Edição 1 651 -31/5/2000

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Fotos Reuters/Gary Prior/Antonio Ribeiro

1 - 1997
14º lugar no ranking
1 600 000 dólares em prêmios

2 - 1998
23º lugar no ranking
700 000 dólares em prêmios

3 - 1999
5º lugar no ranking
1 600 000 dólares em prêmios

4 - 2000
2º lugar no ranking
1 000 000 dólares em prêmios até maio

Guga, o azarão que venceu Roland Garros
em 1997, já é o segundo do ranking mundial
e se transformou no esportista brasileiro
mais bem-sucedido da atualidade

Sérgio Ruiz Luz, de Florianópolis

Gustavo Kuerten é a maior revelação brasileira nas quadras de tênis desde os tempos de Maria Esther Bueno, a brasileira que no começo dos anos 60 foi oito vezes campeã do exclusivíssimo torneio de Wimbledon, na Inglaterra. Aos 23 anos, Guga é mais do que uma revelação. Há uma semana, chegou ao segundo lugar no ranking mundial das raquetes ao vencer seu sétimo campeonato e preparava-se para disputar o torneio mais decisivo de sua carreira, o Roland Garros, em Paris. Foi ali que Guga apareceu para o mundo do tênis, com a força de explosão de uma estrela supernova, ao ser campeão em 1997. Se vencer de novo, poderá ser o primeiro brasileiro a alcançar o posto de número 1 do mundo. Um fenômeno. Esporte caro, que exige investimento em raquetes, bolas, quadras e instrutores, o tênis é praticado por apenas 0,2% da população brasileira. Essa penetração escassa do esporte torna ainda mais espantosa a ascensão de Gustavo Kuerten no pódio internacional, um fenômeno quase tão inacreditável quanto o Brasil ter-se tornado uma potência no automobilismo. Nesta semana, a torcida pela chegada de Guga ao primeiro lugar no ranking dos melhores tenistas do mundo vai tornar ainda mais intensa essa sensação.

 
Oscar Cabral
Suzete Sandim/Tempo
A boa vida de um tenista: Carnaval no Rio de Janeiro, surfe em Florianópolis (acima, à dir.) e música na banda da Copa Davis Suzete Sandim/Tempo

"É o melhor tenista brasileiro de todos os tempos e continua evoluindo", afirma o empresário Jorge Paulo Lemann, campeão brasileiro de tênis na década de 60. Quando se compara o terreno onde germinou o talento de Guga e o que viu crescer o americano Pete Sampras, considerado o mais completo tenista de todos os tempos, fica claro que Gustavo Kuerten, sendo brasileiro, é um fenômeno único. Perto de 20 milhões de americanos jogam tênis regularmente. Os Estados Unidos têm 141 profissionais e sediam 21 torneios oficiais todos os anos. No Brasil de Guga não mais que 400.000 jogadores batem sua bola. Apenas 25 ganham algum dinheiro nas quadras. Aqui, só três torneios (pouco importantes) integram o circuito internacional. Isso explica em parte por que nunca antes o Brasil teve um Guga. Mas não explica por que existe um Guga hoje. A Thomaz Koch, o que chegou mais perto, faltou dinheiro. Para a maioria, faltou disposição ou talento, ou ambos, em doses gigantescas. Diz o ex-tenista Dácio Campos, de São Paulo, que chegou a ser o número 95 no ranking internacional: "Se somarmos todos os jogadores brasileiros das gerações passadas, não dá um Guga". Entre os homens, com certeza. Entre as mulheres o país pode celebrar ter sido o berço de uma das maiores glórias do tênis mundial, a paulista Maria Esther Bueno. Hoje com 60 anos e ativa popularizadora do tênis, ela reinou nas décadas de 50 e 60 como uma das fenomenais atletas do esporte. Somando os jogos de simples e duplas, Maria Esther Bueno tem vinte títulos de Grand Slam, o circuito dos quatro principais torneios do mundo que, além de Wimbledon e do Aberto dos Estados Unidos, inclui Roland Garros e o Aberto da Austrália. Reverenciada até hoje no exterior, ela é descrita no anuário da Federação Internacional de Tênis como a "mais elegante e artística campeã do pós-guerra".


