Edição 1 651 -31/5/2000

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Argentina

Sem caminito

Pacote tenta salvar imagem da economia dos pampas


De la Rúa enfrenta protestos: argentinos não querem pagar mais impostos

De nada adiantaram os aumentos de impostos, a reforma trabalhista e o discurso de austeridade do novo governo. Menos de seis meses depois de sua posse, o presidente Fernando de la Rúa está sendo obrigado a apertar ainda mais o cinturão dos argentinos para cumprir os compromissos acertados com o Fundo Monetário Internacional (FMI). No novo pacote, cujo anúncio era esperado para sábado, prevê-se um corte nos gastos públicos variando entre 600 milhões e 1 bilhão de dólares. Isso significa passar o facão no orçamento dos ministérios, extinguir ou fundir secretarias, reduzir verbas para as universidades públicas e acabar com a agência estatal de notícias Telam. Tudo por decreto. A parte mais polêmica das medidas prevê a redução escalonada de salários do funcionalismo público.

O ajuste foi especialmente armado pelo ministro da Economia, José Luís Machinea, para impressionar a missão do FMI que chega no dia 31 a Buenos Aires. A Argentina havia se comprometido a manter seu déficit público em 4,7 bilhões de dólares, contra 10,8 bilhões registrados no ano passado. No primeiro semestre, a meta era de 2,7 bilhões de dólares. Somente até abril o rombo já bateu em 2,6 bilhões. O caso, portanto, é gravíssimo. "A estratégia falhou porque o impuestazo gerou expectativas negativas e houve uma notável redução no consumo", justifica o economista Martín Redrado, presidente da Fundação Capital, uma das maiores consultorias do país, que atende a mais de 200 grandes empresas.

Além da decepcionante arrecadação de impostos, os números do início do governo De la Rúa não são nada animadores. Em abril, a construção civil sofreu uma retração de 18% em relação ao mesmo mês de 1999. No comércio, a mão-de-obra foi reduzida em 13% desde julho, de acordo com a Coordenadora de Atividades Mercantis. A atividade industrial cresceu apenas 2,2% no primeiro trimestre. O desânimo contagiou os investidores. O megaespeculador húngaro-americano George Soros se desfez nos últimos meses de boa parte de seus negócios no país. Vendeu os 20% que tinha na Cresud, a maior proprietária de terras da Argentina, e reduziu de 13,5% para 3% sua participação na Irsa, a imobiliária que é dona de shoppings e torres de escritórios.

"Estive dando palestras para investidores nos Estados Unidos e todos me perguntavam: como é que, com uma dívida externa que equivale a 50% do PIB e exportações que representam apenas 10%, a Argentina vai conseguir dólares?", conta o economista Martín Redrado. "O custo de financiamentos no exterior está ficando cada vez mais alto, o que é muito ruim." A Argentina está numa encruzilhada e não sairá dessa situação com o pacote-esparadrapo de última hora. Mais do que um descompasso ocasional, De la Rúa enfrenta obstáculos estruturais. Uma desvalorização cambial, solução rápida para aumentar as exportações e acertar a balança comercial, está fora de cogitação. Feitas as contas, a Argentina é o azarão do páreo global. Mas a comunidade internacional tende a continuar apoiando o país e é bem provável que os representantes do FMI deixem Buenos Aires fingindo estar bem impressionados.

 
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