É o amoooor!
A feminista Simone de Beauvoir, quem diria,
sonhava lavar pratos para seu amante americano
Isabela
Boscov
Há sempre algo de melancólico em espiar por
entre os desvãos da vida pessoal das grandes figuras
públicas. E esse é um sentimento que só
se aprofunda com a leitura de Cartas a Nelson Algren
Um Amor Transatlântico (tradução
de Marcia Neves Teixeira e Antonio Carlos Austregesylo de
Athayde; Nova Fronteira; 552 páginas; 59 reais).
O livro compõe-se de 304 cartas enviadas pela escritora
francesa Simone de Beauvoir, precursora do feminismo e companheira
do filósofo Jean-Paul Sartre, ao seu amante americano,
o autor Nelson Algren. Simone conheceu Algren numa viagem
aos Estados Unidos em 1947. Apaixonou-se perdidamente. Em
suas missivas, cobria-o de beijos, apelidava-o de "meu crocodilo",
auto-intitulava-se "sua rãzinha" e o chamava de "meu
marido". Aos 39 anos, escrevia como se ainda estivesse na
adolescência, vivendo o primeiro amor.
Não deixa de ser verdade. Simone conheceu o existencialista
Sartre quando tinha 22 anos, e teve com ele suas primeiras
experiências sexuais. Mas, como ambos nunca tiveram
muita sintonia no plano amoroso, logo o relacionamento se
converteu numa comunhão fraterna e intelectual. Não
à toa era tão simples para os dois manter
seu célebre "casamento aberto". Simone julgava que
Sartre não tinha interesse pelo sexo, mas não
era bem assim. Ele gostava de seduzir jovenzinhas. Numa
visita ao Brasil, em 1960, caiu de amores por uma ruiva.
Como a moça era virgem e não queria deixar
de sê-lo (ao menos com ele), o pensador se afundou
numa esbórnia de álcool e calmantes.
Com Algren, Simone viveu um romance de folhetim. Em dezoito
anos, estiveram juntos pouco mais do que meia dúzia
de vezes, embora por longos períodos. Na distância,
restavam as cartas. As de Simone são castas, mas
reveladoras. Em dado momento, ela anuncia que mandou fazer
um robe de seda, para que em seu encontro seguinte ele pudesse
vê-la lavando pratos com elegância. Para quem
defendeu a elevação da condição
feminina, é uma ironia e tanto. Pena que as respostas
de Algren não puderam ser publicadas, por causa do
veto de seus agentes. O casal se correspondeu até
1964, mas o romance já terminara treze anos antes,
para desespero de Simone. Em várias ocasiões,
ela caiu em prantos ao lembrar-se de seu grande amor. Foi
ela, contudo, quem causou o rompimento: sem querer abandonar
Sartre, a França e a literatura, recusou todos os
pedidos de casamento de Algren. A história ganhou
uma escritora engajada e perdeu uma dona-de-casa feliz.
"FIEL COMO UMA ESPOSA"
"O
que você me disse um dia é verdade, não
se deve ser 'fiel' no sentido convencional, se não
se tem vontade.
No que me concerne, sei que não poderei dormir
com ninguém até rever você. Não
poderia suportar as mãos nem os lábios
de um outro homem, porque são suas mãos
e seus lábios que desejo ardentemente. Serei
fiel como uma esposa exemplar e convencional, unicamente
porque não poderia fazer de outro modo. Esta
é a verdade."
Trecho de carta
escrita por Simone de Beauvoir
a Nelson Algren em 28 de setembro de 1947
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