se debruçam sobre o gênero para usá-lo ou desvendá-lo.
Um exemplo recente está no romance O Cantor de Tango,
lançado em 2004 por Tomás Eloy Martínez,
um dos nomes mais importantes da literatura argentina contemporânea.
Martínez usa a música para refletir sobre a melancolia
que tomou conta dos argentinos no momento mais agudo da crise econômica
do país. Caminhando para trás, percebe-se que nenhum
grande autor argentino deixou de referir-se ao tango. O maior deles,
Jorge Luis Borges, trata do tema, por exemplo, no ensaio Evaristo
Carriego. Borges não gostava dos tangos tristes. Acreditava
que os melhores expressavam uma índole briguenta. "Talvez
a missão do tango seja esta: dar aos argentinos a certeza
de já terem cumprido com as exigências da valentia
e da honra." Mas ele também disse que o tango encerrava,
"como tudo o que é verdadeiro, um segredo".
Em maior ou menor grau, as músicas
do Gotan Project, do Bajofondo ou do Tanghetto têm respeito
e irreverência em relação ao passado. O segredo
do novo sucesso do tango ainda está para ser desvendado,
mas o DJ Christoph Müller tem uma teoria interessante. Ele
acredita que o tango está a caminho de se transformar num
dos principais gêneros da música eletrônica.
"A chave é a intensidade", diz ele. "A intensidade do tango
cativa as platéias."
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