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Brasil O
escudo de Lula O ministro Márcio Thomaz
Bastos livrou o governo de várias crises. No caminho, confundiu
suas atribuições legais com a missão de advogados criminalistas

Policarpo Júnior e Otávio Cabral
Montagem com fotos de Mauricio Lima/AFP e Joedson
Alves/AE  |
| O ministro Thomaz Bastos e o presidente: casamento perfeito
entre um bom advogado criminalista e um governo assombrado por crises de natureza
criminal | VEJA revelou, na semana passada, um encontro secreto
entre o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e Daniel Dantas
o banqueiro do Opportunity investigado desde 2004 pela Polícia Federal
e financiador de um dossiê, preparado por espiões estrangeiros, que
aponta supostas contas, em paraísos fiscais, do presidente Lula, do próprio
Thomaz Bastos e de outras autoridades. Excluído da agenda oficial do ministro
e fora do horário de expediente, o encontro tinha como objetivo estabelecer
uma trégua entre Dantas e o ministro: a polícia e o Congresso deixariam
o banqueiro em paz desde que ele, seus espiões e cúmplices fechassem
a boca. Recorrendo a um velho truque de advogado criminalista, Thomaz Bastos só
admitiu o encontro depois que VEJA o divulgou. Como havia antecipado a revista,
ele se saiu com uma explicação de chefe escoteiro: "Tenho vários
encontros fora da agenda. Esse foi mais um. Uma das minhas funções
é conversar, ouvir os cidadãos. Foi um encontro impessoal, não
fechei nenhum acordo". Os repórteres de VEJA reconstruíram as circunstâncias
do encontro, e a imagem que aparece é a de uma reunião muito produtiva.
Seus resultados: a CPI dos Bingos, numa votação de cartas marcadas,
não convocaria Dantas para depor. Ele receberia um convite para falar na
Comissão de Justiça do Senado, uma instância dócil,
sem poder de investigação. Pode recusar, se quiser.
O pacto deu certo. A CPI, por 6 votos a 5, decidiu não convocar Dantas
para que ele explicasse por que pagou quase 1 milhão de dólares
para obter uma lista com supostos segredos financeiros do presidente Lula e de
várias outras autoridades da República. Cada um dos votos
e até as duas ausências que livraram o banqueiro da convocação
saiu de um plano traçado a quatro mãos por Thomaz Bastos
e Dantas durante o encontro revelado por VEJA. Nesta reportagem, reconstituem-se
os detalhes do encontro entre Dantas e Thomaz Bastos. Encontro, aliás,
que teve um final apoteótico. Depois que o ministro já havia ido
embora, o banqueiro, com o dedo em riste, ameaçou: "Que cumpram comigo
o que foi tratado. Eu não afundo só. Se eu descer, levo junto PFL,
PSDB e PT". A ameaça mostra o arco de partidos aprisionados por segredos
acumulados pelo banqueiro nos últimos quinze anos.
rsiani  | Claudio
Versiani  |
| Os ex-ministros Visconde de Uruguai e Célio
Borja: o primeiro era a espinha dorsal do Império; o segundo sabia diferenciar
Estado de governo | Ao agir
nos porões e distribuir ameaças, Dantas apenas segue o caminho que
escolheu como cidadão e empresário seu destino é o
restolho da história. Mas o que dizer de um ministro da Justiça
que participa de reuniões sigilosas com personagens investigados pela polícia
e que, desde o início dos escândalos de corrupção,
utiliza sua experiência de advogado criminalista para montar versões
que livram do cadafalso institucional políticos graúdos metidos
em falcatruas? Desde o Império, é verdade, sempre coube ao titular
da pasta zelar pela defesa política de seus governos. Aliás, no
Império, o Ministério dos Negócios da Justiça, criado
em 1822, era a própria espinha dorsal da organização política
do governo. Não havia Judiciário independente, então, e os
magistrados funcionavam como autoridades máximas em cidades e povoados.
