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Auto-retrato
Maitena
Editorial Perfil
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Conhecida pela série Mulheres Alteradas, a cartunista
argentina Maitena Burundarena, de 46 anos, estará no Brasil
na próxima semana para lançar as coletâneas
Curvas Perigosas 1 e 2, pela editora Planeta. Seus desenhos
são um retrato bem-humorado das neuroses da mulher contemporânea.
Maitena conversou com a repórter Anna Carolina Mello, por
telefone, do Uruguai, onde vive.
A SENHORA NÃO TEME QUE OS LEITORES
A VEJAM COMO UMA DAS MULHERES NEURÓTICAS DOS SEUS QUADRINHOS?
Não, pois todos os cartuns têm mesmo algo de mim.
Quando eu desenho, me olho no espelho e faço os gestos dos
personagens. As pessoas, quando me encontram, dizem: "Você
é igualzinha a seus desenhos!". E eu gosto disso.
SEU TRABALHO FOI TRADUZIDO EM NOVE LÍNGUAS
E É PUBLICADO EM MAIS DE UMA DEZENA DE PAÍSES. POR
QUE AS MULHERES DE TANTOS LUGARES DIFERENTES SE IDENTIFICAM COM
SEUS DESENHOS?
Porque as mulheres hoje têm as mesmas preocupações
no mundo todo, especialmente na faixa dos 30 ou 40 anos: o trabalho,
a vida afetiva, os filhos, o corpo. Demorei a descobrir isso. Antes,
eu pensava que uma francesa nunca roía as unhas esperando
que um homem telefonasse. São esses clichês: a brasileira
é sempre sexy e desinibida e a francesa é impecável,
divina, sofisticada. Não é assim: até as francesas
roem as unhas. É um alívio saber que essas coisas
acontecem com todo mundo.
AS MULHERES NA FAIXA DOS 30 OU 40 FUNCIONAM
MELHOR PARA O HUMOR?
Depende. Adoro as velhas também, porque elas são
inimputáveis, podem dizer o que quiserem. Então, quando
tenho um texto meio bravo, ou que é politicamente incorreto,
coloco-o na boca de uma velhinha.
FOI DIFÍCIL CONQUISTAR ESPAÇO
NO MEIO DOS CARTUNS, QUE AINDA É ESSENCIALMENTE MASCULINO?
Não foi difícil. Comecei muito jovem e era uma
menina muito bonita. Os homens me recebiam muito bem nas redações
dos jornais. Ofereciam café, água, cigarro. A maioria
dos leitores e criadores de cartuns e quadrinhos é mesmo
masculina, mas as pessoas que compram meus livros não são
os leitores habituais. Muitas mulheres compram simplesmente porque
gostam da temática.
A SENHORA CRIA AS SITUAÇÕES
DOS SEUS QUADRINHOS COM BASE NA OBSERVAÇÃO DE PESSOAS
PRÓXIMAS. ALGUMA VEZ TEVE PROBLEMAS COM ISSO?
Uma vez, desenhei um namorado de minha irmã tal qual
ele era: um arquiteto meio cabeludo, com barba. Ele dizia para minha
irmã que estava divorciado, mas era mentira, e só
descobrimos isso depois da publicação do cartum. A
mulher dele viu a piada numa revista e o reconheceu. Armou-se um
circo, minha irmã brigou comigo, tudo por causa da página.
Mas que culpa eu tinha? Em outra ocasião, fiz uma historieta
em que apareciam seis mães insuportáveis. Quando terminei,
vi que todas eram a cara da minha própria mãe. Foi
inconsciente. É claro que mudei esse desenho.
O QUE SEU MARIDO E SEUS TRÊS FILHOS
PENSAM DE SEU TRABALHO?
Meus filhos não são fãs. É que
eu comecei em revistas underground, escrevia contos eróticos
e, quando tive um pouco mais de sucesso, eles passaram a me achar
muito burguesa. "Mamãe sucumbiu ao sistema", eles dizem.
Daniel, meu marido, às vezes se reconhece nas histórias,
porque nelas eu digo coisas que não diria a ele diretamente.
Nós "discutimos a relação" através das
tirinhas.
VOCÊ UMA VEZ DISSE QUE HOMENS E MULHERES,
NO FUNDO, SOFREM PELAS MESMAS COISAS, E A ÚNICA DIFERENÇA
SERIA O FUTEBOL. VOCÊ NÃO SOFRE NEM UM POUCO POR FUTEBOL?
Eu não o entendo! E tenho uma inveja muito grande dos
homens. Seria maravilhoso ter uma paixão tão grande
que fizesse com que todas as minhas tardes de domingo se transformassem.
Imagina um domingo, às 6 da tarde, sem aquela vontade de
se suicidar? Em vez de se matar, ligar a TV e ser feliz. O grito
de gol é o momento de maior felicidade que já vi um
homem ter.
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