Edição 1958 . 31 de maio de 2006

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Auto-retrato
Maitena


Editorial Perfil


Conhecida pela série Mulheres Alteradas, a cartunista argentina Maitena Burundarena, de 46 anos, estará no Brasil na próxima semana para lançar as coletâneas Curvas Perigosas 1 e 2, pela editora Planeta. Seus desenhos são um retrato bem-humorado das neuroses da mulher contemporânea. Maitena conversou com a repórter Anna Carolina Mello, por telefone, do Uruguai, onde vive.

A SENHORA NÃO TEME QUE OS LEITORES A VEJAM COMO UMA DAS MULHERES NEURÓTICAS DOS SEUS QUADRINHOS?
Não, pois todos os cartuns têm mesmo algo de mim. Quando eu desenho, me olho no espelho e faço os gestos dos personagens. As pessoas, quando me encontram, dizem: "Você é igualzinha a seus desenhos!". E eu gosto disso.

SEU TRABALHO FOI TRADUZIDO EM NOVE LÍNGUAS E É PUBLICADO EM MAIS DE UMA DEZENA DE PAÍSES. POR QUE AS MULHERES DE TANTOS LUGARES DIFERENTES SE IDENTIFICAM COM SEUS DESENHOS?
Porque as mulheres hoje têm as mesmas preocupações no mundo todo, especialmente na faixa dos 30 ou 40 anos: o trabalho, a vida afetiva, os filhos, o corpo. Demorei a descobrir isso. Antes, eu pensava que uma francesa nunca roía as unhas esperando que um homem telefonasse. São esses clichês: a brasileira é sempre sexy e desinibida e a francesa é impecável, divina, sofisticada. Não é assim: até as francesas roem as unhas. É um alívio saber que essas coisas acontecem com todo mundo.

AS MULHERES NA FAIXA DOS 30 OU 40 FUNCIONAM MELHOR PARA O HUMOR?
Depende. Adoro as velhas também, porque elas são inimputáveis, podem dizer o que quiserem. Então, quando tenho um texto meio bravo, ou que é politicamente incorreto, coloco-o na boca de uma velhinha.

FOI DIFÍCIL CONQUISTAR ESPAÇO NO MEIO DOS CARTUNS, QUE AINDA É ESSENCIALMENTE MASCULINO?
Não foi difícil. Comecei muito jovem e era uma menina muito bonita. Os homens me recebiam muito bem nas redações dos jornais. Ofereciam café, água, cigarro. A maioria dos leitores e criadores de cartuns e quadrinhos é mesmo masculina, mas as pessoas que compram meus livros não são os leitores habituais. Muitas mulheres compram simplesmente porque gostam da temática.

A SENHORA CRIA AS SITUAÇÕES DOS SEUS QUADRINHOS COM BASE NA OBSERVAÇÃO DE PESSOAS PRÓXIMAS. ALGUMA VEZ TEVE PROBLEMAS COM ISSO?
Uma vez, desenhei um namorado de minha irmã tal qual ele era: um arquiteto meio cabeludo, com barba. Ele dizia para minha irmã que estava divorciado, mas era mentira, e só descobrimos isso depois da publicação do cartum. A mulher dele viu a piada numa revista e o reconheceu. Armou-se um circo, minha irmã brigou comigo, tudo por causa da página. Mas que culpa eu tinha? Em outra ocasião, fiz uma historieta em que apareciam seis mães insuportáveis. Quando terminei, vi que todas eram a cara da minha própria mãe. Foi inconsciente. É claro que mudei esse desenho.

O QUE SEU MARIDO E SEUS TRÊS FILHOS PENSAM DE SEU TRABALHO?
Meus filhos não são fãs. É que eu comecei em revistas underground, escrevia contos eróticos e, quando tive um pouco mais de sucesso, eles passaram a me achar muito burguesa. "Mamãe sucumbiu ao sistema", eles dizem. Daniel, meu marido, às vezes se reconhece nas histórias, porque nelas eu digo coisas que não diria a ele diretamente. Nós "discutimos a relação" através das tirinhas.

VOCÊ UMA VEZ DISSE QUE HOMENS E MULHERES, NO FUNDO, SOFREM PELAS MESMAS COISAS, E A ÚNICA DIFERENÇA SERIA O FUTEBOL. VOCÊ NÃO SOFRE NEM UM POUCO POR FUTEBOL?
Eu não o entendo! E tenho uma inveja muito grande dos homens. Seria maravilhoso ter uma paixão tão grande que fizesse com que todas as minhas tardes de domingo se transformassem. Imagina um domingo, às 6 da tarde, sem aquela vontade de se suicidar? Em vez de se matar, ligar a TV e ser feliz. O grito de gol é o momento de maior felicidade que já vi um homem ter.

 
 
 
 
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