Eram os representantes da Coroa, meros tentáculos do poder central. Agiam
em nome do imperador. O ápice desse modelo se deu na gestão de Paulino
José Soares de Sousa, o Visconde de Uruguai (1841-1843), quando os magistrados
deixaram de ser eleitos e passaram a ser nomeados pelo próprio ministro
da Justiça. Com os ideais
republicanos expressos na Constituição de 1891, o Judiciário
ganhou autonomia, tornando-se o terceiro poder do Estado, juntamente com o Executivo
e o Legislativo. Juízes e tribunais deixaram de subordinar-se ao governo.
O Ministério da Justiça manteve seu nome, mas ficou ligado ao Executivo.
Sua área de influência passou a encolher e a estender-se ao sabor
das conveniências. Thomaz Bastos não é o primeiro advogado
criminalista a ocupar o mais antigo ministério do Brasil. Vários
o fizeram desde o Império. Thomaz Bastos, no entanto, exibe uma peculiaridade
incômoda: é o primeiro ministro da Justiça a agir como advogado
criminalista do governo a que pertence. Pode ele transportar para a administração
pública cacoetes e missões típicas de sua profissão?
Pode um ministro da Justiça tornar mais difícil o trabalho de investigação
da Polícia Federal que chefia?
A história sugere uma resposta negativa às duas perguntas. Pegue-se
um exemplo de contexto semelhante ao atual: o da crise anterior ao impeachment
de Fernando Collor de Mello, no início da década de 90. Ao contrário
de Thomaz Bastos, o então ministro Célio Borja conduziu seus trabalhos
com isenção e transparência invejáveis. Defendeu o
governo sem defender a corrupção governamental. Permitiu que a Polícia
Federal investigasse Paulo César Farias sem se encontrar com o ex-tesoureiro
de Collor e pivô do escândalo que levaria ao impeachment presidencial.
Por que Thomaz Bastos não segue a cartilha constitucional? Por que insiste
em agir como advogado de petistas encrencados, ditando rumos e estratégias
de defesa e até indicando causídicos aos meliantes? Muito provavelmente
isso se deve ao fato de ele ter em seu currículo inúmeras prestações
de serviço advocatício a Lula e outros próceres petistas
durante o regime militar. Ajudou-os em várias oportunidades a enfrentar
processos políticos e tentativas de intimidação. É
um amigo, portanto, e não um servente profissional ou um aliado político
de ocasião. Ao mesmo tempo em que auxiliava petistas perseguidos, construiu
uma carreira invejável no campo estritamente criminal, que se expressou
tanto em prestígio quanto em patrimônio. Dono de uma fortuna de vários
milhões de reais, apreciador de boa literatura, pintura moderna brasileira
e bons vinhos, Thomaz Bastos exibia, até meados de 2005, quando começou
a estourar o escândalo de corrupção no governo petista, aquela
tranqüilidade e simpatia espontâneas dos profissionais bem-sucedidos
e dos homens felizes na sua vida pessoal.
Adriano Machado/AE  | Liliam
Rana/AE  |
| O tucano Arthur Virgílio (à
esq.) denunciou o "achaque" a Dantas; o petista Sigmaringa Seixas (à
dir.) levou o ministro Thomaz Bastos ao encontro com o banqueiro. Ambos fazem
parte de uma bancada sensível aos interesses do dono do Opportunity |
Com livre trânsito entre políticos
de vários matizes e admirado nas hostes da Polícia Federal, o braço
armado da pasta da Justiça, Thomaz Bastos tinha tudo para figurar na posteridade
como o ministro que, com o aplauso quase geral (alguns criticavam o estardalhaço),
comandara o desbaratamento das grandes quadrilhas que dilapidavam o patrimônio
nacional. A PF, sob seu comando, ganhou uma capa de VEJA, em outubro de 2004,
que celebrava as megaoperações anticorrupção, como
Anaconda, Farol da Colina e Vampiros, e também o processo de depuração
por que passava a corporação. Deve-se ainda a Thomaz Bastos a modernização
dos mecanismos de combate a crimes econômicos, entre eles o da formação
de cartéis. Mas, quando sobreveio a crise que abalou os alicerces da administração
Lula e o próprio Partido dos Trabalhadores, Thomaz Bastos perdeu o estofo
de servidor público para encarnar o perfil menor de advogado de porta de
partido. A vocação de criminalista sobrepôs-se à função
de ministro. A amizade por Lula falou mais alto do que o papel institucional.