Liane Neves
Vanessa Schütz, a modelo que tirou Guga do sério: "Os olhos verdes e o bumbum são meus"


Quando o tenista começa a respirar o ar rarefeito do topo, a vida muda. O velho Gol que Gustavo dirigia foi substituído por um jipe Cherokee. Embora no Brasil ele não possa mais andar pelas ruas sem ser cercado por fãs, ainda mora na casa dos pais, onde nasceu, uma residência confortável, mas sem luxo, no bairro de classe média de Itacorubi, em Florianópolis. Mora é exagero. Ele passa 300 dias do ano viajando pelo mundo e já não aceita hospedar-se em hotéis baratos, como no início da carreira. Quando ganhou Roland Garros pela primeira vez, Guga e seu treinador, Larri Passos, ficaram hospedados no Mont Blanc, um duas-estrelas meio capenga, bem ao lado do estádio. No ano seguinte, por superstição, ficou de novo no Mont Blanc. Foi eliminado na segunda rodada. Agora, Gustavo Kuerten e seus acompanhantes estão hospedados num apartamento de três quartos alugado pelo jogador em Paris. Em seus períodos na Europa, convida para abrandar a solidão alguns amigos de Florianópolis. "Nossos outros chapas de adolescência sempre vão nas viagens. Eu fui convidado, mas ainda não tive como aceitar", diz um dos amigos de Guga, Perseu Lehmkuhl, 25 anos, instrutor de tênis.

 
Rep. Edu Marques/Soma
Rep. Edu Marques/Soma
Rep. Edu Marques/Soma
Suzete Sandim/Tempo
Reprodução/Valdemir Cunha


Uma estrutura familiar sólida
garantiu o sucesso na carreira.
Já era ligado em música e esporte
desde criança. Ainda usa o
passaporte que tirou quando
tinha 17 anos

Até a semana passada, Guga já havia embolsado 5,1 milhões de dólares em cinco anos de carreira, só em prêmios. Pelas contas dos marqueteiros, significa que pode ter ganho outros 10 milhões de dólares em publicidade. O faturamento do tenista acumulado ao longo da carreira já deve passar dos 20 milhões de reais. É mais ou menos o que ganha num ano um craque consagrado do futebol como Ronaldinho, da Inter de Milão. Romário, que já passeia de Ferrari no Rio de Janeiro, ganha 6 milhões de reais por ano no Vasco. Se Guga chegar mesmo ao topo, seus ganhos podem se multiplicar. O tenista americano Andre Agassi, que terminou a última temporada em primeiro lugar no ranking, fatura cerca de 20 milhões de dólares por ano. "Nosso contrato está relacionado à posição que ele ocupa no ranking. Quanto melhor ele se posiciona, mais dinheiro ganha", afirma Luís Alfredo Maia, representante no Brasil da Diadora, fabricante italiana de material esportivo que o acompanha desde o início da carreira. "Guga tem uma imagem moderna, do garoto que gosta de praia e de ouvir música. É a imagem que queremos vender com nossas roupas", diz Maia. A Diadora, com um faturamento de 300 milhões de dólares por ano, é uma das maiores empresas do ramo na Europa. Patrocina também times de futebol, como o Roma e o Parma, da Itália, e jogadores como Aldair e Roberto Baggio. "Mas o Guga é nosso principal embaixador internacional", garante Maia.

 
Fotos Suzete Sandim/Tempo
empo
Para onde vai o dinheiro: depois de enfrentar dificuldades para bancar a carreira de Guga, a família (acima, da esq. para a dir., a mãe, Alice, e os irmãos, Guilherme e Rafael) agora investe o que ele ganha nas quadras em negócios como um posto de gasolina e em obras assistenciais

Gustavo agora tem de discutir investimentos com o irmão Rafael, de 26 anos, que gere seu patrimônio. "Guga aceita todas as minhas ponderações nos negócios", diz Rafael. Por enquanto, compraram uma escola de tênis, uma pequena construtora e um posto de gasolina em Florianópolis, que fica numa avenida à beira-mar e é um dos maiores da cidade. O resto do dinheiro acumulado por ele está aplicado em bancos. Parte do total arrecadado pelo tenista vai para obras sociais. A cada partida disputada, ele doa 200 dólares a instituições de caridade. Está criando agora o Instituto Guga, uma fundação para profissionalizar sua filantropia. Recentemente, comprou uma casa na cidade para transformar em abrigo para crianças carentes. Outra vai ser comprada em breve, com a mesma finalidade. Boa parte desse envolvimento decorre do fato de que o irmão caçula do tenista sofre de paralisia cerebral. Guilherme, 20 anos, vive numa cadeira de rodas, tem convulsões freqüentes e seu estado de saúde no momento é bastante delicado. Essa situação uniu a família, que se reveza nos cuidados com o caçula. Quando está em casa, Guga faz questão de ajudar a cuidar do irmão.

