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Entrevista:
José Manuel Durão Barroso Nacionalismo
só destrói O presidente
da Comissão Européia diz que o populismo é ruim para
a imagem da América Latina e para o desenvolvimento
 Diogo
Schelp
Brainpix
 | "A
imagem de que a Europa é protecionista é falsa. Somos o maior importador
de produtos agrícolas dos países emergentes" | |
Como presidente da Comissão
Européia, o órgão executivo da União Européia,
o lisboeta José Manuel Durão Barroso administra as políticas
comuns aos 25 Estados-membros. No dia-a-dia, isso significa tentar encontrar denominadores
comuns entre governos e interesses divergentes. Não poderia ser diferente
num bloco que reúne potências econômicas e políticas,
como a Alemanha, e países de economia anã, alguns recém-saídos
do comunismo, como a Polônia. Entre as funções do presidente
da Comissão Européia está negociar acordos comerciais com
outras regiões do mundo. Durão Barroso chega ao Brasil nesta semana
para uma visita de três dias, que inclui um encontro com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva para, entre outras questões, avaliar a possibilidade
de novas conversações para um acordo entre o Mercosul e a União
Européia. Primeiro-ministro de Portugal entre 2002 e 2004, Durão
Barroso tem tios e primos no Brasil. Seu pai nasceu e morou boa parte da vida
no Rio de Janeiro. O presidente europeu tem 50 anos, é casado e tem três
filhos. Ele concedeu a seguinte entrevista de sua casa, em Lisboa.
Veja O que falta para a Europa derrubar os
subsídios à agricultura, uma reivindicação do governo
brasileiro nas negociações da Organização Mundial
do Comércio? Barroso A Europa tem feito sua parte.
Na reunião da OMC em Hong Kong, no fim do ano passado, aceitamos 2013 como
a data final para terminar com o subsídio à exportação
agrícola. Nossa proposta é bastante generosa. Não só
acabaremos com a subvenção à exportação como
vamos reduzir drasticamente os subsídios à produção.
Também cortaremos em 47% as tarifas de importação que hoje
recaem sobre produtos agrícolas. Alguns países, incluindo o Brasil,
pedem mais. Estamos dispostos a permitir um acesso ainda maior ao nosso mercado,
desde que nossos parceiros, incluindo os Estados Unidos, também façam
concessões. O apoio americano à agricultura nacional é maior
do que o nosso. Ao G20 (grupo de países emergentes, que inclui o Brasil)
pedimos que abram mais seus mercados aos produtos industriais e derrubem barreiras
no setor de serviços. Concordo que o esforço deve ser maior do lado
dos países desenvolvidos. Índia e Brasil, no entanto, podem fazer
concessões suplementares. Veja
A Europa também pode se beneficiar com o fim dos subsídios?
Barroso A Europa ganha porque é o maior bloco comercial
do mundo. Se o sucesso na Rodada de Doha (série de negociações
da OMC iniciada em 2001) é bom para a economia mundial, é positivo
também para a Europa. Haverá um impacto duro sobre alguns setores
produtivos dos nossos países e, conseqüentemente, custos políticos.
Não podemos, no entanto, pensar apenas a curto prazo. É um bom sinal
o fato de, apesar dos diferentes interesses dos países da União
Européia nessas questões, termos conseguido apresentar uma frente
unida nas negociações em Hong Kong.
Veja O presidente Lula disse há três
semanas em Viena que o impasse na Rodada de Doha é responsabilidade dos
países ricos. O senhor concorda? Barroso Todos têm
responsabilidade. Para chegar a um acordo é preciso ver o que cada um pode
fazer. A Europa já fez um grande progresso. Nós hoje temos subsídios
à agricultura, mas grande parte deles não tem o efeito de barrar
as importações. Essa imagem de que a Europa é protecionista
é simplista e falsa. A Europa é de longe o maior importador de produtos
agrícolas dos países em desenvolvimento. Importamos mais produtos
dos países menos desenvolvidos do que todos os outros membros do G8 juntos,
o que inclui Estados Unidos, Canadá, Rússia e Japão.
Veja O senhor acha
que o Brasil é mais protecionista que a Europa? Barroso
Nossas tarifas para a importação de produtos industriais estão
muito abaixo das praticadas no Brasil ou na Índia. A União Européia
já é o principal destino comercial do Brasil. Estamos à frente
dos Estados Unidos, do Mercosul ou da China. Nem sempre foi assim. As exportações
agrícolas brasileiras para a União Européia aumentaram apenas
3% entre 1988 e 1995. De 1995 até 2004 já cresceram 93%. O Brasil
tem um superávit agrícola com a Europa de 8,2 bilhões de
euros, quando em 1995 era de 3,6 bilhões. Estamos disponíveis para
negociar a questão agrícola assim mesmo, porque o nível de
renda aqui é mais elevado. A condição essencial é
que os Estados Unidos e as economias emergentes também cedam. Concordo
com a preocupação do presidente Lula em relação aos
países pobres, mas é preciso separar as coisas. O Brasil não
é Burkina Faso. Há uma diferença entre as grandes economias
emergentes, como o Brasil e a Índia, e outros países menos desenvolvidos.