Seu lugar na posteridade ganhou nódoas bem escuras para ser apagadas pela
limpeza natural do tempo. Thomaz
Bastos transformou-se num guerreiro que defende, ao preço da própria
dignidade, o seu senhor. Seu modo de agir obedece a um padrão: toda vez
que estoura um escândalo envolvendo membros do governo ou do PT, o ministro
Bastos informa o presidente Lula da gravidade da situação, monta
uma tese de defesa para que os danos sejam os menores possíveis e, por
fim, escala advogados de sua confiança para acompanhar os envolvidos (veja
o quadro). O primeiro caso de que se tem conhecimento da atuação
do ministro como advogado de defesa foi em 2004, quando ajudou o então
presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a safar-se de suspeitas de crime
fiscal e de evasão de divisas. Mas foi no escândalo do mensalão
que o ministro advogado começou a brilhar. O então tesoureiro do
PT, Delúbio Soares, assessorado pelo criminalista Arnaldo Malheiros (indicado
por Thomaz Bastos), foi a público alegar que o dinheiro do valerioduto
não saíra de cofres públicos, mas de empréstimos conseguidos
por Marcos Valério junto aos bancos Rural e BMG. Nos dias seguintes, outros
personagens da crise, também auxiliados por advogados ligados ao ministro,
repetiram a falácia. Até o presidente Lula participou do teatro,
ao dar uma entrevista em Paris, em que reduziu o esquema criminoso a um inocente
caixa dois eleitoral.
Joedson Alves/AE  |
| O deputado Cardozo, maior aliado de Dantas entre os parlamentares
petistas: presente ao encontro com Bastos, ele vinha tentando aproximar o banqueiro
do ex-ministro Gushiken | Celso Junior/AE
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| "QUE CUMPRAM COMIGO O QUE FOI TRATADO. EU NÃO
AFUNDO SÓ. SE EU DESCER, LEVO JUNTO PFL, PSDB E PT" | A
mais notória mistura da função de ministro com a de advogado
criminalista ocorreu no caso da quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo
dos Santos Costa pelo então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. No mesmo
dia em que o sigilo foi quebrado por ordem de Palocci, 16 de março, dois
dos principais assessores de Thomaz Bastos, Daniel Goldberg e Cláudio Alencar,
foram à casa de Palocci para discutir a possibilidade de a Polícia
Federal investigar o caseiro. Uma semana depois, provavelmente após relatos
dos seus dois assessores sobre a conduta de Palocci, Thomaz Bastos foi à
mesma casa, acompanhado do onipresente Malheiros. Lá foi discutida uma
tese de defesa que tentasse salvar Palocci de ser processado e demitido do cargo
de ministro da Fazenda. Na semana
seguinte, quando o encontro foi revelado, Thomaz Bastos disse que apenas ouviu
uma exposição de Malheiros sobre "aspectos gerais da questão".
Mesmo que tenha sido somente isso, o que é difícil de acreditar,
não é função de um ministro da Justiça participar
de conversas para tentar salvar colegas de governo enrolados com os mais variados
e graves crimes. Na semana passada, a Comissão de Ética Pública
da Presidência da República concluiu que Thomaz Bastos não
transgrediu nenhuma norma do governo e que o seu comportamento não feriu
a ética. Uma mão lava a outra e o ministro da Justiça
que ajudou a encobrir a quebra do sigilo bancário de um cidadão,
um dos pilares da ordem democrática em qualquer país civilizado,
safou-se.
