Queimamos os livros?
"Não se pode
esperar que,
largado à sua
própria iniciativa,
atropelado por mil
compromissos, preparado
precariamente,
cada professor reinvente
a pedagogia
em seu cotidiano"
Ale Setti
 |
Já se propôs uma grande fogueira para os livros
didáticos. Jamais consegui saber se o conselho foi
seguido por alguém. Mas examinando recentemente alguns
livros, por áridos e desinteressantes que são,
até que me invadem sanhas incendiárias.
O movimento construtivista
se rebela contra os livros didáticos e contra o empacotamento
do saber no currículo que "transforma o professor
em mero executante e atribui à indústria editorial
a faculdade de modelar as conotações epistêmicas,
psicológicas e metodológicas do currículo
real, uniformizando a atividade educativa". Para eles, "a
experiência do aluno é que conta ... enfatizando
o conhecimento como criação...".
Não poderia
estar mais de acordo com esta última idéia:
não importa o que se ensina, mas o que o aluno aprende.
Portanto, o aluno deverá ser o centro do processo.
Só empaco na minha compreensão do pensamento
construtivista quando desemboca em uma situação
em que o professor tem de fazer o aluno construir o seu
conhecimento com mínimo auxílio de livros
e outros materiais didáticos. Nesse momento, no meu
pobre entender, o construtivismo descarrilha.
Pensemos no seguinte:
o professor, na sua devoção de levar o aluno
a construir o seu conhecimento, descobre um problema prático,
uma tarefa ou um exemplo que conduz seus alunos a entrar
em um processo mental e emocional que induz ao aprendizado.
Ora, se deu certo, ele irá repetir o problema no
ano seguinte. Poderá também sugerir a seus
colegas que usem o mesmo problema ou método. Por
que, então, se deu certo para esse professor e seus
colegas, não poderá ser descrito em um livro
para que todos tenham a possibilidade de repetir esse exemplo
ou experimento criativo? A rigidez não vem de botar
no livro, de ser prático e concreto, mas de uma maneira
estreita e equivocada de fazê-lo.
É nesse ponto
que tomo um caminho diferente. Quero livros melhores, que
ajudem mais o professor, e não queimá-los
na pira sagrada. O papel tanto aceita a imbecilidade e a
chatice quanto o convite às grandes aventuras do
intelecto. Os grandes ensinamentos da Bíblia,
do Corão e do Buda estão escritos.
O professor tem de
ser ajudado com os melhores materiais escritos, com o mais
elevado nível de detalhes possível, com a
maior riqueza de apoios. Não se pode esperar que,
largado à sua própria iniciativa, atropelado
por mil compromissos, preparado precariamente, cada professor
reinvente a pedagogia em seu cotidiano. Aqueles que pertencerem
à seleta casta dos que podem fazê-lo andarão
sozinhos. A vasta maioria só pode agradecer o apoio
de bons materiais, que ajudam nas minudências do cotidiano,
ao invés de pontificar com teorias grandiosas.
É interessante
verificar o grande êxito dessa outra tendência,
chamada de "ensino estruturado". Por mais de meio século,
o Senai detalhou minuciosamente as suas séries metódicas.
A Escuela Nueva da Colômbia, também baseada
em materiais mastigadinhos, traz para os alunos de escolas
rurais (em que opera o programa) desempenho superior ao
urbano, um resultado surpreendente. O Telecurso 2000,
que funciona muito bem, obrigado, baseia-se em uma forte
estruturação do aprendizado. O bem-sucedido
Acelera Brasil (do Instituto Ayrton Senna) detalha a cada
momento o que vão fazer os alunos. Em uma avaliação
recente dos programas de apoio ao ensino financiados pelo
governo federal americano, descobriu-se que aqueles que
deixavam escolas e professores fazer o que bem entendiam
mostraram piores resultados do que os programas em que havia
muito mais orientação e estrutura apesar
de mais da metade dos professores de 1º e 2º graus
terem mestrado.
Portanto, fogueira
para os livros chatos e mortos. Mas que sejam substituídos
por outros em que as idéias criativas e geniais sejam
bem detalhadas e empacotadas. Viva o construtivismo empacotado!
Claudio de Moura Castro
é economista (claudiomc@attglobal.net)