Edição 1958 . 31 de maio de 2006

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Música
A nova onda do tango

O dramático gênero argentino namora
com a eletrônica e quer se globalizar


Sérgio Martins


Divulgação
Tanghetto: hits da música pop vertidos para a linguagem do tango

O tango argentino já teve algumas ondas de globalização. Foi assim nos anos 10, quando as primeiras orquestras visitaram Paris, e nos anos 20, com o cantor Carlos Gardel. Foi assim nos 70, quando o instrumentista Astor Piazzolla levou sua música a grandes salas de concerto, inclusive eruditas. Atualmente, uma nova arena internacional se abre para ele: a das festas de música eletrônica. O fenômeno tem parentesco com o que já ocorreu com outros gêneros tradicionais de países "periféricos". A bossa nova brasileira, por exemplo, também namora o computador. Mas a força e a velocidade com que o tango eletrônico se espalha são surpreendentes. O maior sucesso, por enquanto, é o do grupo Gotan Project, formado pelo guitarrista argentino Eduardo Makaroff, pelo suíço Christoph Müller e pelo francês Philippe Solal, que manejam teclados e programações eletrônicas. Seu primeiro disco, La Revancha del Tango (2001), vendeu mais de 1 milhão de cópias ao redor do mundo. Eles acabam de lançar um novo trabalho, Lunático. O nome do disco é o mesmo de um cavalo de corrida que foi de Carlos Gardel; os arranjos foram feitos por Gustavo Beytelmann, antigo colaborador de Piazzolla. Na cola do Gotan Project emergem grupos radicados na Argentina, como o Tanghetto e o Bajofondo, e inusitadas bandas suecas, polonesas ou croatas.

O Tanghetto é um dos grupos argentinos com maior potencial para fazer uma carreira de sucesso. Ele tem na formação o guitarrista Diego Velázquez e o tecladista Max Masri, que estudou com Virgilio Expósito, uma lenda do ritmo argentino. No ano passado, o duo criou versão de uma música do New Order, ícone eletrônico, para a trilha de La Mujer de Mi Hermano, do cineasta peruano Ricardo de Montreuil. As releituras abriram as portas para turnês pela Europa e pelos Estados Unidos. O Bajofondo é um projeto coletivo comandado por Gustavo Santaolalla, ganhador do Oscar de melhor trilha sonora por O Segredo de Brokeback Mountain. Ele mistura o som dramático do bandoneón (o acordeão argentino) com ruídos eletrônicos, mas há quem julgue que seu espírito é ortodoxo. "Ele faz tango como se faria quarenta anos atrás", espeta Christoph Müller, do Gotan Project.

O tango é ainda mais central para a cultura argentina do que o samba para a brasileira. A prova disso está na assiduidade com que os escritores do país se debruçam sobre o gênero para usá-lo ou desvendá-lo. Um exemplo recente está no romance O Cantor de Tango, lançado em 2004 por Tomás Eloy Martínez, um dos nomes mais importantes da literatura argentina contemporânea. Martínez usa a música para refletir sobre a melancolia que tomou conta dos argentinos no momento mais agudo da crise econômica do país. Caminhando para trás, percebe-se que nenhum grande autor argentino deixou de referir-se ao tango. O maior deles, Jorge Luis Borges, trata do tema, por exemplo, no ensaio Evaristo Carriego. Borges não gostava dos tangos tristes. Acreditava que os melhores expressavam uma índole briguenta. "Talvez a missão do tango seja esta: dar aos argentinos a certeza de já terem cumprido com as exigências da valentia e da honra." Mas ele também disse que o tango encerrava, "como tudo o que é verdadeiro, um segredo".

Em maior ou menor grau, as músicas do Gotan Project, do Bajofondo ou do Tanghetto têm respeito e irreverência em relação ao passado. O segredo do novo sucesso do tango ainda está para ser desvendado, mas o DJ Christoph Müller tem uma teoria interessante. Ele acredita que o tango está a caminho de se transformar num dos principais gêneros da música eletrônica. "A chave é a intensidade", diz ele. "A intensidade do tango cativa as platéias."

 
 
 
 
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