Edição 1 651 -31/5/2000

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É o amoooor!

A feminista Simone de Beauvoir, quem diria,
sonhava lavar pratos para seu amante americano

Isabela Boscov

Há sempre algo de melancólico em espiar por entre os desvãos da vida pessoal das grandes figuras públicas. E esse é um sentimento que só se aprofunda com a leitura de Cartas a Nelson Algren – Um Amor Transatlântico (tradução de Marcia Neves Teixeira e Antonio Carlos Austregesylo de Athayde; Nova Fronteira; 552 páginas; 59 reais). O livro compõe-se de 304 cartas enviadas pela escritora francesa Simone de Beauvoir, precursora do feminismo e companheira do filósofo Jean-Paul Sartre, ao seu amante americano, o autor Nelson Algren. Simone conheceu Algren numa viagem aos Estados Unidos em 1947. Apaixonou-se perdidamente. Em suas missivas, cobria-o de beijos, apelidava-o de "meu crocodilo", auto-intitulava-se "sua rãzinha" e o chamava de "meu marido". Aos 39 anos, escrevia como se ainda estivesse na adolescência, vivendo o primeiro amor.

Não deixa de ser verdade. Simone conheceu o existencialista Sartre quando tinha 22 anos, e teve com ele suas primeiras experiências sexuais. Mas, como ambos nunca tiveram muita sintonia no plano amoroso, logo o relacionamento se converteu numa comunhão fraterna e intelectual. Não à toa era tão simples para os dois manter seu célebre "casamento aberto". Simone julgava que Sartre não tinha interesse pelo sexo, mas não era bem assim. Ele gostava de seduzir jovenzinhas. Numa visita ao Brasil, em 1960, caiu de amores por uma ruiva. Como a moça era virgem e não queria deixar de sê-lo (ao menos com ele), o pensador se afundou numa esbórnia de álcool e calmantes.

Com Algren, Simone viveu um romance de folhetim. Em dezoito anos, estiveram juntos pouco mais do que meia dúzia de vezes, embora por longos períodos. Na distância, restavam as cartas. As de Simone são castas, mas reveladoras. Em dado momento, ela anuncia que mandou fazer um robe de seda, para que em seu encontro seguinte ele pudesse vê-la lavando pratos com elegância. Para quem defendeu a elevação da condição feminina, é uma ironia e tanto. Pena que as respostas de Algren não puderam ser publicadas, por causa do veto de seus agentes. O casal se correspondeu até 1964, mas o romance já terminara treze anos antes, para desespero de Simone. Em várias ocasiões, ela caiu em prantos ao lembrar-se de seu grande amor. Foi ela, contudo, quem causou o rompimento: sem querer abandonar Sartre, a França e a literatura, recusou todos os pedidos de casamento de Algren. A história ganhou uma escritora engajada e perdeu uma dona-de-casa feliz.

 

"FIEL COMO UMA ESPOSA"

"O que você me disse um dia é verdade, não se deve ser 'fiel' no sentido convencional, se não se tem vontade.
No que me concerne, sei que não poderei dormir com ninguém até rever você. Não poderia suportar as mãos nem os lábios de um outro homem, porque são suas mãos e seus lábios que desejo ardentemente. Serei fiel como uma esposa exemplar e convencional, unicamente porque não poderia fazer de outro modo. Esta é a verdade."

Trecho de carta escrita por Simone de Beauvoir
a Nelson Algren em 28 de setembro de 1947