Argentina
Sem caminito
Pacote tenta salvar imagem da economia
dos pampas
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De la Rúa enfrenta
protestos: argentinos não querem pagar mais
impostos
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De nada adiantaram os aumentos de impostos, a reforma trabalhista
e o discurso de austeridade do novo governo. Menos de seis
meses depois de sua posse, o presidente Fernando de la Rúa
está sendo obrigado a apertar ainda mais o cinturão
dos argentinos para cumprir os compromissos acertados com
o Fundo Monetário Internacional (FMI). No novo pacote,
cujo anúncio era esperado para sábado, prevê-se
um corte nos gastos públicos variando entre 600 milhões
e 1 bilhão de dólares. Isso significa passar
o facão no orçamento dos ministérios,
extinguir ou fundir secretarias, reduzir verbas para as
universidades públicas e acabar com a agência
estatal de notícias Telam. Tudo por decreto. A parte
mais polêmica das medidas prevê a redução
escalonada de salários do funcionalismo público.
O ajuste foi especialmente armado pelo ministro da Economia,
José Luís Machinea, para impressionar a missão
do FMI que chega no dia 31 a Buenos Aires. A Argentina havia
se comprometido a manter seu déficit público
em 4,7 bilhões de dólares, contra 10,8 bilhões
registrados no ano passado. No primeiro semestre, a meta
era de 2,7 bilhões de dólares. Somente até
abril o rombo já bateu em 2,6 bilhões. O caso,
portanto, é gravíssimo. "A estratégia
falhou porque o impuestazo gerou expectativas negativas
e houve uma notável redução no consumo",
justifica o economista Martín Redrado, presidente
da Fundação Capital, uma das maiores consultorias
do país, que atende a mais de 200 grandes empresas.
Além da decepcionante arrecadação
de impostos, os números do início do governo
De la Rúa não são nada animadores.
Em abril, a construção civil sofreu uma retração
de 18% em relação ao mesmo mês de 1999.
No comércio, a mão-de-obra foi reduzida em
13% desde julho, de acordo com a Coordenadora de Atividades
Mercantis. A atividade industrial cresceu apenas 2,2% no
primeiro trimestre. O desânimo contagiou os investidores.
O megaespeculador húngaro-americano George Soros
se desfez nos últimos meses de boa parte de seus
negócios no país. Vendeu os 20% que tinha
na Cresud, a maior proprietária de terras da Argentina,
e reduziu de 13,5% para 3% sua participação
na Irsa, a imobiliária que é dona de shoppings
e torres de escritórios.
"Estive dando palestras para investidores nos Estados
Unidos e todos me perguntavam: como é que, com uma
dívida externa que equivale a 50% do PIB e exportações
que representam apenas 10%, a Argentina vai conseguir dólares?",
conta o economista Martín Redrado. "O custo de financiamentos
no exterior está ficando cada vez mais alto, o que
é muito ruim." A Argentina está numa encruzilhada
e não sairá dessa situação com
o pacote-esparadrapo de última hora. Mais do que
um descompasso ocasional, De la Rúa enfrenta obstáculos
estruturais. Uma desvalorização cambial, solução
rápida para aumentar as exportações
e acertar a balança comercial, está fora de
cogitação. Feitas as contas, a Argentina é
o azarão do páreo global. Mas a comunidade
internacional tende a continuar apoiando o país e
é bem provável que os representantes do FMI
deixem Buenos Aires fingindo estar bem impressionados.
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