Celso Junior/AE  | Fortuna
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| A Polícia Federal, dirigida por Paulo Lacerda
(à esq.), apura a origem dos papéis entregues a VEJA pelo
espião Frank Holder (à dir.), a mando de Dantas. E o banqueiro,
será investigado? | O
encontro secreto entre Dantas e Thomaz Bastos na terça-feira, dia 16, e
não na quarta-feira, como publicou VEJA, é mais um episódio
que fere fundo a biografia do ministro. Thomaz Bastos chegou à casa do
senador Heráclito Fortes, do PFL do Piauí, expoente da "bancada
de Dantas" no Congresso, acompanhado dos deputados petistas José Eduardo
Cardozo e Sigmaringa Seixas. A companhia não foi casual: Dantas usou dos
préstimos de Cardozo para tentar estabelecer uma ponte com seu arquiinimigo
Luiz Gushiken no imbróglio da Brasil Telecom. Seixas, por sua vez, tentou
estabelecer uma ponte entre o banqueiro e o ex-presidente do Superior Tribunal
de Justiça Edson Vidigal, que contrariou interesses de Dantas. Na sala
de estar, trocaram amenidades por cinco a dez minutos. Conversaram sobre a conjuntura
política e sobre os ataques do PCC em São Paulo, que tiveram seu
auge na véspera. Heráclito, então, acomodou seus convidados
em uma varanda de sua casa. Daniel, no início, negou que tenha encomendado
e repassado a VEJA o dossiê das supostas contas no exterior de autoridades.
"Não fui eu. Não investiguei nem entreguei os papéis a VEJA",
mentiu o banqueiro. Thomaz Bastos respondeu que não acreditava na informação:
"No governo, todos têm convicção de que foi você". Dantas
retrucou, em tom de chiste: "Fora Gushiken, quem mais acha isso?". E completou:
"Não sou burro. Divulgar uma lista como essa é uma burrice". Em
seguida, Dantas, o burro, entregou ao ministro uma carta na qual formalizava a
negativa. A carta foi lida pelos outros quatro presentes e voltou ao banqueiro,
que a colocou em um envelope pardo e a entregou a Thomaz Bastos. O banqueiro disse
que mandaria a mesma carta a todos os citados na reportagem de VEJA, inclusive
ao presidente Lula. "Eu aviso isso ao presidente", afirmou o ministro da Justiça.
A revista apurou que o único a não receber a tal carta foi Gushiken
simples descortesia ou ameaça? Um palpite: no depoimento de Gushiken
à CPI dos Correios, em setembro passado, ele recebeu uma ameaça
velada de Heráclito Fortes. O senador disse que a especialidade da Kroll,
a empresa contratada por Dantas, era localizar contas no exterior e que a verdade
viria à tona um dia.
Roosevelt Pinheiro/ABR  | Adriano
Machado/AE  |
| Gushiken (à esq.) e Heráclito
Fortes (à dir.): devidamente municiado por Dantas, o senador do
PFL enviou recados ao amigo de Lula em depoimento na CPI | A
certa altura do encontro na casa de Heráclito Fortes, o deputado Cardozo
perguntou a Dantas: "Se não foi você, então quem fez esse
dossiê?" Dantas não lhe deu resposta objetiva, passando a detalhar
a guerra comercial em torno das empresas de telefonia, dos interesses comerciais
envolvidos e dos processos judiciais que correm nos Estados Unidos uma
tergiversação típica do banqueiro. Thomaz Bastos encerrou
a conversa dizendo que a Polícia Federal investigaria a fundo a elaboração
e a divulgação do dossiê e puniria todos os culpados. "Quero
mesmo que tudo seja investigado para provar que sou inocente", afirmou Dantas.
Por volta das 10 e meia da noite, Thomaz Bastos alegou cansaço, chamou
os dois deputados petistas e foi embora. No carro de Sigmaringa Seixas, assim
que deixaram a casa, o ministro perguntou: "Alguém acreditou em alguma
palavra do que ele disse?". Os dois responderam que não. Na quinta-feira,
após uma reunião de coordenação política do
governo, Thomaz Bastos abordou o presidente Lula, relatou o encontro e disse que
Dantas lhe enviaria uma carta. "O.k., vou esperar a carta", teria respondido o
presidente. Assim se encerra a versão oficial do encontro sigiloso no qual,
dizem as testemunhas, não houve acordo nem trégua.