Com o sucesso vêm os holofotes e o fim da privacidade. Mais cedo ou mais tarde, na vida de todos eles parece inevitável o surgimento de uma mulher bonita que é ou será modelo, com alguma chance de tornar-se apresentadora de TV, como ocorreu com Adriane Galisteu, a última namorada de Ayrton Senna, ou com Susana Werner, a ex do jogador Ronaldinho. Nessa fórmula, costuma também surgir alguma turbulência para o esportista. No caso de Guga, a ex-namorada, Vanessa Schütz, tem 19 anos, é modelo e exibe, além dos olhos esverdeados, um corpo capaz de provocar tanta vibração no ar quanto um saque de 200 quilômetros por hora. Vanessa, um desconforto visível para a família Kuerten, já está fazendo carreira como a ex do Guga. Retratada em poses sensuais em reportagens que todos os órgãos de imprensa se apressaram em fazer, ela reservou uma bomba para o ex-namorado ciumento: aceitou posar nua para a Playboy. Será capa da revista de julho. "Acho inaceitável ela estar usando o nome do Guga para se promover", afirma Rafael. "Namoro é coisa pessoal e não fica bem aparecer detalhes em jornais e revistas." Vanessa acha que tem, sim, todo o direito de falar o que quiser sobre seu relacionamento com o esportista famoso. "O Guga me colocou na mídia, mas os olhos esverdeados e o bumbum são meus", responde a nova modelo, cujo ídolo declarado é Adriane Galisteu. "Vou seguir os passos de Adriane", diz Vanessa, com o olhar sonhador. Ela já tem testes marcados para tentar ser apresentadora da MTV e do canal esportivo Sportv.

Os familiares e os amigos temem que Guga possa aborrecer-se com a súbita notoriedade da ex-namorada. "O Guga é fantástico quando está atuando com a cabeça fresca, mas se torna um jogador muito inferior se pressionado por alguma coisa fora das quadras", afirma Thomaz Koch, 55 anos, uma das glórias do tênis brasileiro. Até Vanessa se preocupou com a questão quando estava com Guga. "Meu pavor era ser acusada de ter atrapalhado a carreira dele", diz ela. "Por isso, procurava ficar na minha. Passávamos muito tempo separados, a família dele tinha ciúme porque era mais uma pessoa para dividir o pouco tempo disponível do filho em Florianópolis. O técnico Larri Passos também achava que o namoro tirava a concentração do Guga", conta Vanessa.


AFP
Com Larri Passos, o treinador que o acompanha desde os tempos de vacas magras mas que já fez seu primeiro milhão


O treinador Larri Passos não gostava mesmo nada do namoro. Ele é parte indivisível do time Guga. Do total de prêmios faturados pelo jogador, 20% ficam nas mãos do técnico. Com isso, nos cinco anos de carreira profissional do pupilo, ele já fez o primeiro milhão de dólares de sua vida. Nascido no município de Rolante, no interior do Rio Grande do Sul, Larri transformou-se numa espécie de pai adotivo desde que o pai verdadeiro de Guga morreu, quando ele tinha 10 anos. Viaja para o exterior com o tenista há mais de dez anos e, da adolescência do aluno até hoje, cuida sozinho de toda a sua preparação técnica. Larri nunca se incomodou com o hábito do tenista de cercar-se dos amigos de praia até fora do Brasil, ainda que pagando as despesas deles com o próprio dinheiro, mas ficou preocupado quando o relacionamento com Vanessa começou a estreitar-se.

Agora Gustavo Kuerten está solteiríssimo. Nessa nova condição, reaproximou-se dos amigos. Nos momentos em que está em Florianópolis, freqüenta com a turma o Café Cancun, a boate mais badalada da cidade. Gosta tanto do lugar que comprou um apartamento num prédio vizinho no ano passado. "Ele disse para mim que vai ser o seu canto quando estiver na cidade", afirma a mãe, Alice Kuerten. Quem convive com Guga atesta também que a fama em nada mudou seu temperamento afável, carismático e simples. "Ele não tem noção de que virou um ídolo internacional", diz o amigo do peito Sérgio Viana. Outro de seus passatempos prediletos fora das quadras é o surfe. Em seu quarto, decorado com retratos do músico jamaicano Bob Marley e do ex-tenista americano John McEnroe, Guga tem uma coleção de seis pranchas, uma série de roupas emborrachadas especiais para cair no mar gelado e um relógio sob medida para quem gosta de pegar ondas. No mostrador de cristal líquido, aparecem informações úteis, como o comportamento das marés e a temperatura da água. Sobre a prancha, é um desastre. Mal consegue manter-se em pé pelo tempo necessário para ser levado até a praia. "O surfe para ele é uma válvula de escape ", afirma Bira Schauffert, 28 anos, um de seus companheiros de prancha.

