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André
Petry
Eles não passarão
"O homicida viola os direitos humanos
porque
é bandido, criminoso, mas o Estado
respeita os direitos humanos porque não
é (ou não deveria ser) nada disso"
A Comissão de Direitos
Humanos da prefeitura de São Paulo, nos dias que se seguiram
à saraivada de atentados do crime organizado, recebeu mais
de 200 e-mails e mais de 100 telefonemas com ameaças, desaforos
e xingamentos. O presidente da comissão, o ex-ministro José
Gregori, chegou a receber ligação em sua residência.
No insulto mais leve, chamaram-no de "defensor de bandido". Sua
assessora, Celia Whitaker, também recebeu ofensas e ameaças
na comissão, na sua casa e até em seu celular. Em
alguns telefonemas, houve promessas de perseguição,
com a sugestão velada de que coisas piores poderiam acontecer.
E tudo porque eles como defensores dos direitos humanos
estariam entre os culpados pela onda de atentados que parou São
Paulo.
É uma estupidez himalaica
culpar defensores dos direitos humanos pelos atentados. É
uma soma de estupidez e burrice, porque acontece exatamente o contrário:
atentados, rebeliões e revoltas, ameaças de matança
e chacinas, comandadas ou executadas por presos, acontecem exatamente
porque, entre outros motivos, falta respeito aos direitos humanos.
Porque falta, e não porque há excesso. Porque, entre
outras coisas, essa gente bandida vive como bicho enjaulado.
O espantoso é que uma
parcela ponderável da sociedade a mesma que se calou
diante do massacre de 111 presos no Carandiru ainda não
conseguiu entender que bicho enjaulado age e reage como bicho enjaulado,
e não como preso disciplinado. O espantoso é que essa
parte da sociedade a mesma que acha lindo o deputado paulista
Conte Lopes bradar seus assassinatos de bandidos ainda se
pergunte: por que respeitar os direitos humanos do homicida se ele
não respeitou os direitos humanos de sua vítima? A
resposta é simples: o homicida viola os direitos humanos
porque é bandido, criminoso, mas o Estado respeita os direitos
humanos porque não é (ou não deveria ser) nada
disso.
Os covardes que ameaçam
e insultam anonimamente os membros da Comissão de Direitos
Humanos de São Paulo precisam entender que o que realmente
ajuda a combater a criminalidade não é tratar os criminosos
como lixo humano. É dar-lhes a certeza da punição.
Não é preciso torturá-los, arrancar-lhes os
olhos, deixá-los dormir entre excrementos... Basta puni-los,
com justiça e com rigor. Só isso. Esses covardes são
os mesmos que, diante de um assassinato de maior repercussão
ou coisa parecida, saem logo pedindo para ampliar a lista de crimes
hediondos, aumentar as penas de prisão, aprovar a cadeira
elétrica... É tudo enganação. Pena maior
não resolve nada, pena de morte não resolve nada.
O que resolve é a certeza da punição, rigorosa,
justa e humanamente decente.
Os defensores dos direitos humanos
de negros, de mulheres, de crianças, de todos, inclusive
de presidiários são a consciência civilizatória
do homem. Eles nos dão a esperança de um horizonte
moral. De minha parte, meus aplausos ao ex-ministro Gregori e sua
assessora Whitaker, que não se intimidam diante da estupidez,
da burrice e dos bandidos. Eles não passarão.
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