Os sinais do acordo, porém, não demoraram a aparecer. O mais evidente
foi a derrubada da convocação de Dantas para depor na CPI dos Bingos
do Senado. No dia seguinte ao encontro de Dantas com Thomaz Bastos (17 de maio),
a CPI adiou a reunião que discutiria a convocação do banqueiro.
O primeiro sinal. Na semana passada, após a divulgação do
encontro, a CPI voltou ao tema. Na terça-feira, para surpresa nem tão
geral, a base governista conseguiu derrotar por 6 votos a 5 o requerimento que
previa a convocação. O resultado foi atípico, pois a oposição
é maioria na comissão e consegue aprovar tudo o que quer. Quando
tem dúvida se conseguirá aprovar algum requerimento, a bancada oposicionista
costuma bloquear as votações para evitar a derrota. No caso de Daniel
Dantas, porém, a oposição deixou a proposta ser votada mesmo
com dois de seus senadores ausentes: Augusto Botelho, do PDT, e Mozarildo Cavancanti,
do PTB. No dia seguinte, quarta-feira, a oposição aprovou um requerimento
para Dantas prestar esclarecimentos na Comissão de Constituição
e Justiça do Senado em 7 de junho. A sessão foi tranqüila e
a convocação, aprovada por acordo. A comissão não
tem poder para convocar Dantas a depor, mas apenas para convidá-lo
e convite aceita quem quer. Se aceitar, o banqueiro deverá mentir, é
claro, dizendo que o dossiê com as supostas contas não foi entregue
a VEJA por ele, mas por outras pessoas. É o que vem fazendo nas conversas
informais. Resta saber se a PF, chefiada por Paulo Lacerda e comandada por Thomaz
Bastos, investigará de verdade o banqueiro.
O senador Heráclito Fortes diz que, ao fim da reunião, todos os
visitantes se despediram e foram embora. O encontro sigiloso, porém, não
terminou assim, segundo uma fonte ouvida por VEJA e aí começa
a se esclarecer o teatro do convoca-não-convoca Dantas para depor. Depois
da saída de Thomaz Bastos, o senador Heráclito Fortes e Dantas conversaram.
Irrequieto, o banqueiro andava de um lado para outro da sala. A certa altura,
de dedo em riste, fez aquela ameaça que vale a pena repetir aqui: "Eu não
afundo só. Se eu descer, levo o PFL, o PSDB e o PT juntos". E, antes de
deixar a residência do senador no Lago Sul, o banqueiro, ao se despedir,
ainda disse: "Espero que cumpram o que foi tratado". Segundo uma outra fonte de
VEJA, o trato entre Dantas e Thomaz Bastos foi bem explícito: para garantir
que não fosse convocado pela CPI, o banqueiro disse ao ministro que segurasse
os parlamentares petistas da comissão, porque dos da oposição
ele "cuidava". Aliás, anda fácil "cuidar" da oposição.
Há três semanas, o senador Arthur Virgílio, do PSDB do Amazonas,
denunciou a tentativa de achaque a Dantas feita por Delúbio Soares. Depois
de VEJA revelar que as relações entre o banqueiro e o governo eram
mais complexas, muito mais complexas, Virgílio sumiu do mapa. Por que será?
Dantas sabe. Thomaz Bastos pode ser
muitas coisas, menos ingênuo como certos profissionais do "velhíssimo
jornalismo". Soa no mínimo inverossímil a versão de que o
ministro pegou dois deputados petistas pelo braço e os levou ao encontro
de um desafeto do governo somente para receber uma carta e um desmentido
no qual não acreditou. Ele tem plena consciência do que representa
um encontro como esse com Dantas, às escondidas. Ou deveria representar.
Mas o Brasil vive um tempo sombrio, em que a ética e a moral são
diariamente sufocadas por interesses políticos e políticos interesseiros.
Quando se inaugurar o quadro a óleo de Márcio Thomaz Bastos na galeria
dos ex-ministros da Justiça, ele estará manchado pela dúvida:
foi defensor da justiça como manda a Constituição ou mero
advogado de poderosos pegos com a mão na cumbuca? |