Outra diversão, essa mais barulhenta, é a música. Com um microfone na mão, o tenista maltrata diversos estilos, do heavy metal ao pagode. Em casa, tem uma coleção com mais de 500 CDs. Apesar do ecletismo, seu grande ídolo nessa área é mesmo Bob Marley, que morreu em 1981, popularizador do reggae e da maconha. Recentemente, Guga aproveitou o período em que estava se recuperando de uma contusão para começar a aprender a tocar violão. Hoje, imagina que distrai os amigos ao tocar músicas de Gilberto Gil e dos grupos Jota Quest e Paralamas do Sucesso. O violão viaja com ele na bagagem, ao lado das raquetes, e o tenista instalou em casa um aparelho de videokê. Os amigos brincam que ele costuma programar o aparelho para dar nota 100 sempre que empunha o microfone.

Assim como o penteado anárquico e o uniforme policrômico tornaram-se elementos associados a Gustavo, seu jogo também vai adquirindo características cada vez mais individualizadas. Com 1,91 metro de altura e 81 quilos, Guga tem um biótipo ótimo para o tênis. Sua "paralela de esquerda", a bola que é rebatida rente à linha lateral da quadra, é um primor de técnica e precisão. "Em seu último jogo, mostrou que não ganha só com a força do saque. Ele consegue parar, pensar, mudar a tática de jogo. É isso que faz a diferença de um bom jogador e um grande campeão", diz Dácio Campos. Além do talento natural, seu aperfeiçoamento é resultado também de um treinamento que em intensidade e constância só tem paralelo nos quartéis de pára-quedistas. Com esforço diário, a velocidade máxima de seu saque subiu de 206 para 212 quilômetros por hora. Hoje o saque do brasileiro só perde em eficiência para o do campeoníssimo Pete Sampras. Quando está sacando, ele consegue marcar pontos em 82% das oportunidades. "Não é só a velocidade que melhorou nesse fundamento do jogo. Melhorou também a variação do saque. De uma jogada para outra, Guga muda o ângulo, o efeito, a força. O adversário nunca sabe o que ele vai fazer", diz o técnico de tênis Marcelo Meyer.

Em Roland Garros, o fenômeno Gustavo Kuerten vai ser testado à exaustão. Sua concentração, precisão e força dos saques estarão sendo desafiadas por adversários poderosos. Para quem chegou a segundo do mundo em pouco mais de dois anos de carreira, não será tão impossível escalar ainda outro furo e atingir o primeiro posto. Mesmo que perca em Roland Garros, a trajetória de Guga para o topo é uma possibilidade que parece fortalecer-se cada vez mais.

 

O sonho de ser Guga

Ser Guga no país dos Ronaldinhos não é fácil. Jogador de tênis fora de série, o Brasil só teve um – Maria Esther Bueno, que ganhou vinte títulos de Grand Slam. Veja por que outros não chegaram aonde Guga está:


Liane Neves

THOMAZ KOCH
(jogou de 1962 a 1981, chegou ao 24º lugar no ranking)

"Faltou uma programação mais inteligente. Tinha de jogar para sobreviver. Nunca tive a chance de participar do Aberto da Austrália. Faltava grana. Estar entre os melhores do mundo não é questão de sorte, mas mérito.
Eu ganhava e perdia. Era só mais um."

 

Luis Dantas

CARLOS ALBERTO KIRMAYR
(jogou de 1971 a 1987, chegou ao 32º lugar no ranking)

"Minha carreira como tenista foi muito tardia e menos focada que a do Guga. Virei tenista por acaso. Atingi o auge aos 32 anos. Não havia profissionalismo no tênis do Brasil. Nessa época, as pessoas jogavam para se divertir e para viajar pelo mundo."

 

Eliane Coster

JAIME ONCINS
(joga desde 1987, chegou ao 34º lugar no ranking)  

"Em 1993, estava numa fase muito boa, mas não soube lidar com as pressões. Perdi a posição no ranking e a confiança. Não sei até onde poderia ter chegado. Devo ter errado em alguma coisa. Quando olho para trás, penso que poderia ter feito mais."

 

Luiz Doro

LUIZ MATTAR
(jogou de 1986 a 1995, chegou a 29º lugar no ranking)  

"Antes de jogar, preferi estudar engenharia. Só aos 22 anos decidi fazer carreira no tênis. Perdi uns cinco anos de adaptação e de experiência. Se tivesse dado prioridade ao esporte, não digo que seria um Guga, mas teria alcançado melhor posição no ranking."

 

Carol do Vale

MARCELO SALIOLA
(jogou de 1987 a 1992, foi campeão mundial juvenil)

"Tinha tudo: talento, técnica, um excelente treinador, patrocinadores. Só faltou vontade e cabeça de querer encarar o circuito, que é longo e cansativo. Optei por ter uma vida mais recatada. Nunca vou ganhar o que o Guga já ganhou, mas prefiro meu estilo de vida."

Com reportagens de Eduardo Nunomura e Fabio Schivartche

 

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