Estes, sim, precisam de ajuda. Veja
Como o senhor vê as recentes medidas nacionalistas de alguns
governos da América Latina, como a estatização de empresas
estrangeiras? Barroso Patriotas todos nós somos.
A questão é quando há uma tendência populista e chauvinista
em um governo. Isso é negativo. Os países que vão por essa
via serão os principais prejudicados. Em um mundo cada vez mais aberto
e globalizado, mesmo os países pequenos não conseguem ir muito longe
sozinhos. Veja o caso europeu: a Alemanha, a França e a Inglaterra, que
são grandes potências, perceberam que sozinhas não conseguiriam
ter todo o peso de que gostariam. Por isso existe integração regional.
É preciso superar essa visão medíocre de um nacionalismo
chauvinista. Trata-se de um fenômeno perverso que ultrapassa a fronteira
entre a democracia e a demagogia. Isso passa uma imagem negativa da região,
que tem tido um bom desenvolvimento nos últimos anos, com uma democratização
e uma modernização muito intensas. Há, claro, problemas persistentes
e muito graves de exclusão social. Uma coisa é certa: não
é com visões nacionalistas que se consegue o desenvolvimento da
população. Veja
O Mercosul vive seu período mais crítico, com a Argentina
e o Uruguai divergindo devido à construção de fábricas
de celulose na fronteira. O que os membros do bloco têm a perder com isso?
Barroso Em Viena (na cúpula União EuropéiaAmérica
Latina e Caribe, há três semanas), falei com nossos parceiros
do Mercosul para encorajá-los a superar as dificuldades. Esse tipo de problema
é natural em um projeto de integração. Vamos comemorar agora
cinqüenta anos do Tratado de Roma, que criou a Comunidade Econômica
Européia (embrião da União Européia). A CEE
surgiu depois de uma guerra terrível, talvez a pior da história.
França e Alemanha reconciliaram-se e juntaram-se com outros países
para criar o maior exemplo de integração de países. São
nações que se mantêm independentes, mas têm um projeto
em comum. Tenho confiança no Mercosul e acredito que a experiência
européia, devidamente adaptada à realidade da América do
Sul, pode ser uma fonte de inspiração para a região. O Mercosul
pode ter um grande futuro e, para isso, seria essencial uma associação
com a União Européia. O bloco sul-americano poderá ser o
maior exportador mundial de mercadorias agrícolas e agroindustriais. Com
mais investimentos da União Européia, poderia ser também
um exportador relevante de produtos de maior valor agregado.
Veja O acordo comercial entre a União
Européia e o México pode servir de exemplo para o Brasil? Barroso
Desde que firmamos um acordo entre a União Européia e
o México, há seis anos, os investimentos das empresas européias
no país latino-americano duplicaram. Entraram 150 novas companhias européias
no México. Nesse sentido, o potencial do Mercosul é imenso. Se conseguirmos
um acordo de associação entre a União Européia e o
Mercosul, será bom para todos os países da região. Sem contar
a mensagem política positiva que isso teria para superar o tal nacionalismo
populista. Países como o Brasil poderiam assumir o papel de apresentar
ao mundo uma região moderna e avançada, no lugar de uma América
Latina que quer voltar aos tempos do indesejado e primário nacionalismo.
A integração regional é um caminho para descartar essas tendências
políticas negativas. Veja
Há quem diga que com o crescimento dos mercados asiáticos
a América Latina se tornou irrelevante para a Europa. O senhor concorda?
Barroso Em política internacional, há modas e
tendências. É verdade que, hoje em dia, a atenção da
imprensa da Europa e dos Estados Unidos está concentrada na Ásia.
Mas é um erro descuidar da América Latina. Não digo isso
por simpatia ou por minhas ligações pessoais com o Brasil. Há
outros motivos para valorizar a região. Primeiro, uma proximidade cultural
entre Europa e América Latina, que pode facilitar o desenvolvimento de
negócios. Isso não existe em relação à Ásia.
Segundo, os países da América Latina, com algumas exceções
pontuais, são hoje democracias. Terceiro, as taxas de crescimento na região
continuarão sendo muito convidativas nos próximos anos. O Brasil,
por exemplo, conseguiu superar a instabilidade financeira crônica, um fator
fundamental para conquistar a confiança dos mercados globais. Devemos respeitar
o sucesso de países como o Chile. Por tudo isso, eu não compartilho
da idéia de que só a Ásia importa. A América Latina,
por essa forte ligação cultural, deve ser prioridade da União
Européia. Nesse contexto, o Brasil desempenha um papel especial. Afinal,
contrariando a geografia, o Brasil exporta mais para a Europa do que para os países
da própria América. Veja
A Europa vive um dilema: ao mesmo tempo em que precisa importar
trabalhadores, teme a invasão de imigrantes. Como resolver esse impasse?
Barroso A Europa já é, em termos de circulação
de trabalhadores, a região mais livre do mundo. A regra na União
Européia é que qualquer pessoa do bloco tem todo o direito de se
movimentar, de se estabelecer e de trabalhar em outro país como se fosse
um cidadão do local. Há dois anos, de um dia para o outro passamos
de quinze para 25 países, quando houve a ampliação da União
Européia. As medidas de restrição que existem em relação
aos novos países-membros são apenas de caráter transitório.
Essa nova realidade acirra ainda mais o debate sobre receber ou não mão-de-obra
de fora da União Européia. Em alguns países europeus, já
há uma porcentagem muito grande de trabalhadores estrangeiros. Nós
da Comissão Européia defendemos uma política de controle
rigoroso na entrada dos imigrantes, mas de acolhimento generoso. É preciso
haver uma integração real daqueles que querem trabalhar em nossos
países. O fato é que a Europa vai precisar, nos próximos
anos, de mais importação de mão-de-obra. Essa é uma
condição essencial para o nosso desenvolvimento. Quando se compara
o crescimento dos Estados Unidos com o da Europa, percebe-se que isso aconteceu
porque eles importaram muito mais mão-de-obra do que nós.
Veja Como fazer para
que a imigração muçulmana não entre em conflito com
os preceitos éticos e políticos da sociedade européia?
Barroso Esse é um dos grandes dilemas europeus, e as
respostas que se dão a ele são as mais diferentes possíveis.
Há a tese do laicismo oficial, que proíbe o véu em instituições
públicas (como é o caso da França). Outros, entre
os quais me incluo, defendem uma aproximação multicultural. O Islã
também é europeu. A Turquia, a Bósnia e a Albânia têm
maioria islâmica e são países com grande vocação
para entrar na União Européia. A França, a Alemanha e a Inglaterra
têm comunidades islâmicas que são maiores que a população
de muitos de nossos Estados-membros. Sem falar da herança islâmica
na Espanha e em Portugal. Há essa idéia de que a Europa tem em sua
origem cultural fontes como Atenas, Roma e Jerusalém. A formação
greco-romana e judaico-cristã da civilização européia
não pode excluir um inevitável componente islâmico. O lado
islâmico da Europa precisa ser integrado.
Veja Qual é o limite de expansão
da União Européia? Barroso Quando a Bulgária
e a Romênia entrarem no bloco, em 2008, seremos cerca de 500 milhões
de habitantes. Já começamos negociações com a Turquia
e com a Croácia e foi dado status de candidato à Macedônia.
Os países dos Bálcãs já têm reconhecida sua
vocação européia. O consenso neste momento é que não
se devem assumir outros compromissos de ampliação além desses
que citei. Veja
Parte da população européia tem medo da globalização,
à qual atribui a perda de empregos e de privilégios sociais. Como
superar isso? Barroso Estamos batalhando para que a Europa,
em vez de se ver como vítima, se veja como autora e atriz da globalização.
Uma parte da população européia já compreendeu que
esta é uma grande oportunidade. Hoje, uma pessoa de classe média
pode viajar, ter acesso a bens de consumo, conhecimento e educação
com uma liberdade que anos atrás nem uma minoria privilegiada conseguia
ter. Há, claro, riscos na globalização, e algumas categorias
sociais sofrem mais. Para essas pessoas, temos de ter uma política generosa
de apoio e de solidariedade. A maneira de a Europa vencer isso é por meio
da pesquisa científica, da inovação e da tecnologia. Precisamos
ter mais flexibilidade trabalhista e ao mesmo tempo manter os valores de uma economia
social de mercado. Esse é nosso modelo. É um sistema que precisamos
modernizar. Também temos de pensar nos milhões e milhões
que estão saindo da miséria em países como a China ou a Índia.
Se defendemos a solidariedade como valor, não podemos reagir às
economias emergentes com protecionismo. |